Novo estudo revela o impacto do confinamento na saúde mental dos cuidadores informais

24 de Setembro 2020

Quase metade dos cuidadores de adultos e crianças com deficiências intelectuais relatou sentir uma depressão maior e ansiedade agravada; muitos mais do que em famílias sem membros com deficiências intelectuais.

Um novo estudo explora a saúde mental de cuidadores informais ou familiares encarregues de adultos com deficiências intelectuais durante o confinamento.

Cuidadores de adultos e crianças com deficiências intelectuais foram cinco vezes mais prováveis de relatar ansiedade severa e entre quatro a 10 vezes mais prováveis de relatar depressão maior do que os pais de crianças sem deficiências intelectuais.

Estes níveis foram significativamente mais elevados do que os encontrados em estudos semelhantes feitos antes do confinamento.

Cuidadores de crianças com maiores níveis de comportamento desafiante recebem o menor apoio social dos seus amigos, vizinhos e grupos de suporte.

O governo urgiu para que fossem estabelecidas melhores provisões para cuidadores em futuros confinamentos, incluindo o acesso a apoio de grupos de suporte nas redondezas.

Os desafios enfrentados pelos cuidadores informais – normalmente mães – de crianças e adultos com deficiências intelectuais têm sido primeiramente ignorados durante a crise do novo coronavírus.

O professor Peter Langdon do Centro para o Desenvolvimento Educacional, Avaliação e Investigação de Warwick (CEDAR) tem sido membro de uma equipa que tem trabalhado em parceria com a Challenging Behaviour Foundation para documentar a saúde mental dos cuidadores informais de crianças e adultos com deficiências intelectuais durante a pandemia do novo coronavírus através de um estudo online. A equipa de projeto foi liderada pelo Professor Paul Willner da Universidade de Swansea e inclui investigadores das Universidades de Birmingham e Kent.

A equipa descobriu que as carreiras de adultos e crianças com deficiências intelectuais foram cinco vezes mais prováveis de reportar ansiedade severa e entre quatro e 10 vezes mais prováveis de relatar uma depressão maior do que os pais de crianças sem deficiências intelectuais.

O estudo, Effecto of the COVID-19 pandemic on the mental health of carers of people with intellectual disabilities (publicado no Journal of Applied Research in Intellectual Disabilities), descobriu também os cuidadores de crianças e adultos com deficiências intelectuais relataram problemas de saúde mental bem em excesso do que poderia ser esperado com base na literatura pré-pandemia, e ao mesmo tempo experienciaram níveis mais baixos de apoio social relativo a pais de crianças sem deficiências intelectuais.

Os dados para o estudo foram recolhidos na segunda metade do estrito confinamento imposto em março, abril e maio. Os investigadores analisaram 224 questionários online respondidos por cuidadores de adultos com deficiências intelectuais, crianças com deficiências intelectuais e um grupo de comparação de cuidadores com crianças sem deficiências intelectuais. Mais de 90% dos cuidadores que respondeu eram mulheres. Onze famílias tiveram contacto direto com Covid-19.

Os cuidadores informais de adultos e crianças com deficiências intelectuais relataram níveis de ansiedade e depressão superiores aos dos cuidadores de crianças neuro típicas. Estes sentimentos pioraram devido ao stress, mas melhoraram graças ao apoio social.

Quarenta e três por cento dos cuidadores de crianças com deficiências intelectuais relataram ansiedade severa a moderada, em comparação com os 8% dos pais de crianças sem deficiência.

Já níveis moderados a severos de depressão foram relatados por 45% dos cuidadores de crianças com deficiências intelectuais, em comparação com 11% dos pais de crianças sem deficiências.

Em relação ao apoio social, em comparação com os pais de crianças sem deficiências intelectuais, os cuidadores de crianças com deficiências intelectuais recebem muito mais apoio de profissionais, mas significativamente menos apoio de outras fontes, particularmente família e amigos. O apoio social diminui à medida que a gravidade do comportamento desafiante cresce.

Para quem cuida de adultos com deficiências intelectuais, o fecho dos serviços diários e cuidados de repouso significou que os cuidadores de adultos sentiram menos apoio do que os cuidadores de crianças, que tinham ainda a possibilidade de enviar os filhos para a escola, caso escolhessem fazê-lo.

Os resultados foram comparados com estudos semelhantes conduzidos antes da pandemia para explorar se as taxas elevadas de problemas de saúde mental estariam associados ao confinamento.

Já os autores comentaram que, “é provável que destes dados que a saúde mental dos cuidadores tenha sido adversamente afetada pela pandemia acima de qualquer problema de saúde mental pré-existente, e ainda mais do que em pais de pessoas com deficiência intelectual, em linha com o estado geral que a pandemia amplificou a as desigualdades inexistentes”.

“Devemos reconhecer o papel essencial desempenhado pelos cuidadores informais e tomar passos para assegurar que eles são apropriadamente e proactivamente apoiados. Existem custos significativos para os próprios cuidadores e para a sociedade em geral se a saúde mental lhes roubar a habilidade de continuar a prestar cuidados aos seus entres queridos”.

Entre as sugestões avançadas no relatório para um melhor apoio aos cuidadores estão: apoio a longo prazo para os cuidadores, prestado por um trabalhador chave nomeado; mais enfermeiros treinados para aprender sobre problemas de invalidez, e encorajados a contemplar carreiras relacionadas com a saúde mental; mais apoio domiciliário e um compromisso para manter o acesso a cuidados domiciliários num futuro isolamento; serviços profissionais melhor equipados para oferecer apoio aos cuidadores remotamente via telefone e meios eletrónicos; acesso a especialistas em apoio à saúde mental para os cuidadores; Providenciar apoio de grupos de pares em questões de saúde mental.

“Será essencial consultar as famílias sobre o que mais pode ajudar, para que o apoio possa ser planeado e implementado bem em avanço da próxima vez que for necessário”, concluíram os autores.

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