António de Sousa Uva
Médico do trabalho, Imunoalergologista e Professor catedrático da NOVA (ENSP)

+COVID-19: estaremos também no Outono das estratégias de prevenção?

22/09/2020 | Opinião

A actual situação pandémica vai-se revelando mais “agressiva” no Equinócio de Outono que, salvo erro, começa hoje no nosso Hemisfério. De início o seu protagonismo (e do seu actor principal, o SARS-CoV-2) começou nas escolas privadas e em algumas escolas infantis e agora o início do ano escolar no ensino secundário e superior (público e privado) indicia que os próximos tempos não vão ser fáceis … Claro que a chegada do tempo frio agravará tudo, não só “por estar do lado do vírus” como por promover a nossa permanência em espaços fechados e por apelar ao “calor humano”, inimigo do distanciamento físico.

Este estranho (des)equilíbrio entre o Coronavírus e a Comunidade tem, portanto, fenómenos “pull” (puxar) e “push” (empurrar) e, apesar desse conhecimento ser indispensável à luta contra a pandemia, as nossas estratégias às vezes fazem lembrar os “ensaios e erros” de alguém numa dessas entradas. Era suposto que neste Outono devêssemos estar na Primavera daquelas estratégias por forma a melhor nos protegermos, designadamente os mais vulneráveis. A tal propósito as residências de idosos, os cuidados continuados e outros locais de concentração daquela vulnerabilidade começam a ter “os calcanhares roídos”.

Já terei escrito mais de uma dezena de pequenos textos (sempre na esperança que sejam úteis) sobre a actual situação pandémica, concentrando em muitos desses escritos a importância dos aspectos do que é “visível” e do que é “invisível” e ainda naquilo que denominei COVID-infecção vs. COVID-doença. É que, de facto, o vírus circula na comunidade em função, naturalmente, de variáveis da partícula viral (ainda insuficientemente compreendidas na sua interacção com as pessoas) e esses aspectos parecem determinantes na insuficiente eficácia de algumas das nossas estratégias de defesa. Atrever-me-ia a dizer que o vírus é “manhoso” no sentido de parecer ter desenvoltura para fazer alguma coisa que não queremos, o que revela, no mínimo, alguma da sua “astúcia”.

Nesse contexto teremos nós de ter astúcia a dobrar. Temos actuado, em minha opinião, bem nos casos concretos de COVID-19-doença com adequada resposta do sistema de prestação de cuidados clínicos e, no essencial, boas respostas de Saúde Pública com testagem dos contactos e com um aperfeiçoamento gradual do sistema de gestão do risco. Também a pressão sobre as unidades de saúde de prestação de cuidados clínicos, apesar do recente aumento de quase 50%, se mantém “controlada”. O que se passa então?

A nossa vida comunitária e a nossa actividade económica vão voltando gradualmente (e devagar) à sua anterior vitalidade e também lentamente, vai-se gerindo melhor os aspectos cruciais para a disseminação das partículas virais que, na minha opinião, “assentam” no distanciamento físico cada vez mais “substituído” pelo uso de máscara, quando tais medidas de prevenção deveriam ser complementares e não alternativas.

E se é assim no outono, como será no inverno? Convém a esse propósito lembrar que, tudo leva a crer, que não será nestas épocas que poderemos dispor de vacina, restando a esperança que o arsenal terapêutico possa ir melhorando como tem vindo a acontecer.

Não seria altura de darmos mais atenção aos casos de COVID-19-infecção que, no essencial só são identificados quando, por qualquer circunstância, se rastreia um determinado conjunto de pessoas hoje mais dedicado a actividades específicas como o transporte aéreo ou os jogadores de futebol, por exemplo. Porque não fazer o mesmo, entre outros, em profissionais de lares de idosos, ou em professores do ensino secundário para não falar em prestadores de cuidados de saúde? Nem que seja, caso seja necessário, apenas em parte desses trabalhadores e recorrendo a testes mais rápidos e mais baratos, mesmo que, hipoteticamente, com menor sensibilidade e/ou especificidade.

Adicionalmente, em matéria de comunicação na actual evolução pandémica, o foco deveria centrar-se ainda mais na necessidade da protecção dos outros e não tanto na protecção individual (que claro que também é obtida), porque se todos protegermos os outros ficamos, como já disse em outros destes escritos chamando à máscara EPO (equipamento de protecção do outro), protegidos individualmente!! Isso é que é sermos todos “Agentes de Saúde Pública” figura profusamente adoptada na actual situação pandémica.

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