Dra. Susana Sousa: “Alguns doentes nascem predispostos para a apneia do sono”

A obesidade, os hábitos tabágicos e a posição em que dormimos são fatores que predispõem a Apneia Obstrutiva do Sono (SAOS), uma doença que se caracteriza por interrupções na respiração durante o sono. Estas paragens podem durar entre dez segundos até mais de um minuto. A Dra. Susana Sousa, pneumologista coordenadora da Comissão de Trabalho de Patologia Respiratória do Sono, explica que a doença afeta sobretudo homens e fala do papel da telemonitorização dos doentes em tempo de pandemia.

Consegue explicar como é que Apneia Obstrutiva do Sono é desencadeada e quais as características? 

Há uma obstrução a nível da via aérea, sobretudo, da base da língua em que vai havendo o colapso da via aérea, isto é, um encerramento que é intermitente ao longo da noite. Claro que isso se deve a muitos fatores, sendo os principais fatores de risco, o excesso de peso e a obesidade que esta presente em 80% destes doentes, uma vez que há algum depósito de gordura na via aérea que faz essa compressão do espaço onde é suposto passar o ar.

Falamos sempre da obesidade porque é um dos principais fatores de risco, mas quando olhamos para os principais países, que a nível mundial têm uma maior prevalência desta doença, a China e o Japão também estão entre esses “top 10” de países com mais apneia de sono. Ou seja, não é à custa de índices de massa corporal muito aumentados que a apneia acontece. Há algumas alterações do ponto de vista da anatomia da via aérea que predispõe para esta doença. Falamos de fatores que são anatómicos, ou seja, alguns doentes já nascem predispostos para esta apneia de sono porque nascem com uma configuração mais estreita da própria via aérea – têm o queixo e a mandibula mais recuados ou têm algumas alterações do maxilar que favorecem ou, simplesmente, porque nasceram mesmo com a via aérea mais estreita.

E.. há alguma relação entre a posição em que dormimos e a doença? 

Esse é um dos outros fatores que pode agravar a doença. Como estamos a falar de um conflito de espaço da via aérea, quando a pessoa está de barriga para cima, muitas vezes existe a queda da língua para a posição posterior, para trás, e, portanto, faz mais obstrução à passagem do ar. Desta forma, quando referimos, às vezes, a síndrome da apneia obstrutiva do sono posicional, ou seja, quando existe alguma das posições – a maior parte das vezes da barriga para cima – que agrava o número de paragens na respiração que acontece durante o sono. Esse é mais um dos fatores de agravamento.

É por isso que quando damos indicação aos doentes com a lista das medidas que devem fazer para evitar o agravamento das paragens começamos pela perda de peso, por medidas de higiene do sono que passam pelos horários de sono regulares e evitar dormir de barriga para cima. Tudo isto para evitar o acumular das paragens da respiração.

A doença atinge igualmente homens e mulheres?

Não, geralmente temos uma proporção de dois para um, sempre mais frequente nos homens e isso também tem a ver com alguns fatores de anatomia que são diferentes nos homens e nas mulheres, com principal predomínio, também, para a diferente distribuição da gordura corporal. No caso dos homens, a gordura é acumulada, sobretudo no pescoço e no tronco, ao contrário das mulheres, onde a gordura é acumulada no abdómen e nas pernas.

Portanto, como existe uma maior concentração de depósito de gordura a nível da via aérea superior nos homens, esse acaba por ser um dos principais fatores de risco apontados, mas também sabemos que as doenças cardiovasculares são mais frequentes nos homens e também são mais frequentes na apneia do sono. Por outro lado, os hábitos tabágicos e alcoólicos, que também se associam muito a esta doença, têm uma prevalência muito maior no sexo masculino do que no feminino.

De que forma é que os hábitos menos saudáveis agravam a doença?

No caso do consumo álcool, este relaxa o próprio músculo e acaba por favorecer o número de paragens na respiração e o tabaco causa roncopatia, porque condiciona alguma congestão nasal e justifica parte do ressonar pelo envolvimento da inflamação das vias aéreas.

Por outro lado, os hábitos irregulares de sono também podem aumentar o número destas paragens na respiração, ou seja, o facto de a pessoa ter privação do sono, sem que haja um número de horas adequadas de sono também agrava as paragens. Muitas vezes, vemos doentes que trabalham por turnos, quando saem do turno da noite e depois dormem só três ou quatro horas, significa que nesse período vão fazer muitas mais paragens na respiração do que quando estão a fazer um turno diurno e depois conseguem ter oito horas de sono regular durante a noite.

Portugal tem dados de prevalência desta condição?

Não. Um dos estudos que nós temos mostra uma prevalência muito inferior. É um estudo que acaba por não ser muito relevante nesta área, o que significa que não temos dados seguros de prevalência em Portugal. Temos apenas dados da Europeu de um dos estudos que foi mais bem feito na área, desenvolvido pela Suíça.

No estudo para além da avaliação clínica, os doentes eram submetidos de uma forma rastreio tanto a população geral e não a população específica. É diferente pesquisarmos a apneia de sono numa população de pessoas com diabetes, que sabemos que sofrem mais desta condição do que a população em geral. Esse estudo foi feito na população geral e incluiu cerca de dois mil voluntários, mostrando uma prevalência que pode atingir os 50% nos homens e cerca de 23% nas mulheres. São dados muito reais e de um país que não é assim tão diferente e tão distante do nosso, portanto, provavelmente, a nossa realidade será muito parecida.

Existe cura para a doença?

Esta doença não tem cura, é uma doença que tem tratamento. O diagnóstico da doença passa por um estudo de sono que permite classificar a gravidade – de acordo com o número de paragens na respiração que surgem durante o sono – e é com base nestas informações que decidimos qual o tratamento mais adequado.

Na apneia do sono moderada a grave, o tratamento de primeira linha passa por dormir com um equipamento de aplicação de pressão positiva na via aérea – o CPAP [sigla em inglês da Pressão Positiva Contínua na Via Aérea] – que gera uma pressão que impede o encerramento desta via.

No entanto, existem outros tratamentos, sobretudo, nas doenças ligeiras a moderadas que podem passar pela medicina dentária do sono, com a aplicação de alguns dispositivos orais que evitam as paragens na respiração. Pode também ser feita uma intervenção pelo otorrino, quando queremos corrigir uma outra alteração que possa ser encontrada, como o desvio do septo nasal ou as amígdalas muito grandes que possam ser operados, mas isto nos casos ligeiros a moderados.

A Covid-19 pode ser um fator de risco para estes doentes?

Não. Não é um fator de risco. O que nós sabemos é que a maior parte dos doentes com apneia do sono tem doença cardiovascular associada, ou seja, muitas vezes os doentes sofrem de hipertensão arterial, insuficiência cardíaca, arritmias… Doenças que tendem a acompanhar a apneia do sono. Essas doenças, em especial, as cardiovasculares e a diabetes são fatores de risco para a doença moderada a grave por infeção à SARS-Cov-2.

A pandemia veio impulsionar as teleconsultas. Que vantagem é que trouxe?

A teleconsulta e a telemonitorização dos doentes revelou-se a melhor solução nesta fase em que queremos os doentes controlados e vigiados, mas à distância… não causando nenhum risco por chamar os doentes para os hospitais, uma vez que sabemos que existem outros doentes em que eventualmente podem aumentar o risco de infeção. Portanto, as teleconsultas estão a conseguir que consigamos manter os doentes vigiados e seguros.

E que limitações existem?

De uma forma geral, a teleconsulta permite uma boa avaliação inicial para a decisão, sobretudo, da manutenção e tratamento. É ideal nos doentes que estão a fazer determinado tipo de tratamento e para a vigilância, permitindo perceber se o tratamento continua a ser o adequado e eficaz.

As teleconsultas permitem de alguma forma fazer uma triagem dos doentes que precisam realmente de consulta presencial, ou seja, conseguimos perceber à distância quais são os doentes que continuam a precisar de um atendimento presencial, sendo que ao convocar um número menor de doentes colocamos menos pacientes em risco de infeção…. mas claro que existem algumas limitações porque ao não ver o doente precisamos de padronizar a informação que nos chega, porque continuamos a ter de tomar decisões médicas e não estamos completamente formados para esta consulta que é uma nova realidade nos dias de hoje. É algo novo para nós e não recebemos uma formação em relação a isto, mas tendo em conta que é uma tendência que não vai desaparecer nos próximos anos, temos de saber que perguntas fazer e padronizar a forma de avaliação do doente à distância

Como é que é feita a telemonitorização destes doentes?

Atualmente, em relação à monitorização de alguns tipos de terapêuticas como é o caso da CPAP para a apneia do sono, para além do que o doente nos diz através da teleconsulta, nós conseguimos ter acesso à informação do próprio equipamento. Isto permite ser uma mais valia, a informação que o doente nos dá, ou seja, o doente pode dizer que tem a boca seca com o equipamento que começou a fazer para a apneia e nós conseguimos comparar e interpretar esta informação de acordo com os dados do equipamento.

Por exemplo, se o equipamento nos diz que existem muitas fugas de ar, apesar do tratamento estar a ser feito, provavelmente é preciso corrigir as fugas e conseguir interpretar o que o doente nos diz.

Portanto, a teleconsulta é valida também pelo que que o doente nos diz, mas tem de ser integrado com outras informações, nomeadamente que a telemonitorização nos dá, que é ótimo para contextualizar tudo.

HN/Vaishaly Camões

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