António de Sousa Uva
Médico do trabalho, Imunoalergologista e Professor catedrático da NOVA (ENSP)

Saúde Ocupacional e Medicina do Trabalho: O trabalho dá saúde? Então que trabalhem os doentes!

03/11/2020 | Opinião

Tantas vezes que, como Médico do Trabalho, ouvi de trabalhadores a frase que escolhi como subtítulo deste texto. Confesso que nunca entendi (ou não quis entender) o seu significado, porque tem na sua formulação o “preconceito” que o trabalho nunca pode ser encarado de forma positiva (perspectiva salutogénica). Dito de outra forma, (sub)entende-se, com certa dose de ironia, que o trabalho nunca pode ser saudável e o que dará saúde é não trabalhar remetendo, por isso a acção terapêutica do trabalho para quem precisa.

Ora para alguém que acha que o trabalho pode (e deve) ser perspectivado salutogenicamente e que uma parte importante do seu próprio trabalho tem essa finalidade é, no mínimo, perturbador senão mesmo desintegrador de um dos grandes objectivos da Saúde Ocupacional: a promoção da saúde no trabalho.

O que estará na origem deste provérbio popular será, por certo, a associação feita ao longo dos tempos que o trabalho é sempre penoso e potencialmente patogénico, servindo apenas para “ganhar a vida”, como se refere no título de um nosso livro: “Saúde, Doença e Trabalho: ganhar ou perder a vida a trabalhar?” em que se abordam diversos aspectos dessas interdependências, incluindo a perspectiva patogénica quase sempre mais frequente.

De facto, o que tem sido dominante é que o trabalho é melhor do que o não trabalho (atente-se na situação pandémica actual), apesar de muitos trabalhos serem muito pouco valorizados pela sociedade, não só na dimensão da Saúde e Segurança como, por exemplo, na respectiva expressão salarial. E essa perspectiva parecer ter uma relação directa, essencialmente, com trabalhos com grandes exigências físicas ou, no mínimo, com menos “complexidade”.

A terciarização da economia, no entanto e pelo menos na Europa, “amaciou” as exigências físicas daqueles trabalhos e arrastou-os para as exigências mentais o que até se revela na perspetiva patogénica do trabalho, em que os factores de risco de natureza física e química têm vindo a ser substituídos (ou, pelo menos, acompanhados) pelos factores de risco de natureza psicossocial que adquirem, actualmente, o principal protagonismo como agentes (profissionais) de doença. Claro que os factores de risco relacionados com a actividade, associados a muitos aspectos do trabalho de que se destaca a sua parcelização e a consequente repetitividade, continua a liderar a etiologia das doenças “ligadas” ao trabalho como é o exemplo paradigmático das lesões musculoesqueléticas ligadas ao trabalho (LMELT).

Porque tardará então a perspectiva de comprometimento (ou “engagement”) que deveríamos ter com o Trabalho?
Não será o Trabalho uma actividade humana indispensável ao seu bem-estar através, desde logo, da criação de riqueza?
A perspectiva exclusiva do trabalho como fonte de doenças e de acidentes é (ou tem que ser) o nosso “fado”?

Não creio nisso! e, portanto, essa deveria ser uma das principais razões para conceber o trabalho sempre numa perspectiva salutogénica se, de facto, se considera o trabalho humano como uma actividade indispensável da Humanidade. Isto para não referir que, naturalmente, trabalhadores saudáveis e seguros produzem mais e melhor e, consequentemente, criando mais riqueza aumentam a mais-valia que resulta do seu trabalho e contribuem para o sucesso da empresa (ou da organização) e, dessa forma, das sociedades onde se inserem.

De que estamos então à espera para investir no trabalho (humano!) como fonte de saúde e de bem-estar dos trabalhadores e do sucesso das empresas?

A óptica dominante do trabalho como fonte de doença ou de acidente necessita de quem estude essas inter-dependências e inter-relações e a Medicina do Trabalho e a Saúde Ocupacional têm por isso dedicado a essas matérias a máxima atenção. Quase sempre, apesar de tudo, em detrimento daquela perspectiva salutogénica de considerar o trabalho como fonte de bem-estar e de “compromisso” entre as razões da sua existência e a melhor situação de saúde de quem o presta. Tal permite, dessa forma, a melhor capacidade de trabalho ao longo da vida ou, dito de outra forma, investir na saúde e segurança dos trabalhadores é rentável também para as respectivas áreas de negócio..

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