Investigadores dão nova visão sobre doenças cerebrais raras nas crianças

12 de Maio 2020

A pesquisa da equipa liderada pela Universidade de Sheffield revelou uma nova visão sobre como estas doenças geralmente se desenvolvem. Uma descoberta que pode ser usada para criar terapias mais eficazes.

Investigadores da Universidade de Sheffield deram novos passos na compreensão da causa de doenças cerebrais raras na infância. A descoberta dos académicos do Instituto Universitário de Neurociência e do Centro Bateson mostra que células imunitárias defeituosas do cérebro, denominadas microglia, contribuem para o desenvolvimento de leucodistrofias.

As leucodistrofias são um grupo de doenças neurológicas raras que causam graves deficiências físicas e mentais em crianças. Uma em cada 7.600 crianças é afetada por estas patologias, cujos sintomas geralmente aparecem no primeiro ano de vida e pioram à medida que a criança cresce.

Atualmente, há muito poucos tratamentos disponíveis para tratar estas patologias que, como noutras doenças raras, podem deixar os afetados incrivelmente isolados.

No entanto, a pesquisa da equipa liderada pela Universidade de Sheffield revelou uma nova visão sobre como estas doenças geralmente se desenvolvem. Uma descoberta que pode ser usada para criar terapias mais eficazes.

Os resultados do estudo, publicado na revista “Glia”, sugerem que os distúrbios começam durante o desenvolvimento do cérebro na gravidez.
Quase metade dos nossos neurónios morre durante a formação do cérebro na gravidez e é papel das microglia eliminá-los.

Utilizando modelos transparentes de peixe-zebra para observar diretamente como as células cerebrais se desenvolvem, a equipa de investigadores descobriu que as microglia estavam deterioradas quando tentavam eliminar os neurónios moribundos nos cérebros que desenvolveram leucodistrofia.

Os modelos animais de leucodistrofia são raros e geralmente não se parecem com a patologia humana, pois não possuem as anormalidades cerebrais características e os problemas de movimento observados em pacientes humanos. No entanto, os investigadores criaram o primeiro modelo de peixe-zebra para a leucodistrofia humana e mostraram que esse modelo tinha anomalias físicas e cerebrais semelhantes às dos pacientes.

Noémie Hamilton, investigadora da Associação Europeia de Leucodistrofia (ELA) da Universidade de Sheffield, disse: “O primeiro e principal desafio da microglia durante o desenvolvimento do cérebro é eliminar os neurónios que estão a morrer. Descobrimos que no nosso modelo de peixe-zebra de leucodistrofia humana, a microglia deficiente não conseguiu digerir os neurónios moribundos. As células digerem o seu conteúdo usando os lisossomos, que são um compartimento celular ácido usado como uma fábrica de reciclagem. Mostrámos que o nosso modelo de peixe-zebra tinha defeitos lisossómicos que impediam o desempenho normal da microglia. Isso foi associado a uma resposta inflamatória que poderia danificar o cérebro e ser o início da doença”.

O estudo destaca que o foco nas disfunções precoces, durante o desenvolvimento do cérebro, e nas suas consequências, pode fornecer uma melhor compreensão dessas doenças raras e devastadoras.

No futuro, a investigadora pretende testar se as terapias direcionadas à microglia no início da vida podem aliviar os sintomas, usando o seu modelo pré-clínico exclusivo de peixe-zebra. E espera que as suas descobertas possam ser traduzidas em estudos em humanos para ajudar a identificar novas maneiras de tratar as leucodistrofias infantis.

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