O atual presidente  da APMGF afirma que a tutela se está a esquecer dos centros de saúde e que o cenário é “desastroso” em termos da renovação geracional da Medicina Geral e Familiar. Candidato a um terceiro mandato à frente da Associação, o médico de família aposta em 12 eixos estratégicos para uma “Nova APMGF” que incorporam muitas das mudanças impostas pela pandemia.

HealthNews (HN) – A sua candidatura defende uma “Nova APMGF”. Tendo em consideração que já vai no segundo mandato como presidente da Associação, quais são as linhas estratégicas inovadoras da sua candidatura e quem o acompanha neste novo desafio?
Rui Nogueira (RN) – As linhas estratégicas da nossa candidatura são, de facto, novas e por isso mesmo adotamos o lema “Nova APMGF – renovar e crescer”.

As novas estratégias têm a ver com uma nova visão e uma nova missão para a APMGF, tendo em conta a evolução da nossa especialidade, as exigências e as necessidades dos médicos de família, as mudanças da sociedade e das comunidades em que vivemos, as inovações tecnológicas e, acima de tudo, tem a ver com a perspetiva de futuro que teremos que acolher e desenvolver com entusiasmo e segurança. A inquietude projeta-nos para o futuro.

A nossa equipa vai muito para além dos órgãos sociais, uma vez que as tarefas são imensas e diversificadas. Além da Direção, da Mesa da Assembleia Geral e do Conselho Fiscal, contamos com a colaboração das Delegações e propomos a criação de Núcleos Locais em cada ACES que não tenha Delegação da APMGF, ou seja, uma “Nova” forma de proximidade com os colegas.

Propomos ainda a criação de quatro Conselhos Nacionais, uma iniciativa inovadora que merece a nossa melhor atenção e também uma “Nova” forma de desenvolvermos algumas ações dirigidas a áreas estratégicas, como é o caso da investigação e apoio científico, e a proximidade aos colegas mais novos. Estão em construção o Conselho de Ética, o Conselho Consultivo, o Conselho Científico e o Conselho de Internos e de Jovens Médicos de Família.

No total. é uma equipa de mais de 100 colegas, envolvendo todas as gerações e todas as regiões do país, de forma a colhermos a maior proximidade possível com todos os colegas, a maior diversidade de opiniões e capacidade de trabalho em todas as áreas importantes.

São estes quadros associativos que desejamos dinamizar e numa atitude colaborativa, de apoio e proximidade com os colegas em todo o país, promovermos a nossa especialidade e o novo paradigma, garantindo os valores e os princípios de sempre e que fazem parte do património da APMGF que bem conhecemos.

 

HN – De que forma a pandemia e os desafios que representa para a MGF foram equacionados no seu programa eleitoral?
RN – É inevitável avaliar e contar com os efeitos da pandemia de 2020 uma vez que está a transformar de forma significativa toda a nossa organização e a prestação de cuidados de saúde personalizados, acessíveis e longitudinais.

A situação que vivemos em março, abril e maio deste ano, transformou a nossa atividade diária e estamos ainda a acertar metodologias e recursos para melhorarmos a organização e planificação do trabalho.

Estão a ocorrer muitas alterações na organização das nossas unidades de saúde e teremos que avaliar e estudar as mudanças organizacionais, de modo a caminharmos para um novo paradigma com segurança.

Mais uma vez uma “Nova” organização, caracterizada por mudanças significativas, onde a APMGF terá necessariamente que estar envolvida e apoiar os colegas, promovendo o desenvolvimento e a inovação.

Já antes da pandemia pensávamos no projeto 20-30 como década de evolução do modelo de organização das unidades de saúde de proximidade, passados que são 15 anos de Reforma dos Cuidados de Saúde Primários e 30 anos de “Livro Azul” e agora, mais do que nunca, é necessário evoluirmos nos conceitos e nas práticas em variadíssimos domínios.

Os princípios e os valores são os de sempre, mas terão que ser reafirmados e valorizados devidamente. É neste contexto de “Nova” visão que temos que dispor da APMGF, a renovar e a crescer e por isso “Nova” a pensar, a empreender, a promover, a apoiar, a inovar.

HN – Recentemente afirmou ao Jornal “Diário de Notícias” que “investiram nos ventiladores mas esqueceram-se dos médicos de família”. O que é preciso fazer neste domínio?
RN – Parece óbvio que é necessário investir nos Cuidados de Saúde Primários e no Serviço Nacional de Saúde, depois das perdas e do retrocesso entre 2010 e 2015.

Mais de 95% dos casos ativos de COVID-19 estão a ser seguidos por médicos de família e internos de MGF desde abril. Mas em abril eram 20 mil casos ativos e agora são 37 mil, ou seja, quase o dobro. E qual foi o investimento dirigido para os centros de saúde? Que atenção foi dirigida para a primeira linha de atuação? Que apoios foram canalizados para as unidades de saúde da linha da frente? O Ministério da Saúde está a esquecer-se dos centros de saúde e depois das perdas de cinco anos, com um claro desinvestimento na saúde, fica mais claro que estamos exauridos.

É necessário investir de forma explícita e urgente na nossa rede de unidades de saúde de proximidade; melhorar as condições de trabalho nos centros de saúde, com renovação e atualização de equipamentos; apoiar a criação de mais unidades de saúde e garantir a sustentabilidade das existentes; criar uma nova política de recursos humanos, o nosso património mais valioso.

É também necessário incentivar e apoiar a formação médica e o desenvolvimento profissional contínuo, com o enquadramento de uma nova carreira médica; investir em literacia de saúde nas comunidades; fazer evoluir a rede digital e o sistema de informação e promover a transição digital na saúde; promover o programa “simplex” na saúde e acabar rapidamente com os atos desnecessários e inconsequentes, mas geradores de stress nas pessoas e de pressão sobre os médicos de família; desenvolver uma nova cultura de governação clínica; apoiar e promover a investigação nas nossas unidades de saúde.

É neste enquadramento que desenvolvemos o nosso projeto de trabalho, fundamentando o programa da “Nova APMGF” em 12 eixos estratégicos, com tudo o que a pandemia nos está a ensinar.

HN – Das 435 vagas postas este ano a concurso na área de Medicina Geral e Familiar, 125 ficaram desertas. De acordo com dados da ACSS, no final de 2020 vão reformar-se 559 MF e, em 2021, 697. Contando com as 500 mil pessoas que hoje não têm médico de família atribuído, no final de 2021 poderão ultrapassar os 2 milhões. Como resolver este problema, sabendo que tem raízes no passado?
RN – Este é um problema de longa data e complexo. Um cenário desastroso. De facto, está a ser usado o mesmo modelo de concurso de ingresso na carreira médica com o resultado conhecido, e ano após ano perdemos 20 a 30% dos médicos de família que formamos. Ora, sabendo que temos falta de médicos de família em muitas unidades de saúde e vamos ter ainda mais nos próximos anos, além das listas de utentes sobredimensionadas, parece pouco razoável continuamos a usar o mesmo formato de concurso que leva a uma elevada perda de recursos humanos.

É urgente alterar este procedimento concursal e pensarmos num modelo dinâmico que responda às necessidades das comunidades e aos justos anseios dos colegas que desejam continuar a sua carreira profissional no Serviço Nacional de Saúde.

É desastroso admitir que seja possível manter e desenvolver as unidades de saúde com milhares de doentes sem médico de família em cada unidade de saúde, com listas de utentes sobredimensionadas e, em simultâneo, termos colegas que a cada concurso que passa ficam fora das unidades de saúde. Se juntarmos a estes colegas todos os outros que ficam a cada ano fora do internato, então temos centenas de médicos disponíveis mas fora dos centros de saúde, sem condições de formação e sem possibilidade de ingresso nas equipas.

 HN – Pela primeira vez na história da APMGF, há uma segunda lista concorrente às eleições. É encabeçada pelo Dr. Nuno Jacinto, atual Secretário da APMGF. Como encara este processo?
RN – Primeiro encarei com surpresa porque convidei todos os atuais membros dos órgãos sociais. Depois encarei com naturalidade e salutar camaradagem. As diferenças de opinião valorizam o processo de crescimento e desenvolvimento das organizações e motivam-nos para o trabalho cada vez maior e mais exigente. Os sócios irão escolher democraticamente um dos dois projetos. Contamos naturalmente com colegas da outra lista para continuarem os trabalhos associativos no nosso projeto se ganharmos as eleições do dia 21 de novembro, como esperamos. A nossa disponibilidade para o trabalho associativo é enorme e a motivação apaixonante.

Entrevista de Adelaide Oliveira

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