Transporte intra-hospitalar de doentes internados em UCI é momento de risco

7 de Julho 2020

A questão é de grande atualidade perante os desafios colocados pela Covid-19. Por vezes, os doentes necessitam de ser transportados dentro e entre hospitais.

Quando os pacientes das unidades de cuidados intensivos (UCI) são transferidos para outro serviço do hospital, o fator de risco mais comum é  “a tecnologia e o equipamento que não funciona”. Estas transferências, um momento de risco bem conhecido, foram o tema de uma tese apresentada na Universidade de Gotemburgo.

Transferir pacientes gravemente doentes dentro de um hospital, para investigações e tratamentos, implica sempre riscos. Hoje em dia, no entanto, a maioria destes pacientes necessita de transporte para ser radiografada ou submetida a cirurgia, por exemplo.

A questão é de grande atualidade perante os desafios colocados pela Covid-19. Por vezes, os doentes necessitam de ser transportados dentro e entre hospitais.

A tese mostra que os riscos são comuns. No total, a autora identificou 365 riscos no decurso de 51 transferências de e para duas unidades de UCI num hospital universitário sueco. A mediana foi de sete riscos identificados por transferência.

Na sua investigação, Lina Bergman, uma enfermeira de cuidados intensivos doutorada em Ciências da Saúde pela Academia Sahlgrenska,  da Universidade de Gotemburgo, centrou-se na segurança dos pacientes – uma questão que apresenta verdadeiros desafios quando pacientes gravemente doentes têm de ser transferidos.

“A área de risco mais importante diz respeito à tecnologia e ao equipamento. Por um lado, registaram-se erros e defeitos técnicos: a monitorização deixou de funcionar ou foi acionado um alarme à entrada de um elevador… Mas era sobretudo uma questão de má adaptação: o equipamento não podia ser fixado corretamente à cama ou, por exemplo, os tubos de ventilação eram curtos”, explicou Lina Bergman.

Foram, entretanto, identificados outros riscos do próprio ambiente hospitalar como, por exemplo, passagens estreitas, longas distâncias de transporte ou riscos associados a falhas na coordenação e comunicação. No entanto, os resultados de Lina Bergman indicam que os profissionais conseguem gerir a maioria dos riscos. Os incidentes graves são poucos.

“Penso que todos os que trabalham nos cuidados intensivos sentem estas falhas, que tendem facilmente a ser normalizadas. Estamos muito habituados a não ter as condições adequadas e a encontrar as nossas próprias soluções para que, no final, o doente não sofra”, diz a enfermeira.

O facto de os pacientes geralmente se sentirem seguros e protegidos é evidente a partir das entrevistas realizadas no âmbito da tese. Os doentes tinham grande confiança na perícia dos profissionais dos cuidados intensivos, sentiram que receberam as informações necessárias e que eram feitos todos os preparativos antes das várias fases que uma transferência pode envolver.

A pressão sobre os profissionais, por outro lado, é muito evidente. Sentem que o transporte intra-hospitalar é um momento de alto risco, e isto também é patente nas entrevistas realizadas no decurso da elaboração da tese.

A prestação de cuidados aos doentes críticos durante as transferências dentro do hospital também era, por vezes, vista como stressante e precária, quando se encontravam muito afastados da unidade de cuidados intensivos, pela possibilidade de o estado do doente se deteriorar ou de ocorrer qualquer incidente.

As melhorias propostas pela enfermeira Lina Bergman passam pela implementação de  “checklists”, melhoria da segurança e da coordenação em todo o hospital.

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NR/HN/Adelaide oliveira

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