Exame de urina revela a qualidade da nossa alimentação

25 de Junho 2020

Cientistas ingleses e norte-americanos terminaram os testes de larga escala de um novo tipo de exame da urina que, em cinco minutos, mede a qualidade da alimentação de uma pessoa.

Cientistas do “Imperial College of London”, em colaboração com colegas da “Northwestern University”, “University of Illinois” e “Murdoch University”, analisaram os níveis de 46 diferentes metabolitos na urina de 1.848 norte-americanos.

Os metabolitos são considerados um indicador objetivo da qualidade da alimentação e são produzidos à medida que os diferentes alimentos são digeridos pelo organismo, explica a equipa de investigação na revista “Nature Food”. O trabalho foi financiado pelos “U.S. National Institutes of Health” e “Health Data Research” do Reino Unido.

Joram Posma, do “Imperial’s Department of Metabolism, Digestion and Reproduction” e autor da investigação, referiu: “a alimentação é um contributo fundamental para a saúde e para a doença humanas, embora seja notoriamente difícil de medir com precisão porque depende da capacidade de um indivíduo se lembrar do que comeu e quanto comeu”.

Por exemplo, “pedir às pessoas para tomarem nota das suas refeições em aplicações ou diários, pode conduzir a relatórios errados sobre o que realmente comem. Esta nova tecnologia permite fornecer informação aprofundada sobre a qualidade da dieta de uma pessoa e se é a mais adequada para si”.

Os resultados revelaram uma associação entre 46 metabolitos da urina, tipos de alimentos ou nutrientes da alimentação. Por exemplo, certos metabolitos estavam correlacionados com a ingestão de álcool, enquanto outros estavam ligados à ingestão de citrinos, frutose, glucose e vitamina C.

A equipa também encontrou metabolitos na urina associados à ingestão de carnes vermelhas, outras carnes como o frango, e nutrientes como o cálcio. Alguns metabolitos estavam ligados a problemas de saúde. Por exemplo, compostos encontrados na urina, como o formato de sódio (um indicador da ingestão de sal), estão ligados à obesidade e à hipertensão arterial.

Paul Elliott, professor catedrático do “Imperial College of London” e co-autor do estudo, afirmou: “através da medição cuidadosa das dietas das pessoas e da recolha da urina excretada durante dois períodos de 24 horas, conseguimos estabelecer ligações entre o consumo de alimentos e os metabolitos presentes na urina, que podem ajudar a melhorar a compreensão sobre como as nossas dietas afetam a saúde. As dietas saudáveis têm um padrão de metabolitos na urina diferente das que estão associadas a piores resultados para a saúde”.

Num segundo estudo, também publicado na “Nature Food” pela mesma equipa do “Imperial College of London”, em colaboração com a Universidade de Newcastle, Universidade de Aberystwyth e Universidade Murdoch – com financiamento do “National Institute for Health Research”, o “Medical Research Council” e “Health Data Research”, do Reino Unido – a equipa utilizou esta tecnologia para desenvolver um teste muito rápido que mostra como a mistura de metabolitos na urina varia de pessoa para pessoa.

Os investigadores dizem que esta tecnologia, que produz a “impressão digital” da urina de um indivíduo, poderia permitir às pessoas receber conselhos alimentares saudáveis adaptados à sua composição biológica individual. Por outro lado, esta “nutrição de precisão” poderia fornecer aos profissionais de saúde informações mais específicas sobre a qualidade da dieta alimentar dos doentes.

Isabel Garcia-Perez, professora catedrática do “Imperial College of London” e autora da investigação, explicou: “A nossa tecnologia pode fornecer informações cruciais sobre a forma como os alimentos são processados pelos indivíduos de diferentes formas e pode ajudar os profissionais de saúde, como os dietistas, a fornecer conselhos dietéticos adaptados a cada doente”.
De acordo com a especialista, a equipa planeia utilizar esta tecnologia com pessoas em risco de doença cardiovascular.

Os investigadores dizem que esta “impressão digital” de urina pode ser utilizada para desenvolver um “score pessoal”, denominado “Dietary Metabotype Score” ou DMS.

Os investigadores pediram a 19 pessoas que seguissem quatro dietas diferentes – desde muito saudáveis (seguindo 100% das recomendações da Organização Mundial de Saúde para uma dieta equilibrada), até pouco saudáveis (seguindo apenas 25% das recomendações da OMS). E constataram que, quanto mais elevada for a pontuação DMS de uma pessoa, mais saudável será o seu regime alimentar. Verificou-se igualmente que uma pontuação mais elevada da DMS estava associada a uma diminuição do açúcar no sangue.

O passo seguinte será investigar de que forma a “impressão digital” dos metabolitos da urina de uma pessoa pode estar relacionada com o risco de doenças como a obesidade, a diabetes e a pressão arterial elevada.

Gary Frost, também do “Imperial College of London” e co-autor do estudo, afirmou: “estas descobertas trazem uma nova e mais profunda compreensão sobre como o nosso organismo processa e utiliza os alimentos a nível molecular”.

John Mathers, co-autor da investigação e diretor do Centro de Investigação em Nutrição Humana da Universidade de Newcastle, acrescentou: “mostramos como pessoas diferentes metabolizam os mesmos alimentos de formas altamente individuais. Isto tem implicações para a compreensão do desenvolvimento de doenças relacionadas com a nutrição e para um aconselhamento dietético mais personalizado”.

Informação bibliográfica:

Garcia-Perez, I., Posma, J.M., Chambers, E.S. et al. Dietary metabotype modelling predicts individual responses to dietary interventions. Nat Food 1, 355–364 (2020). https://doi.org/10.1038/s43016-020-0092-z
Posma, J.M., Garcia-Perez, I., Frost, G. et al. Nutriome–metabolome relationships provide insights into dietary intake and metabolism. Nat Food (2020). https://doi.org/10.1038/s43016-020-0093-y

NR/HN/Adelaide Oliviera

 

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