21/09/2020 | Opinião

Edifícios para Pessoas com Demência. Qual o futuro?

José Figueiras
CEO da Galbilec, Serviços Globais de Projeto e A77

José Figueiras
CEO da Galbilec, Serviços Globais de Projeto e A77

Edifícios para Pessoas com Demência. Qual o futuro?

21/09/2020 | Opinião | 0 comments

A doença de Alzheimer é a mais comum forma de demência, sendo responsável por 50% a 70% dos casos. A taxa de incidência da doença au­menta exponencialmente com a idade, duplicando a cada 5 anos. No mundo, em cada 3 segundos uma pessoa desenvolve demência e aproximadamente 7.7 milhões de novos casos são diagnosticados.

Prevê-se que no mundo em 2030 venham a existir 74.7 milhões de pessoas com demência e em 2050, 131.5 milhões.

Em Portugal, não existe até à data um estudo epidemiológico que retrate a real situação do problema, mas os dados da Alzheimer Europe apontam para mais de 193 mil e 500 pessoas com demência (Alzheimer Europe, 2019). Estes números colocam Portugal como o 4º país com mais casos por cada mil habitantes. A média da OCDE é de 14.8 casos por cada mil habitantes, sendo que para Portugal a estimativa é de 19.9, número que subirá para os 322 mil casos até 2037.

Portugal é um país envelhecido e todos os indicadores apontam para uma evolução exponencial da doença de Alzheimer. Estes dados devem servir de alerta e merecem uma atenção redobrada.

Com o envelhecimento da população portuguesa, a taxa de prevalência das demências irá aumentar de ano para ano, pelo que é fundamental o reconhecimento dos sinais de alerta, que permita, por sua vez, um diagnóstico mais atempado.

A inexistência de um processo ativo e generalizado para a deteção precoce da doença, assim como a insuficiência de programas de apoio terapêutico, conduz à urgente necessidade de desenvolvimento de mecanismos de cooperação tendo em vista o seu premente progresso.

É neste contexto que têm surgido diversas iniciativas de promoção de projetos que respondam a esta problemática social, como por exemplo a Unidade Bento XVI para doentes de Alzheimer, em Fátima, promovida pela União das Misericórdias Portuguesas, ou o CIDIFAD (Centro de Investigação, Diagnóstico, Formação e Acompanhamento de Demências), estrutura integrada na área das demências que assenta em três pilares basilares, diagnostico, formação e acompanhamento na área das demências, promovido pela Santa Casa da Misericórdia de Riba de Ave.

Do ponto de vista da arquitetura destes espaços, é fundamental serem pensados para as patologias demenciais, com especial cuidado nos ambientes dos espaços utilizados por estas pessoas. A inexistência de literatura relacionada com este tema da arquitetura e ambientes dos espaços para pessoas com demência, levou a que estes projetos desenvolvidos pela Galbilec tivessem por base o desenvolvimento inicial de estudos juntamente com os especialistas na área do acompanhamento das pessoas com demência. Conseguiu-se obter resultados francamente positivos na utilização diária destes edifícios por todas as pessoas, principalmente aquelas com demência.

Existem preocupações transversais na definição das características arquitetónicas em edifícios projetados para as pessoas com demência, entre os quais a utilização de cores suaves, evitando o uso de contrastes em pavimentos, paredes ou tetos, a minimização da existência de barreiras arquitetónicas, a criação de uma relação franca entre o interior e o exterior do edifício, sempre em ambientes controlados. A adoção de soluções cromáticas de contraste para os elementos que se pretendam que sejam usados de forma autónoma pelas pessoas com demência (portas, puxadores, cadeiras, interruptores, etc.), criação de espaços dos funcionários diferenciados para serviços de apoio, a utilização de iluminação natural evitando a criação de contrastes de sombra, uso de soluções que permitam um acompanhamento 360 permanente das pessoas com demência, etc.

Ao nível da dimensão, a criação de núcleos de alojamento pequenos, quase de dimensão familiar, por forma a promover a criação de rotinas entre todas as pessoas deve ser privilegiado, sempre que possível, e com espaços que permitam desenvolver atividades que incluam as famílias.

A nossa experiência no sector social e da saúde, no qual temos desenvolvido alguns projetos com estas preocupações das pessoas com demência, permite-nos perceber que o futuro passará pela adaptação das estruturas residências para idosos que acolhem pessoas com idades cada vez mais avançadas e mais suscetíveis de desenvolver patologias demenciais, requalificando estes espaços para melhor cuidar destas pessoas. Urge, assim, aproveitar as oportunidades de investimento dos próximos anos para a implementação de uma estratégia que vise a adaptação destas estruturas residências para as necessidades particulares das pessoas com demência.

 

0 Comments

Submit a Comment

O seu endereço de email não será publicado.

Share This