25/06/2020 | Opinião

Escolioses em tempos de pandemia

Francisco Serdoura.
Coordenador de Deformidades- Unidade de Cirurgia de Coluna e Deformidades do Serviço de Ortopedia de Centro Hospitalar de São João

Francisco Serdoura.
Coordenador de Deformidades- Unidade de Cirurgia de Coluna e Deformidades do Serviço de Ortopedia de Centro Hospitalar de São João

Escolioses em tempos de pandemia

25/06/2020 | Opinião

A COVID-19 é uma doença causada pelo vírus SARS-COV-2, que pertence á mesma família de pandemias prévias, como seja o Síndrome Respiratório Agudo SARS-COV e o Síndrome Respiratório do Médio Oriente MERS-COV. Este novo vírus transmite-se primariamente por contacto direto ou indiretamente por aerossóis ou gotículas libertadas pela via aérea (tosse ou espirros).

O período de incubação médio entre a exposição e a apresentação clínica varia de 3 a 5 dias, podendo em alguns casos ser de até 14 dias. Nos doentes que contraem a doença, o espectro de manifestações é muito variável, podendo ir de doença ligeira autolimitada, até quadros de pneumonia progressiva grave causando falência respiratória e morte.

A média de idades dos doentes afetados ocorre pelos 47 anos, com a grande maioria dos casos ocorrendo entre os 30 e os 79 anos (87%). Apesar da taxa de mortalidade global ser de 2.3% , em doentes de idades extremas (mais de 80 anos) pode ser de 15%. Além da idade, a coexistência de outras co morbilidades pode contribuir para uma maior taxa de mortalidade, nomeadamente doenças cardiovasculares, diabetes, doenças pulmonares e neoplasias.

O PAPEL DO CIRURGIÃO DE COLUNA

Devido à alta transmissibilidade e no corrente momento da pandemia e em que o número de casos continua a crescer em todo o mundo, o sistema de saúde está sob a pressão de não ser capaz de tratar doentes com sintomatologia severa, nomeadamente necessitando de ventilação.

Os cirurgiões de coluna , ao atrasarem a realização de procedimentos eletivos , evitam sobrecarregar os recursos hospitalares , nomeadamente em relação à libertação de recursos humanos que de outras maneira estariam empenhados nos blocos operatórios, bem como de camas hospitalares, Unidades de Cuidados Intensivos, Ventiladores, Reservas de sangue e equipamentos de proteção individual que seriam consumidos em cirurgia. Além de que sendo procedimentos que por vezes obrigam a internamentos prolongados levam a maior risco de infeção contraída em meio hospitalar bem como evitando ter de lidar com complicações num contexto de recursos médicos limitados.

É por isso crucial , neste contexto , identificar os casos de cirurgia de coluna que podem/devem ser realizados e aqueles que não o deverão ser.

TRIAGEM DE CIRURGIA DA COLUNA – AS ESCOLIOSES ONDE FICAM?

As cirurgias de coluna de maior prioridade envolvem situações clínicas que possam deteriorar-se ou do qual resultem lesões irreversíveis ou risco de vida caso não sejam tratadas atempadamente (lesões neurológicas, infeções, fraturas com risco neurológico por exemplo).
A escoliose é uma doença da coluna vertebral que apresenta uma deformidade lateral em forma de curva.

A cirurgia de escoliose , particularmente na idade pediátrica engloba-se , na maior parte dos sistemas de triagem criados pelas diferentes sociedades de referência, no grupo da cirurgia eletiva. Portanto ficariam teoricamente “para trás” em caso de necessidade de priorização cirúrgica.

Como tal, a cirurgia de escoliose obriga, dentro da própria patologia, a um sistema de triagem no sentido de não atrasar o tratamento àqueles doentes que necessitam atempadamente de uma correção cirúrgica. Todas as escolioses são particulares.

Recorda-se que a escoliose , sendo uma doença progressiva na maioria das vezes, caso não tratada no tempo certo poderá levar a uma perturbação da função pulmonar pela deformidade torácica e como tal podendo contribuir para lesões definitivas na capacidade respiratória do doente além de que a progressão de deformidade poderá levar a necessidade de procedimentos cirúrgicos mais agressivo e mais extensos.

ESCOLIOSE – DEVO TER MEDO DA CIRURGIA DO MEU FILHO?

Pode dizer-se que há um receio generalizado e visível da população em relação à frequência do meio hospitalar, que temos de desmistificar. É necessário que haja racionalidade e tranquilidade em quem mais necessita de cuidados: o medo sempre foi um mau conselheiro .

A COVID 19 é uma doença que apresenta quadros clínicos leves ou assintomáticos na faixa etária pediátrica. A pressão sobre as UCI´s pediátricas é praticamente inexistente no que diz respeito à COVID 19.

A testagem total de todos os doentes que vão ser internados, bem como do acompanhante da criança é uma forma de aumentar a segurança quer dos doentes quer dos profissionais.

A existência de cuidados extremos a nível hospitalar de higiene e desinfeção, adequados aos tempos atuais devem ser tranquilizadores para quem tem de estar internado.

A existências de equipas multidisciplinares , envolvendo Pediatras, Anestesistas e Cirurgiões, permite que no estado atual de pandemia , seja possível com toda a segurança e tranquilidade realizar e tratar estes doentes.
Porque eles merecem.

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