Estudo revela que estado de emergência agravou precarização do jornalismo

6 de Agosto 2020

A crise nos média, a crescente precarização do jornalismo e a diminuição das expetativas destes profissionais destacam-se num inquérito sobre os efeitos do estado de emergência no jornalismo no contexto da pandemia de Covid-19.

A pandemia dominou a agenda dos jornalistas durante a declaração do estado de emergência, e o domicílio passou a ser o local de trabalho para a maioria destes profissionais, que passaram a usar mais tecnologia e a sair menos em reportagem, segundo as conclusões de um estudo com base em uma parceria entre a Comissão da Carteira Profissional de Jornalista (CCPJ), o Sindicato dos Jornalistas, a Universidade de Coimbra, a Universidade de Lisboa e a Universidade do Minho.

As 890 respostas dos jornalistas a um questionário ‘online’, que representaram 13,3% do total de jornalistas registados em maio na CCPJ (6.678), revelaram que a situação económica resultante do estado de emergência “adensou a perceção” dos jornalistas acerca da falta de expectativas sobre o seu emprego e “aumentou significativamente” o número de profissionais que admitem a possibilidade de deixar de exercer a profissão.

As respostas dos jornalistas mostraram também ter quintuplicado o número de profissionais para quem, depois da declaração do estado de emergência, no decurso da pandemia de covid-19, era muito provável ou provável perder o trabalho de jornalista a curto prazo.

O estudo mostra que 47% dos jornalistas com atividade profissional (principal ou secundária) tinham um rendimento bruto inferior a 900 euros, e que cerca de metade estava em regimes de contrato de trabalho sem termo.

A Declaração do Estado de Emergência (DEE) afetou diretamente 11,8% dos 890 jornalistas inquiridos, maioritariamente em resultado da aplicação do regime de ‘lay-off’ e da cessação de contratos de trabalho em regime de prestação de serviços.

A DEE, segundo o estudo, foi responsável por alterações na condição laboral de 15,5% dos 799 profissionais com atividade profissional (principal ou secundária) de jornalista, sendo a maior parte das novas situações resultante da aplicação do regime de ‘lay-off’ por parte das entidades empregadoras, em primeiro lugar, e do fim de colaboração com jornalistas sob o regime ‘freelancer’, em segundo.

Os autores do estudo constatam ainda um aumento do desemprego, com 17% de novas situações, e em termos salariais, contabilizam 205 jornalistas com alterações nos vencimentos naquele período, mais de metade nos escalões mais baixos de rendimento (inferior a 900 euros), e diminuindo à medida que aumenta o valor do salário.

“É possível comprovar que 47% dos jornalistas tinham um rendimento bruto mensal igual ou inferior a 900 euros, quando essa percentagem era de 41,9% antes da DEE”, lê-se no documento.

O estudo revela que, durante o estado de emergência, aumentou para 59% a percentagem de jornalistas a trabalhar no domicílio, e para 68,9% quando se junta os que já antes trabalhavam fora das redações.

Quanto aos temas cobertos pelos jornalistas, 35,3% disseram que a pandemia ocupou 75% do seu trabalho, e mais de 91% dos inquiridos disse ter realizado trabalhos sobre a covid-19, admitindo ainda sair menos em reportagem (aumentou de 10% para 30%).

O inquérito debruçou-se sobre um eventual aumento de produção, por jornalistas, dos chamados “conteúdos patrocinados” – produtos de meios de comunicação criados para compensar a diminuição das receitas de publicidade tradicional – com a maioria (90,4%) dos inquiridos a negar que os seus editores/diretores lhes tenham pedido trabalhos desse tipo naquela fase do estado de emergência.

“Em contrapartida, 5,3% dos inquiridos admitiram que tais pedidos lhes foram feitos, enquanto 2,4% disseram que lhes foram solicitados trabalhos desse tipo, mas sem prévia informação do que, na verdade, se tratava”, destaca o estudo que, somando as duas parcelas, contabiliza 7,7% dos inquiridos a confirmar pedidos para produzir “conteúdos patrocinados” naquele período.

Mas os dados do inquérito sugerem alguma diferença de situações em função dos seus títulos profissionais dos inquiridos: nos detentores de título provisório de estagiário, foram 11,4% os que admitiram ter recebido aqueles pedidos, a que se somam 9,1% que os receberam, mas sem prévia informação, atingindo no total os 20,5%.

LUSA/HN

0 Comments

Submit a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

ÚLTIMAS

MSF suspendem atividades no Hospital Nasser devido a presença de homens armados

Os Médicos Sem Fronteiras anunciaram esta quarta-feira a suspensão de parte das suas atividades no Hospital Nasser, em Khan Younis, depois de relatos de doentes e funcionários darem conta da presença de homens armados e encapuzados no interior do complexo, uma das últimas unidades de saúde ainda a funcionar no sul da Faixa de Gaza

Cabo Verde: novo coordenador do combate ao VIH aposta na erradicação até 2030

A meta é ambiciosa, mas Adilson de Pina, que acaba de assumir a secretaria-executiva do Comité de Coordenação e Combate ao VIH/sida em Cabo Verde, acredita ser possível erradicar o vírus do arquipélago nos próximos quatro anos. Em entrevista à Lusa, o biólogo e doutorado em saúde pública traça as linhas de uma missão que herda de Celina Ferreira, agora aposentada, e que se alinha com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU

PS propõe regulação dos cartões de saúde para proteger os consumidores

O PS entregou no parlamento um projeto de lei para regular os cartões de saúde, proibindo a designação “plano de saúde” e obrigando a informação clara nos contratos. A iniciativa visa proteger os consumidores de práticas enganosas num mercado em crescimento, com fiscalização da ASAE e Direção-Geral do Consumidor

Quatro perfis psicológicos explicam ideação suicida em idosos, diz estudo

Investigadores da Universidade de Valência identificaram quatro perfis psicológicos distintos associados a pensamentos suicidas em idosos que vivem em lares, numa amostra de 231 pessoas entre os 60 e os 97 anos de nove instituições. O estudo, publicado na revista ‘Frontiers in Psychology’, sublinha a necessidade de olhar para além dos sintomas clínicos tradicionais na prevenção do suicídio nesta faixa etária

Material médico dos EUA chega à Venezuela num sinal de aproximação… Com petróleo à vista

Os Estados Unidos anunciaram esta quinta-feira o envio de seis toneladas de material médico prioritário para a Venezuela, num gesto que o Departamento de Estado classificou como o primeiro de uma “campanha significativa” para estabilizar o frágil sistema de saúde venezuelano. O carregamento chegou a Caracas num momento de aproximação diplomática e de alívio gradual das sanções económicas impostas por Washington

Dados da PPP de Cascais “salvam” indicadores do SNS de queda nas consultas e cirurgias

A divulgação de um documento interno com números do Serviço Nacional de Saúde relativo a dezembro de 2025 obrigou a Administração Central do Sistema de Saúde a emitir dois esclarecimentos públicos em três dias, depois de confrontada com a ausência de informação de uma unidade hospitalar. O relatório inicial, a que os jornalistas tiveram acesso, apresentava uma quebra na atividade assistencial que, na versão agora corrigida, se transforma num aumento generalizado da produção hospitalar

Nestlé, Lactalis e Danone sob investigação por leites contaminados com toxina

A justiça francesa abriu cinco investigações a multinacionais do setor alimentar, incluindo a Nestlé e a Lactalis, por suspeitas de contaminação de leites infantis com a toxina cereulida, que pode causar danos neurológicos e, em casos extremos, ser fatal. A procuradora de Paris, Laure Beccuau, anunciou esta sexta-feira que os processos foram centralizados na capital devido à dispersão geográfica das queixas e à tecnicidade da matéria

CAP alerta para risco de dermatose nodular e pede plano de prevenção

O presidente da Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP) defendeu hoje, em Beja, a criação de um plano nacional de prevenção para doenças pecuárias, nomeadamente a dermatose nodular bovina, ainda ausente do território mas que já provocou estragos em França. Álvaro Mendonça e Moura revelou que a 19 de Fevereiro está marcada uma reunião com a Direção-Geral da Alimentação e Veterinária (DGAV) e organizações de produtores para avaliar riscos e delinear estratégias

MAIS LIDAS

Share This
Verified by MonsterInsights