Nuno Tavares
Assistente Hospitalar de Oncologia Médica

A Vitamina de Deus

27/07/2020 | Opinião

Tanto quanto eu tenha conhecimento, não existem provas científicas da existência de Deus. Ainda. E não será certamente por não haver quem tenha cedido à tentação de o tentar demonstrar.

Acreditar em Deus é uma matéria mais do âmbito da fé que dos factos. Não será necessária grande evidência para que o mais singelo devoto possa sentir a presença de Deus numa brisa fresca numa tarde de Verão; ou num doce e titubeante chilrear de um pássaro numa manhã de Primavera; ou num seco e criterioso crepitar de uma lareira acesa numa fria noite de Inverno; ou no lento trajeto descendente até ao solo de uma folha seca em pleno Outono. A ciência poderia descrever pormenorizadamente as circunstâncias em que cada um destes fenómenos se desenvolve e reproduz. Contudo, a fé é um mecanismo mais simples e recompensador porque nos permite encontrar uma única explicação para todos eles – fácil, transversal, desarmante, evidente.

Caso Deus, na Sua infinita perfeição, nos tenha criado imperfeitos, pode muito bem ter escondido nas coisas mais simples da vida a solução para todos os males. Imaginem-se deitados, absorvendo calmamente cada um dos quatro cenários atrás referidos, tendo como única condição de base o Sol – astro maravilhoso – lá em cima a velar por nós. Imaginem que Deus, na Sua insondável magnificência, permite ao ser humano sorver pelo Sol o seu elixir pluripotente – a vitamina D, de Deus. Porquê negar à partida esta manifestação do poder divino? O que é que a ciência nos tem dito sobre essa possibilidade?

Os últimos anos têm sido pródigos no estabelecimento da vitamina D como a verdadeira panaceia. É relativamente fácil encontrar artigos científicos que demonstram isso mesmo: vitamina D e imunidade; vitamina D e cancro; vitamina D e asma; vitamina D e esclerose múltipla; vitamina D e doenças cardiovasculares; vitamina D e doença renais; vitamina D e depressão; e por aí fora. Não será difícil encontrar artigos que relacionem o défice da vitamina D, entidade tão prevalente, com a quase totalidade das patologias conhecidas. Note-se que até a COVID-19, entidade nosológica com pouco mais do que meia dúzia de meses de existência tem já essa relação estabelecida, descrita, desmascarada – para lá de qualquer dúvida razoável! O que mais é preciso para deixar a vitamina de Deus seguir o seu percurso triunfal de providenciar vitalidade e mortalidade ao ser humano?

O que falta é um pormenor muito simples – falta ciência, evidência, factos. Existem efetivamente casos muito particulares em que a suplementação de vitamina D tem benefícios concretos e em que a sua suplementação deve ser equacionada, como são exemplos as doenças osteoarticulares. Contudo, o que assistimos nos dias correntes é uma contínua tentativa forçada de arranjar correlações entre o défice de vitamina D e os mais variados outcomes clínicos, sem que depois se verifique causalidade e benefício evidente com a suplementação.

Não é objetivo deste texto escalpelizar toda a literatura científica sobre o tema – que é vasta e profundamente cansativa! – Mas, a título de exemplo, vejamos o seguinte. Quem segue as publicações do New England Journal of Medicine, revista médica com maior fator de impacto no mundo, reparou certamente que têm sido publicados nos últimos anos vários artigos originais em que se estudou o efeito da suplementação de vitamina D (em pessoas com défice comprovado da mesma) na prevenção e/ou tratamento de diferentes patologias. Sabem quais foram os resultados? Diminuição do risco de Tuberculose ou infeções respiratórias em crianças – não demonstrado (Ganmaa D et al. NEJM 2020); diminuição do risco de morte em doentes críticos – não demonstrado (Ginde AA et al. NEJM 2019); prevenção de Diabetes tipo 2 – não demonstrado (Pittas AD et al. NEJM 2019); diminuição do risco de cancro e eventos cardiovasculares – não demonstrado (Manson JE et al. NEJM 2019); melhoria do crescimento fetal e infantil quando é feita suplementação na gravidez – não demonstrado (Roth DE et al. NEJM 2018); diminuição de risco de recorrência de adenomas colo-rectais – não demonstrado (Baron JA et al. NEJM 2015). Mais exemplos seriam encontrados nesta e noutras revistas. Acredito que cientistas continuarão a fazer o seu trabalho, assente em bases biológicas sólidas e plausíveis. Mas julgo ser cada vez mais importante transmitir a ideia que devemos manter
sempre um certo grau de ceticismo, principalmente quando nos apresentam verdades insofismáveis e transversais. É saudável desconfiar sempre de soluções extraordinariamente simples para problemas extraordinariamente complexos.

Acreditar na vitamina de Deus tem-se vindo a demonstrar cada vez mais uma matéria de fé. Ter fé, em si mesmo, não é negativo. Mas a fé e os factos tendem a ser mutuamente exclusivos.

Tanto quanto eu tenha conhecimento, não existem provas científicas da existência de um benefício transversal e inexpugnável da vitamina de Deus. Ainda. E não será certamente por não haver quem tenha cedido à tentação de o tentar demonstrar.

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