Não me conformo com as pequenas injustiças. Aceito as grandes, porque são inevitáveis, como as catástrofes, e atestam a impotência dos deuses. Aquela criança, descalça, apenas precisava de uns sapatos. Se tivesse nascido sem pés, não era tão grande a minha revolta.
António Arnaut, in “As Noites Afluentes”

O surto epidémico do vírus da COVID-19 – emergência de saúde pública de âmbito internacional declarada pela OMS em final de janeiro de 2020, surgiu na China no final do ano passado e até hoje já se propagou a todos os continentes, em 187 países e, em Portugal o primeiro caso foi declarado em 2 de março.
A nossa vida pareceu de um momento para o outro transformar-se, profundamente, pois qualquer um de nós, embora com vivências diferentes, neste período de pandemia, tem um único desabafo – nunca esperei viver isto.
Mas, o que sabemos é que a história alude a eventos desta natureza, como as pestes que se difundiram em muitas sociedades e por vários séculos, e, mais recentemente, desde a década de oitenta, com frequentes infeções como por exemplo ébola, HIV, gripes suína e asiática, todas com origem na progressiva incursão do homem na vida selvagem e ditando a imperiosa necessidade de ações de prevenção e controlo pelos poderes político, económico e de saúde pública, a nível mundial e local. No entanto, não temos aprendido muito e não nos preparámos adequadamente para estas vivências.
Pese embora anteriormente e, em muitos momentos nos aflorar um pensamento dicotómico – ponderarmos que chegaria o tempo em que parte da sociedade deixaria de ter tantos privilégios, como até aí pois não seria possível continuar a aspirar o ter mais e mais todos os dias entre tanta e tanta guerra, fome e miséria no planeta, mas de seguida entendermos que as mordomias e o consumismo louco a que se assistia estavam de tal forma colados à pele dessa parte da sociedade que se percebia que muitos dominavam sobre tudo e todos e não abdicariam em caso algum desse pedestal, por muito que uma parte do mundo lutasse pela melhoria do ambiente, ou por soluções mais justas para os refugiados, para os pobres, para as crianças e para as minorias.
É preciso força para mudar, sobretudo quando o estilo de vida para uma parte significativa da humanidade é muito cómodo. No entanto e, agora também por força da pandemia, as evidências científicas são incontroversas: é impossível a manutenção da exploração da natureza tal como temos assistido ao longo de décadas, bem como a obsessão pelo crescimento económico, em detrimento da preservação da natureza em alinhamento com objetivos de solidariedade e de saúde pública.
A palavra equidade parece ter ganho outro valor e temos tido oportunidade de verificar que este vírus é muito democrático pois não poupa nada nem ninguém. Assusta. Mas será que estamos agora a aprender de facto? Seremos mesmo capazes de infletir percursos? Por vezes os discursos de alguns parecem tão próximos do passado que nos ficam muitas dúvidas. Mas têm acontecido coisas igualmente boas que nos fazem ter esperança.
Os dois últimos meses, no nosso país, mas também no mundo, foram norteadas pela pandemia, pelo medo, pela obsessão pelas notícias, pela preocupação em proteger os mais velhos e mais vulneráveis que se devem manter em casa, a substituição dos afetos em proximidade pela tecnologia que agora quase dominamos, a saudade, tão nossa, daqueles que amamos e de quem a presente situação nos obriga a manter distância para os proteger, porque nos interessa muito a sua vida enquanto pudermos vivê-la, mas sempre com eles em proximidade.
Profissionalmente, quase a fazer as mesmas coisas, mas de uma forma tão diferente, tão solitária, tão estranha. Os corredores do hospital tornaram-se maiores e mais frios e distantes. Aqueles com quem nos cruzamos e que mal reconhecemos, afastam-se e olham-nos com olhar triste e parte da cara coberta, sem sorrisos. Os elevadores são espaços a evitar. As reuniões, cada vez menos presenciais e quando o são têm um ambiente desconhecido, desconfortável. Procuramos a normalidade nos atos e decisões, na busca das respostas rápidas e das soluções adequadas, para a emergência de um vírus que mata, infeta e nos consome a vida e a alma.
Na universidade, perdemos o contacto direto com os alunos. Falamo-nos à distância. Foi necessário modificarmos as aulas adaptando-as a um formato de ensino mais flexível, exigindo novas aprendizagens e partilha e, exigindo outras responsabilidades. Fomos todos obrigados a ser diferentes e a fazer diferente.
Há dias em que nos sentimos perdidos e ausentes. Há outros em que buscamos forças onde parecem não existir e ganhamos a esperança, recriando sonhos e delineando caminhos novos, sobretudo quando assistimos à dedicação, dádiva e, profissionalismo dos nossos profissionais de saúde e sobretudo ao gesto solidário de tantos cidadãos anónimos, empresas e organizações que diariamente nos fazem chegar doações, palavras e ações que nos fazem acreditar no ser humano e nesta nação que desbravou mares e sempre encontrou formas superiores de ser reconhecida. Foi uma janela que se abriu também para mostrar ao nosso povo a verdadeira importância do nosso SNS, que tem sido exemplar.
Um fármaco para tratar e uma vacina para prevenir a doença surgirão, a par com capacitação imunitária, sensíveis ao vírus SARS CoV-2, mas precisam de mais tempo. Resta-nos a esperança de coletivamente usarmos o conhecimento disponível para a mitigação dos danos partilhada com os nossos familiares, amigos, colegas e conhecidos, decididamente voltada para um futuro feliz a que cada um de nós aspira, adotando o desconfinamento vigilante que permita a retoma da vida económica, mas não ponha em causa o que já foi conseguido. Isso requer uma reorganização da nossa vida pessoal, profissional e da sociedade em geral.
Quero muito pensar e acreditar que daqui a um ano poderemos regressar às nossas viagens de família e de amigos, mas também sei que passaremos a ter de nos organizar de uma forma diferente, visando encontrarmos destinos mais seguros e que nos deem garantia de qualidade. Mas estaremos realmente seguros?
Quanto às atividades culturais que juntam um grande número de pessoas, nomeadamente museus, cinemas, teatros ou salas de concertos, em espaços fechados, teremos igualmente de respeitar as regras de segurança exigidas e perseguir precauções universais. Temos de ser capazes.
Precisamos de novas soluções, mas acredito que o conhecimento através da tecnologia e da ciência nos vão permitir reinventar as nossas vidas sustentadamente. Quero muito acreditar que esta nuvem negra e triste vai passar, mas também sei que irá deixar muitas sequelas, muita dor e sofrimento. Mas, sobretudo quero acreditar em coisas simples, tais como contar histórias às minhas pequenas netas, acariciar o rosto da minha mãe de 91 anos, dar um abraço forte aos meus filhos, irmãos, sobrinhos. Juntar os meus amigos.