08/06/2020 | Opinião

E depois da Pandemia… Como vai ser Portugal e o Mundo?

António Hipólito de Aguiar
Farmacêutico; Docente Universitário

António Hipólito de Aguiar
Farmacêutico; Docente Universitário

E depois da Pandemia… Como vai ser Portugal e o Mundo?

08/06/2020 | Opinião | 0 comments

Por altura em que escrevo esta crónica ainda não se atingiu o previsível pico da infeção mas o sector farmacêutico, em especial o das farmácias comunitárias, e o da Saúde na generalidade, registaram já francas alterações no seu quotidiano.

Grande parte de Nós deixou de atender os utentes no interior da farmácia, ou se não o fez tem cuidados redobrados como o uso de materiais individuais de proteção e distanciamento físico ao próximo. Também grande número de farmácias viram as suas equipas reduzirem-se em número de colaboradores (por estarem a prestar apoio à família), de um dia para o outro, o que acarretou um acréscimo muito significativo de trabalho aos que ficaram, e de uma pressão associada, própria de quem sabe que muitos dos que servimos dependem ainda mais de nós para terem cuidados de saúde, ou somente uma réstia de esperança para atravessar um momento de grandes incertezas.

O mesmo se aplica naturalmente aos muitos outros profissionais de Saúde, a quem Saúdo e agradeço, como Português, pela determinação e espírito de missão que têm manifestado e que, na ausência de uma estratégia governamental preventiva (que creio poderia e deveria ter sido mais atempada, face aos exemplos vindos de outros países, e particularmente da China onde o surto começou com quase 3 meses de diferença…), foram e são a “Jóia” da Coroa Portuguesa.

Esta pandemia, que alguns querem acreditar ser “fabricada” (e desenvolvem mesmo uma “teoria da conspiração”) e que os ecologistas mais fundamentalistas referem ser mais um aviso da natureza, (e que na realidade teve um enorme impacto na qualidade da atmosfera com uma redução de quase 8% nas emissões globais de carbono, que correspondeu em 2 meses à meta traçada para o ano) promoveu um recentrar, em cada um de Nós, nas prioridades da Vida, e vai ditar, creio, várias alterações no nosso quotidiano futuro, nomeadamente:
– Para a nossa vida social, um afastamento físico, que para um povo latino é difícil de conceber, mas que vamos ter que aos poucos ir concretizando até porque o “Corona” provavelmente não vai ficar por este surto pandémico e terá que ser encarado como mais um vírus a colocar na cartilha dos micro-organismos com maior letalidade. Independentemente deste “invasor” em específico importa que a Humanidade entenda que as ameaças globais já não são visíveis e tipicamente bélicas mas “escondem-se” no domínio da “guerra” biológica, seja fabricada com o cunho humano, seja produzida pela “mãe-natureza”. A este propósito sugiro visionarem a seguinte conferência proferida por Bill Gates, no já longínquo ano de 2015 (: https://www.youtube.com/watch?v=6Af6b_wyiwI).

– Para a economia, adivinha-se um momento de grande recessão. De um episódio conjuntural para os mercados financeiros, a Covid-19, pode mesmo tornar-se na “Grande Depressão” do início do século XXI, curiosamente 90 anos certos após a congénere que lhe deu nome (no domínio da numerologia note-se que o número 9 representa o culminar de um ciclo e o início subsequente de outro). Claro está que o Ser Humano vai saber recriar-se e adaptar-se às circunstâncias nefastas mas para um País como Portugal a situação vais ser complexa, com repercussões sociais que antevejo de grande expressão e que nos podem fazer perigar a segurança e serenidade com que temos vivido.

Novas dinâmicas como o tel-eensino e o teletrabalho sedimentar-se-ão (o que me parece que terá vantagens para todos ao nível do ambiente urbano –ar, água, poluição sonora-, além de podermos dedicar mais tempo aos nossos familiares e amigos pelo ganho de qualidade que é proporcionado) e com isso a maior concretização de serviços domiciliários pelas empresas, em especial as do ramo do comércio e serviços, que do estado de recessão voltarão a ter uma luz no horizonte coma expansão do negócio para “fora” de portas.
Na área da Saúde é inevitável pensar no crescimento da telemedicina como uma consequência desta adaptação, com meios tecnológicos cada vez mais importantes na triagem de situações agudas. Nos locais de prestação de cuidados de saúde, sejam hospitais, centros de saúde, farmácias, o impulso para esta “revolução” acredito que será feita por etapas, mas é um processo irreversível dadas as condicionantes das alterações demográficas a que vimos assistindo com uma cada vez maior expressão da população idosa, que por si só constituem grupos de maior risco epidemiológico.

– No domínio cultural, a globalização a que vínhamos assistindo, por vezes desmedida (e com traços de invasão anglo-saxónica e mais recentemente chinesa, em alguns momentos), deverá refrear, fazendo-nos recentrar nos hábitos regionais, dado que as próprias deslocações como as conhecemos terão, julgo, restrições adicionais, seja ao nível do fluxo, seja do próprio controlo sanitário de entrada nos diversos países. Diria que a Covid 19 será um ensinamento que promoverá uma alteração de hábitos e procedimentos de “largo espectro”, semelhantes ao que o 11 de Setembro criou para a segurança aeronáutica.

Naturalmente que os movimentos políticos partidários do nacionalismo deverão tirar partido desta circunstância para subscrever um retrocesso no federalismo de certas zonas do globo, em especial o do espaço Europeu, mas caberá aos cidadãos compreenderem os verdadeiros contornos desta temática e agirem conscientemente, provavelmente exigindo mais e melhor políticos enquanto surgem espontaneamente mais movimentos de cidadania em vários domínios.

– No domínio antropológico, este é e será, sem dúvida alguma, um momento de “viragem” e consequentemente de reflexão sobre os valores humanos, porquanto em nenhum momento como agora a solidariedade entre concidadãos e povos do Mundo foi tão necessária para não sermos devastados demograficamente e atingidos irreversivelmente na nossa liberdade. Cidadãos envolvidos na sua cidadania e Empresas que se dizem “socialmente responsáveis” têm um raro momento na história da humanidade para darem contributos verdadeiramente importantes e, que serão decisivos para um final menos dramático.

De uma “simples” gripe mais severa, como no início a apelidaram, a Covid-19 veio a revelar-se como um momento severo de mudança, que exige respostas rápidas, governos e políticos atentos e conscientes do real significado de governação, e uma comunidade científica em partilha e comunhão de esforços para a descoberta de uma solução terapêutica.

Não podemos ficar satisfeitos quando vemos os nossos semelhantes a serem vítimas de uma tragédia, mas devemos fazer uma introspeção (agora que alguns de Nós não reclamam de disporem de pouco tempo) sobre a oportunidade que estes momentos em “suspenso” criaram nas nossas vidas!

Deixo-vos uma frase desafiante, mas muito certa em minha opinião, de um dos grandes Humanistas da nossa Civilização. Votos de rápido restabelecimento da “normalidade” das nossas Vidas.

“Temos de nos tornar na mudança que queremos ver”.
Mahatma Gandhi´

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