16/04/2020 | Nacional, Notícias

A Tapadinha é a casa de David Roxo nestes “dias estranhos”

David Roxo tem uma ligação ao Atlético “desde o berço”, assistiu a altos e baixos do clube, mas nunca a tempos “tão estranhos” como os do último mês, em que se encontra em confinamento dentro do Estádio da Tapadinha, em Lisboa

O técnico de equipamentos do histórico emblema de Alcântara, de 24 anos, estava habituado ao movimento nas instalações, de manhã com os treinos da equipa de futebol feminino do Benfica até ao final do dia com os vários escalões do clube lisbeta.

Guardião de um espaço habituado a ter muita vida, a pandemia provocada pela covid-19 obrigou-o a suspender rotinas e a olhar para um relvado agora sempre vazio.

“Do portão para dentro, é um deserto”, descreve, em declarações à agência Lusa, David Roxo, que no último domingo, à hora em que os jogos começam, deu por si a observar um estádio com 10 mil lugares onde nada se passa e de onde se vê a Ponte 25 de Abril “com o menor tráfego” de que se lembra.

Neto de Álvaro Roxo, emblemático roupeiro do clube lisboeta, a quem foi dado o nome do balneário do Atlético, David ocupa a mesma casa onde passou a infância e para onde, após a separação dos pais, aos 11 anos, foi viver com “Alvarinho”, como também lhe chamam.

O avô faleceu em 2017, a temporada em que David Roxo herdou o seu cargo no clube.

É no T1 com sala, quarto, cozinha e casa de banho, onde a boina do avô tem lugar de destaque e faixas de campeão de Álvaro Roxo preservam a sua memória, que o técnico de equipamentos tem passado o tempo.

“Parou tudo e toda esta situação é estranha. Eu sinto a falta dos treinos, dos jogos ao fim de semana. Vou ver se é necessário alguma coisa no pavilhão, entretenho-me a fazer exercício, corro no campo, vou vigiando o que se passa, para nada cair no abandono, e faço uns jogos na Playstation, porque a equipa não está junta fisicamente, mas mantém o contacto”, conta, à agência Lusa, David Roxo, também ele antigo jogador dos escalões de formação.

Com Lexa, cadela de raça bulldog francês, sai de casa, na entrada principal do estádio, e passeia pelos lugares que se tornaram familiares desde os dois meses de vida, quando assistiu ao primeiro jogo na Tapadinha.

Está também atento ao que se passa nas imediações, uma vez que, no pavilhão do clube, o basquetebol deu lugar a 40 camas para pessoas sem-abrigo e há vários profissionais a darem apoio. Mais acima está uma unidade de retaguarda, para isolamento.

Dentro de portas a calma tomou conta do espaço, fora há novos protagonistas a passar, como a polícia ou os elementos da proteção civil, com quem vai conversando sobre a evolução e consequências do novo coronavírus.

Nas instalações vive uma outra pessoa que vê todos os dias, o vizinho, um profissional de saúde filho de antigos funcionários do clube.

David Roxo recorda a sua “creche”, a Tapadinha, onde via o avô tratar dos equipamentos na rouparia com um postigo para o balneário e enaltece o palmarés de um clube que deseja ver regressar ao principal escalão do futebol, depois de anos turbulentos que levaram o emblema aos campeonatos distritais.

“Todos nós queremos honrar os que passaram por cá antes e o nosso projeto é reerguer isto o mais alto possível”, sublinha, com pena de quando acontecer não voltar a ver as lágrimas de alegria do avô.

David entende a decisão de terminar os campeonatos não profissionais, mas sentiu-se “triste”.

“Ficou um sabor amargo, porque estávamos na luta, a quatro pontos, e íamos receber em casa os dois primeiros”, diz o técnico de equipamentos, esperançoso num rápido regresso à normalidade e com a convicção de que o percurso do Atlético vai ser um caminho ascendente, rumo aos principais palcos do futebol nacional.

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