Atualmente estão disponíveis terapêuticas biológicas “capazes de promover a resolução completa ou quase completa das lesões psoriáticas na grande maioria dos doentes”, afirma o dermatologista do Centro Hospitalar Universitário do Porto e professor auxiliar convidado no Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (Universidade do Porto).

 HealthNews (HN) – O facto de a psoríase ter deixado de ser vista como uma doença exclusivamente cutânea e ser entendida hoje como uma doença inflamatória crónica implicou uma mudança de paradigma na abordagem destes doentes?

Prof. Doutor Tiago Torres (TT) – Atualmente a psoríase é considerada uma doença sistémica, que vai para além da pele, associada a múltiplas comorbilidades, essencialmente cardiometabólicas (obesidade, diabetes, hipertensão, entre outras), que se traduz num aumento do risco de doença cardiovascular e uma esperança média de vida diminuída em cerca de 5-6 anos nos doentes com psoríase grave.

Por isso, a abordagem destes doentes tem vindo a mudar. É essencial uma abordagem global do doente com psoríase, muitas vezes multidisciplinar, tratando não só a componente cutânea, mas também as doenças associadas, promovendo um estilo de vida saudável, incluindo actividade física, emagrecimento e cessação tabágica.

 HN – Porque motivo a inflamação sistémica observada na psoríase promove a aterosclerose precoce?
TT – Existem vários fatores que promovem uma aterosclerose precoce nos doentes com psoríase: a presença de múltiplas comorbilidades cardiometabólicas (obesidade, diabetes, hipertensão, entre outras), um estilo de vida menos saudável (menor atividade física, tabaco) e a inflamação psoriática sistémica, que partilha vários mecanismos fisiopatológicos com a inflamação observada na aterosclerose.

HN – Quais as principais estratégias de tratamento?

TT – Nas formas ligeiras e localizadas, as terapêuticas tópicas são geralmente eficazes. No entanto, um dos maiores desafios no tratamento tópico é a fraca adesão à terapêutica por parte do doente, muitas vezes desagradável e difícil de aplicar. Contudo, têm sido desenvolvidos esforços na tentativa de criar tratamentos tópicos mais fáceis e agradáveis de aplicar (em espuma, por exemplo), com o objetivo de aumentar a adesão ao tratamento e, por conseguinte, a eficácia.

Nos casos mais graves, as terapêuticas sistémicas e a fototerapia permitem o controlo da doença na grande maioria dos doentes e parecem ter um impacto positivo no risco cardiovascular, decorrente da diminuição da inflamação sistémica. No entanto, têm possíveis efeitos secundários que obrigam a uma monitorização clínica e analítica periódica.

Os avanços que se observaram no conhecimento da fisiopatologia da psoríase, permitiram identificar as principais células e mediadores inflamatórios envolvidos. Isso levou ao desenvolvimento de terapêuticas (chamadas de “terapêuticas biológicas”) que atuam seletivamente em pontos muito específicos da fisiopatologia da psoríase e que demonstraram ser um grande avanço no tratamento das doenças inflamatórias imuno-mediadas, incluindo a psoríase. De facto, estão atualmente disponíveis terapêuticas biológicas capazes de promover a resolução completa ou quase completa das lesões psoriáticas na grande maioria dos doentes, o que resulta naturalmente numa melhoria marcada da qualidade de vida e do prognóstico a longo prazo. Por outro, devido ao seu perfil de segurança desprovido de toxicidade cumulativa e específica de órgão, como por exemplo hepatoxicidade ou nefrotoxicidade, permitem tratar os doentes a longo prazo, controlando os sinais e sintomas da doença.

HN – Quais as maiores inovações registadas a este nível, designadamente no que diz respeito à terapêutica biológica?

TT – Nos últimos anos observou-se um grande avanço no tratamento da psoríase, com o aparecimento das terapêuticas biológicas. Primeiro com os inibidores do TNF (etanercept, adalimumab e infliximab), depois com o inibidor da IL-12/23 (ustekinumab), e mais recentemente com os inibidores da IL-17 (secukinumab, ixekizumab e brodalumab), observando-se sempre uma melhoria na eficácia e segurança dos tratamentos. No último ano foram lançados em Portugal dois novos medicamentos biológicos de uma nova classe, os inibidores da IL-23 risankizumab e guselkumab, esperando-se para breve o lançamento de um terceiro, o tildrakizumab. Estes novos fármacos vêm aumentar o leque de opções no tratamento da psoríase, colocando-a como uma das patologias inflamatórias crónicas, de todas as áreas da medicina, com mais opções terapêuticas.

No futuro, podemos ainda esperar a aprovação do bimekizumab, um inibidor da IL-17A e IL-17F, que em ensaios clínicos mostrou a eficácia mais elevada até hoje reportada no tratamento da psoríase, e do deucravacitinib, um inibidor seletivo da TYK2, que poderá tornar-se no primeiro medicamento oral a ser aprovado desde a ciclosporina no século passado.

HN – Qual deve ser, na sua opinião, o envolvimento dos médicos de família na abordagem destes doentes?

TT – Os médicos de Medicina Geral e Familiar (MGF) têm um papel fundamental na abordagem dos doentes psoriáticos. Por um lado, no diagnóstico e tratamento das formas mais ligeiras e localizadas, por outro, na referenciação dos casos mais graves para o dermatologista. Também no rastreio e diagnóstico precoce da artrite psoriática, desempenham um papel fundamental, uma vez que na maioria dos casos, é o médico de MGF que observa o doente nos primeiros sintomas da doença. Por fim, sendo conhecida a associação da psoríase a múltiplas comorbilidades, incluindo cardio-metabólicas, também aqui, o medico de MGF tem um papel crucial na gestão do doente. Felizmente, a interação entre a Dermatologia e a MGF tem sido cada vez melhor, com uma melhoria notória dos cuidados aos doentes psoriáticos.

 

 

 

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