António de Sousa Uva
Médico do trabalho, Imunoalergologista e Professor catedrático da NOVA (ENSP)

Um dashboard diário com os reportes de COVID-19

10/11/2020 | Opinião

Os anglicismos já não são apenas frequentes, uma vez que a sua profusão é avassaladora. Claro que sempre existiram na língua portuguesa, mas, nos últimos anos, têm entrado em catadupa no nosso linguajar e na nossa escrita de que o exemplo do “printar” em vez de “imprimir” é um excelente modelo ou, ainda mais recentemente, “o racional” em vez de “raciocínio”. Quer-me parecer que, nas últimas décadas, a completa conquista feita pela língua inglesa da comunicação científica, envolvendo tanto a criação de conhecimento como a sua divulgação, tem para isso muito contribuído e a expectativa é, para o bem e para o mal, que essa contribuição seja cada vez maior.

A sua adopção na nossa língua é tão frequente que até galicismos (ou francesismos) como “tableau de bord” muito usado na área da Gestão como “painel de controlo”, vem sendo substituída por “dashboard” que não me espantaria que daqui a alguns anos se designe “dacheborde” ou pela fonia “decheborde” (como futebol de football). Um bom exemplo na actual pandemia da utilização copiosa de anglicismos poderia ser um “dashboard diário com os reportes de COVID-19” que é, mais ou menos, o relatório diário de situação emitido há nove meses, usado agora como título.

De facto, os anglicismos que agora estão na moda é a COVID-19 (acrónimo na língua inglesa de Corona VIrus Disease – 2019), profusamente usada no masculino por eruditos e não eruditos (se o acrónimo tivesse sexo seria hermafrodita, de Hermes e Afrodite) e o reporte (antes, e durante largas décadas na área da saúde, designado “notificação”, como é o exemplo das doenças de notificação obrigatória ou a notificação de doenças de evicção escolar). São, por certo, sinais dos tempos já indiciados por exemplos como o “stress” ou “stresse”, no português de Portugal, ou o “estresse” no português do Brasil. É uma floresta de estrangeirismos e aportuguesamentos que, por períodos de tempo por vezes muito longos, podem ser motivo de alguma confusão e até de alvoroço para alguns puristas da língua portuguesa.

Assinale-se que ainda há bem pouco tempo se usava maioritariamente a tradução dos acrónimos, como é um bom exemplo a utilização do acrónimo VIH (Vírus de Imunodeficiência Humana) e não do acrónimo na língua inglesa HIV (Human Immunodeficiency Viruses) ou SIDA (Sindroma de Imunodeficiência Adquirida) e AIDS (Acquired Immunodeficiency Syndrome). Imagine-se o mesmo para o vírus SARS-CoV-2 (Severe Acute Respiratory Syndrome CoronaVirus 2) cujo acrónimo em português poderia ter sido SRAG-CoV-2 (Sindroma Respiratório Agudo Grave CoronaVirus 2) ou DCOVI-19 (Doença do Coronavirus 2019) que, diga-se em abono da verdade, não soaria mesmo nada bem depois da familiaridade que todo o mundo já tem com o acrónimo em inglês.

Enfim, a língua portuguesa está bem viva e não são mais do que sinais dos tempos! Habituemo-nos.

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