Ana Paiva Nunes: “Não podem ser amputados os melhores cuidados que os doentes AVC têm direito”

A coordenadora da Unidade Cerebrovascular do Hospital São José, Ana Paiva Nunes, alerta para a gravidade das sequelas provocada pela falta de tratamentos de reabilitação. No âmbito do Dia Mundial do AVC a especialista relembra a importância da intervenção imediata.

Pouco ou nada se sabe sobre o número de pessoas que morreram de Acidente Vascular Cerebral (AVC) durante a pandemia. Preocupada perante a resposta que está a ser dada aos sobreviventes, a coordenadora da Unidade Cerebrovascular do Hospital São José, Ana Paiva Nunes, alerta para a gravidade das sequelas provocada pela falta de tratamentos de reabilitação. No âmbito do Dia Mundial do AVC a especialista relembra a importância da intervenção imediata.

O que é a Viva Verde AVC?
É uma estratégia organizada que permite que o doente referenciado pelo pré-hospitalar seja avaliado de norma emergente no serviço hospitalar. Esta Via Verde foi necessária quando se passou a ter um tratamento para o Acidente Vascular Cerebral e, portanto, o AVC passou a ser uma emergência em que o tempo era fundamental para a recuperação do doente. Quando mais rapidamente o doente for tratado, melhor é a probabilidade de um bom resultado final.

Atualmente como é que está a funcionar nos hospitais?
A Viva Verde persistiu sempre na grande maioria dos hospitais ou, pelo menos, nos centrais foi sempre possível manter esta via a funcionar. Aquilo que é importante dizer relativamente à Viva Verde é que, especialmente agora no tempo da pandemia, o doente deve ativar o 112 e, portanto, ser orientado pelo Centro de Orientação dos Doentes Urgentes – INEM para o hospital que tem capacidade para o tratar e que está mais perto do doente.

Isto significa que, em caso de suspeita, o doente não se deve dirigir ao hospital?
Antes do doente se dirigir pelos seus próprios meios para o hospital, o que deve fazer em primeiro lugar é ligar o 112, onde será orientado para o hospital com capacidade para tratamento de AVC mais próximo.

A nível interno como decorrem os procedimentos de diferenciação entre doente Covid e não Covid?
Há circuitos distintos para ambos os doentes. No meu hospital, um doente que venha com Via Verde AVC é recebido diretamente na sala de TAC e se tiver indicação para tratamento é tratado imediatamente. 

Um doente com AVC e portador com o SARS-Cov-2 é tratado como qualquer outro doente, embora com um circuito absolutamente diferente aos doentes não Covid. 

Estamos protegidos do ponto de vista do risco do contágio.

Quais são as consequências para doentes de AVC em caso de resposta tardia?
As consequências são uma menor probabilidade de ficar sem incapacidade e uma maior probabilidade de morte. 

E no contexto atual pandémico está a ser assegurada uma resposta atempada aos doentes?
Os doentes estão a ter o mesmo acompanhamento do ponto de vista do tratamento fase aguda. 

O AVC consiste no fundo na oclusão de uma artéria do cérebro e nós temos medicamentos para dissolver esse cuágulo ou cataterismo em que o cuágulo é removido. Desse ponto de vista conseguimos manter durante toda esta pandemia o acesso e o cuidado aos doentes. O problema foi a reabilitação que é outra parte do tratamento. O doente com alguma incapacidade ou sequela precisa sempre de fazer reabilitação para conseguir recuperar o mais depressa possível e com um maior potencial possível. É claro que com os tratamentos suspensos, por causa da pandemia, houve um grande impacto na recuperação dos doentes. 

Este cenário vai melhorar ou, devido ao aumento de novos casos de Covid-19, vai retroceder?
Eu espero e parece que as autoridades de saúde ganharam maturidade para perceber que os doentes não Covid têm de continuar a ser tratados como são sempre. Não podemos deixar de tratar todas as outras situações que precisam de tratamentos emergentes, como nunca o deixámos de fazer durante a pandemia. Eu espero agora haja a sensibilidade para perceber que há outras coisas, como o tratamento de reabilitação, que não podem ser suspensos porque não podem ser amputados os melhores cuidados que os doentes têm direito. 

 Do ponto de vista do AVC qual considera que foi o maior erro?
Foi a suspensão da reabilitação. 

A implementação da Viva Verde AVC para todos os hospitais, em Portugal, deverá ser uma prioridade?
Nem todos os hospitais têm protocolos internos de ativação interna de AVC e não só devia ser, como já deveria ter sido. Todos os hospitais deveriam ter um protocolo de abordagem a um doente com AVC. Se a rapidez tem repercussões no prognóstico nós temos de ter protocolos de forma a podermos atuar da forma mais célebre e mais ágil possível. Portanto, sim, todos deveriam implementar a Via Verde AVC.

Acredita que os portugueses estão todos sensibilizados para o Acidente Vascular Cerebral?
Não acredito. Temos uma péssima formação em saúde que vem desde a escola… a população em geral é muito ignorante relativamente a todas as questões de saúde e daí as falsas crenças. Portanto nunca é demais fazer-se campanhas de sensibilização, campanhas de educação para a saúde e campanhas de alerta para situações emergentes como é o caso do AVC. 

Gostava de deixar uma mensagem importante tendo em conta que hoje celebra-se o Dia Mundial do AVC?
A minha mensagem principal para as pessoas é que: se tiverem a boca ao lado, dificuldade em falar ou menos força num braço ou se virem isto acontecer a alguém devem de ligar imediatamente ao 112, não é ir ao hospital.

Quando ligam é feita uma triagem de outros sintomas e outras situações e o doente é orientado para o hospital mais perto que tem capacidade de o tratar. Se o doente for pelos seus próprios meios ao hospital pode ir para um que não tem capacidade para o tratar. Isso já era relevante antes da pandemia, agora mais relevante é ainda.  

Entrevista de Vaishaly Camões

 

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