Mário Santos, médico de família
Membro da candidatura Ser APMGF

Voltar aos valores

09/10/2020 | APMGF, Opinião

“O carácter de um homem faz o seu destino”, cito Demócrito. Definindo “carácter” como “um conjunto de características e traços relativos à maneira de agir e de reagir de um indivíduo ou de um grupo”, julgo que não é abusivo dizer que – o carácter de uma organização, faz o seu caminho e mostra o seu rumo. As minhas primeiras recordações remontam a uma actividade associativa conferida por 10 anos de forte identidade, por isso, procurei conhecer um pouco do “carácter” da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar (APMGF) nas memórias escritas do livro “Da memória”, um projecto de Manuel Valente Alves e Victor Ramos – para celebrar os 20 anos de existência da Medicina Geral e Familiar (MGF).

Nesta obra, que pretendia reflectir a identidade da MGF em Portugal e o papel relevante da APMGF, deparei-me com interessantes testemunhos que reflectem a visão e os valores do movimento associativo que norteou o pensamento da Associação nos anos 80, bem como factos, motivações e vontades que marcaram a história dos primeiros 20 anos da APMCG.

Luís Pisco, a propósito dos “Êxitos e Insucessos da MGF Portuguesa”, realçou a capacidade de intervenção política da Associação, que “influenciou de forma marcante e decisiva quase tudo o que à MGF diz respeito, a APMCG”.

 Mário Moura, invocou a “A dimensão afectiva e relacional da MGF” ao referir que: “constituiu uma verdadeira experiência de partilha de afectos em que os vários actores deste processo, eles próprios, foram um exemplo vivo deste intercâmbio de relações de cumplicidade…”

Jaime Correia de Sousa, no texto intitulado “Do mundo colheram-se novos mundos” salientou a vocação universal e cooperativa da APMGF, ao nomear a extensa colaboração que os MF portugueses mantiveram com as organizações internacionais.

Armando Brito de Sá, ao reflectir sobre “A prática da investigação científica e a arte médica”, recordou o estímulo da APMCG na formação em investigação e na “criação de uma rede de médicos de família (Rede dos Médicos Sentinela) capaz de efectuar projectos coordenados de investigação de modo contínuo.

António Branco, evocou no texto “20º aniversário da APMCG: início ou maioridade?”, o inconformismo, a inovação e a coragem dos médicos que: “Quebraram equilíbrios, trouxeram uma linguagem nova, que era incómoda para muitos, médicos e não só, não levaram “na devida conta” os senhores da terra”.

A credibilidade e preponderância actual da MGF, não foi exclusiva da acção associativa, nem se reduziu “à vontade e ao trabalho de um pequeno grupo de médicos” que criaram a APMCG. No entanto, o seu papel assinalável foi sustentado pelas características e traços do “carácter” colectivo, bem definidos nos testemunhos citados: a capacidade de influência política; a responsabilidade; o sentido de representatividade; a importância da aprendizagem, do conhecimento e da investigação; a relevância dada à cooperação nacional e internacional; bem como as características que alicerçaram a confiança entre os membros da organização: a afectividade, a cumplicidade e a coragem.

Passados 38 anos da fundação da APMCG, distintas mudanças políticas, sociais, económicas e culturais colocam desafios complexos aos médicos de família e seus representantes, por isso, é preciso voltar aos valores e às características que fizeram da APMGF uma organização representativa de sucesso “por todos e para todos os médicos de família”.

Foi com curiosidade e orgulho no nosso passado, que reli algumas narrativas, quase duas décadas após a edição “Da memória”, porque se a História nos desafia o pensamento, a história da MGF, aviva-nos também os sentimentos, não somente porque nos sentimos parte dela, mas porque temos consciência que a história que se escreverá amanhã da APMGF e da MGF, será o resultado das escolhas que fizermos hoje e do que acontecerá depois.

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