A projeção é feita por Domingos Alves, especialista em modelagem computacional e porta-voz de um grupo de cientistas das Universidades de São Paulo (USP), que recolhem e monitorizam dados sobre a pandemia e disponibilizam estas informações num site denominado Covid-19 Brasil.

“Nós fazemos várias projeções sobre casos, óbitos e novas infeções e o nosso portal aponta é que o número de casos e o número de óbitos vai crescer nas próximas semanas. Isto difere do que o Governo Federal vem trazendo a público ao dizer que a nossa curva está achatando”, disse Alves.

“Estamos no dia 115 da nossa epidemia [o primeiro registo da doença no país aconteceu em 26 de fevereiro]. A curva de casos e a curva de óbitos vem crescendo de maneira diferente de outros países que achataram a curva de transmissão (…) Com o relaxamento social que esta sendo observado no Brasil, vamos chegar ao dia 01 de agosto com 108 mil óbitos e [esse número] ainda estará crescendo”, acrescentou.

Os dados citados pelo pesquisador foram projetados segundo uma metodologia usada pelo Instituto de Métricas e Avaliação em Saúde, que estabelece estatísticas globais de saúde e avaliação de impacto, na Universidade de Washington.

O especialista também afirmou que no dia 28 de julho o maior país da América do Sul deverá ultrapassar a barreira de 100 mil mortos.

O Brasil que é o país lusófono mais afetado pela pandemia e um dos mais atingidos no mundo, contabilizando mais de 1,5 milhões de casos e mais de 62 mil mortes, ficando atrás apenas dos Estados Unidos.

Investigadores da Universidade Federal de Pelotas destacaram que o país já tem pelo menos oito milhões de infetados pelo novo coronavírus, quase seis vezes mais do que o número oficial, segundo uma pesquisa de larga escala realizada a pedido do Ministério da Saúde brasileiro, que examinou 89.397 pessoas em 133 cidades.

A sondagem indicou que 3,8% das pessoas examinadas entre 21 e 24 de junho tinham anticorpos para a covid-19 nas suas amostras de sangue, ou seja, estavam infetadas ou já tinham estado em contacto com o vírus que transmite a doença.

Projetando essa percentagem, os analistas calculam que se 3,8% dos 211 milhões de brasileiros têm anticorpos para o vírus, pelo menos oito milhões já teriam sido infetados em algum momento nos últimos quatro meses.

Embora não haja sinais de baixa na curva de infeções, desde o início de junho cidades e estados do Brasil experimenta um relaxamento gradual das medidas de isolamento social impostas por governos regionais em quase todo o país.

Enquanto a população tenta voltar ao ritmo de vida anterior a pandemia, é possível perceber que o novo coronavírus avança para cidades menores, no interior, e também voltou a provocar uma alta nas internações hospitalares na metade das capitais dos estados brasileiros.

Um levantamento feito pelo jornal Folha de S. Paulo no dia 29 de junho indicou que o nível de leitos de terapia intensiva, usados no tratamento de casos graves de covid-19, atingiu ao menos 80% em 13 das 26 capitais brasileiras.

“A curva de mortes diárias ela apresenta uma espécie de plateau (quando as infeções param de saltar embora se mantenham num patamar alto até começarem a cair) a partir do dia 01 de junho até o dia 12 de junho. Este número de mortes por dia já começou a aumentar de novo, provavelmente por causa da reabertura [da economia] que começou a ser feita no Brasil”, avaliou o especialista da USP.

O analista frisou que muitos especialistas acreditam que poderá haver um “genocídio” no Brasil: “Com esta flexibilização, todas as evidências apontam que o número de casos vai crescer e o número de óbitos vai crescer. Isto tem sido observado nas regiões centro-oeste e sul do Brasil, que por muito tempo ficaram apartadas do foco da pandemia”.

O Brasil é um dos poucos países que está flexibilizando medidas de isolamento social sem ter controlado o número de casos e de mortes, e um dos países que faz menos testes para detetar a infeção.

“Os 26 governadores brasileiros e mais de 5 mil prefeitos a partir da flexibilização [das medidas de isolamento social] começaram a ficar descolados da realidade dos dados, das evidências [científicas] sem nunca terem seguido as determinações da Organização Mundial da Saúde (OMS) para o controlo a pandemia’”, considerou.

“Quanto ao Governo Federal percebo que não houve um descolamento da realidade, mas uma negação da realidade. Houve uma politização da pandemia, que causou tudo que estamos vendo agora aqui no Brasil. É uma coisa absurda. Boa parte do que não tem sido feito no Brasil se deve ao negacionismo do Governo”, concluiu.

LUSA/HN

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