31/08/2020 | Opinião

Prova real

Duarte Santos
Farmacêutico
Presidente do PGEU (Grupo de Farmacêuticos da União Europeia)

Duarte Santos
Farmacêutico
Presidente do PGEU (Grupo de Farmacêuticos da União Europeia)

Prova real

31/08/2020 | Opinião

Ainda não vencemos, mas vamos seguramente vencer a COVID-19.

A pandemia ofereceu ao sistema de saúde uma oportunidade de ouro para se ver ao espelho, descobrir as próprias forças e encarar os problemas.

Ficou evidente que temos grandes profissionais.

Médicos, enfermeiros, técnicos de diagnóstico e terapêutica, os meus colegas farmacêuticos hospitalares e toda a sorte de colaboradores dos nossos hospitais mostraram valentia e competência.

Essa batalha está ganha.

Os cidadãos também se comportaram com um civismo incrível. Anteciparam as medidas de higiene, distanciamento social e confinamento em casa. De um dia para o outro, incorporaram comportamentos que pareciam vedados à nossa cultura.

Essa é outra batalha ganha.

Ficaram também evidentes vários problemas.

O nosso sistema de saúde precisa de maior investimento, em profissionais e equipamentos, melhor informação e outro planeamento.
Poderíamos ter sido ainda mais eficientes a quebrar cadeias de contágio. Esperemos que não, mas é provável que precisemos de o ser neste Inverno.

Deveríamos ter sido capazes de continuar a tratar os outros doentes, que são a maioria. Todos sabemos que sofremos mortes e complicações de saúde que poderiam ter sido evitadas.

Essas batalhas também têm de ser ganhas.

O nosso sistema de saúde precisa de níveis de investimento e de padrões de organização adequados a um país desenvolvido, com a sua honrosa tradição em Saúde Pública.

A pandemia também pôs à prova a rede de farmácias, num momento especialmente delicado.

Os farmacêuticos comunitários e as suas equipas estão saturados de uma década – mais! – de austeridade e de esforço inglório para serem compreendidos, respeitados e bem aproveitados pelo país.

A rede tem fragilidades inaceitáveis. Uma em cada quatro farmácias enfrenta processos de insolvência e de penhora. Sete, em cada dez, chegam ao fim do ano e contabilizam prejuízos pelo serviço público de dispensa de medicamentos comparticipados pelo Estado e o aconselhamento aos doentes.

Apesar disto, a rede respondeu de imediato.

Adoptou procedimentos técnicos que foram seguidos e traduzidos em todas as línguas do mundo.

Criou uma linha nacional gratuita para os cidadãos encomendarem medicamentos 24 horas por dia.

Foi a primeira cadeia de serviços a garantir entregas ao domicílio em todo o território.

Reforçou em 7,8 milhões de euros a dispensa de medicamentos a crédito no mês de Março, evitando a interrupção de tratamentos dos cidadãos com maior fragilidade económica e dificuldade de acesso a consultas médicas.

Garantiu a dispensa de medicamentos aos doentes mais frágeis, evitando 14 voltas ao mundo em deslocações desnecessárias aos hospitais.

A prova dispensa elogios ou adjectivos.

Felizmente, estes factos coincidiram com o debate parlamentar da petição “Salvar as Farmácias, Cumprir o SNS”.

Ficaram provadas as razões por que as farmácias são indispensáveis à sobrevivência, desenvolvimento e fortalecimento do SNS.

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