António de Sousa Uva
Médico do trabalho, Imunoalergologista e Professor catedrático da NOVA (ENSP)

COVID-19: fará sentido uma estratificação do risco universal para todos os Concelhos?

18/11/2020 | Opinião

Estamos “alojados” em matéria de número de casos (COVID-doença e COVID-infecção) numa segunda onda pandémica e, assim parece,  muito próximo do pico desta segunda vaga que tudo leva a crer se atinja no final deste mês de novembro, As diferenças com a primeira vaga assentam agora na pressão ainda mais intensa nas unidades prestadoras de cuidados de saúde de natureza clínica (que atrofiam a restante prestação de cuidados e ameaçam a ruptura) e a pressão nas Unidades de Saúde Pública que foi (e ainda está a ser) de tal modo intensa que a sua acção de antecipação é agora adiada ou é totalmente “improvisada” sendo, apesar de tudo, as escolas e, de novo, as residências para idosos (e agora a prisões) o foco principal de acção das acções preventivas.

Finalmente a estratificação do risco (o “badalado” semáforo) viu a luz do dia, demonstrando que comentários de não especialistas em Saúde Pública que se referiam a essa abordagem como não sendo de Saúde Pública (!!!!!!!?????) não só eram desadequados, mas reveladores de pouca competência em matéria de gestão de riscos. Passámos a “fatiar o fiambre” em matéria de risco, adaptando as medidas de mitigação à situação de risco concreta de grupos de pessoas (à falta de melhor, autarquias). Mas, inexplicavelmente, demorou tanto tempo …

Para tanto recorreu-se a um indicador (taxa de incidência, obviamente num determinado período de tempo) e adoptou-se um ponto de corte “internacional” o que tem vantagens já que permite facilitar eventuais comparações (o erudito “benchmarking”). Tal taxa é uma proporção: uma “permicentimilagem” (por 100.000) o que aplicado a um Concelho com cinco ou seis mil habitantes é mais ou menos equivalente a dizer que um é cinquenta por cento de dois … Resultado: alguns desses Concelhos com exíguas dezenas de casos de COVID-19 (mesmo que quase todos num surto) passam a figurar no grupo de aplicação de medidas mais “espartanas” de contenção e como, infelizmente, isso é visto como uma espécie de “lista negra”, instala-se a indignação de alguns autarcas.

Não poderia existir melhor indicador que a perspectiva da “culpa” se sobrepõe, popularmente, à teoria do “risco” e que isso é entendido, não como uma estratificação de aplicação de estratégias de prevenção, mas como um indicador de “condenação” de um grupo de cidadãos “incumpridores” e que, por isso, devem ser “castigados”. Como classificar o trabalho de “comunicação de risco” que deixa tal tipo de entendimento ocupar muitas horas de órgãos de comunicação social? Como aceitar que tal tipo de interpretação “pulule” nos media e eternize interpretações, no mínimo, muito incompreensíveis?

Agora, mais do que nunca, devemos deixar que os cidadãos compreendam a actual situação pandémica e repetir, até à exaustão, que os “instrumentos” que temos para lidar com a pandemia são apenas os que actualmente temos e que devemos “racionalizar” o seu uso com os recursos adequados até que a vacina chegue (julgo mesmo que isso será necessário durante a imunoterapia específica). Isso é mais importante que adquirir ventiladores (que é obviamente necessário) porque digamos, dessa forma, ficariam sem “matéria-prima”. Agora que a “musculação” das Unidades de Saúde Pública já vem muito tarde, já que é hora de controlo de danos e de adequar as estratégias de Saúde Pública a acções de mitigação das maiores cadeias de transmissão do Coronavírus SARS-CoV-2…. será muito difícil conter a “avalanche” de procura de cuidados em unidades de prestação de cuidados (… e os óbitos).

Mas como se pode facilitar essas tarefas se até a aquisição de uns milhares de telemóveis nos Cuidados Primários e na Saúde Pública se torna uma tarefa que me parece que só ocorrerá quando a sua utilização deixar de ser crítica. É o que há!

… mas não desesperemos, temos sempre a boa “percepção do risco” que dificultará muito a circulação do vírus se adoptarmos as mais correctas atitudes e comportamentos de prevenção. Acredito muito nisso e acredito muito na adopção dessas medidas pelos meus compatriotas!

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