António de Sousa Uva
Médico do trabalho, Imunoalergologista e Professor catedrático da NOVA (ENSP)

A Saúde Pública, a Saúde Ocupacional e a pandemia de COVID-19

16/12/2020 | Opinião

Uma epidemia, mesmo com baixa letalidade, está para a Saúde Pública como um acontecimento dramático ocorrido em situações de trabalho (como as que têm sido noticiadas em minas com soterramento que determinam um número elevado de acidentes de trabalho mortais) está para a Saúde Ocupacional.

No caso concreto de uma pandemia, como a actual, a situação agrava-se exponencialmente porque, no essencial, a situação de risco não está circunscrita a uma situação concreta de um grupo também concreto de pessoas num determinado local. Numa linguagem popular, no planeta Terra “sentimos todos os calcanhares roídos”.

São ocasiões que colocam na agenda áreas de conhecimento quase sempre pouco valorizadas pela comunidade e, quase sempre também, reféns de uma perspectiva dominante de serem encaradas como um custo e não como um investimento. Numa linguagem (de novo popular) tal abordagem demonstra que a poupança (o “barato”) sai muito caro numa perspectiva de unidades monetárias e muito mais caro ainda já que muitos desses custos são intangíveis em matéria, por exemplo, de sofrimento humano e morte.

Quantas pandemias ou catástrofes ocupacionais serão necessárias para as comunidades atribuírem outra importância a essas áreas de conhecimento?

Quanto sofrimento e morte serão necessários para as sociedades se organizarem melhor para, nessas situações, terem uma melhor resposta?

Quantas situações dramáticas têm de ocorrer para ser considerado um investimento em vez de um custo?

Bastará recordar outras anteriores pandemias para vislumbrar a forte probabilidade da nossa memória colectiva não ser muito perene também na actual situação pandémica e de, pelo menos, ser muito provável (leia-se haver elevado risco) que o investimento em respostas mais organizadas e robustas a emergências em Saúde Pública seja desvalorizado fora de uma situação crítica (mais vale remediar que prevenir?). Oxalá esteja enganado!

Se as semelhanças das duas situações são facilmente perceptíveis há, todavia, algumas diferenças que tornam ainda mais inadiável a melhoria das condições de trabalho na perspectiva da saúde e segurança: os acidentes de trabalho, pelo menos teoricamente, são totalmente evitáveis o que não é completamente verdadeiro em relação a agentes microbiológicos como o SARS-CoV-2.

De igual modo, o mesmo sucede na prevenção das doenças ligadas ao trabalho menos “visíveis” devido ao “tempo de ocorrência” ser superior a “breves instantes”, mas com efeitos bem mais nefastos, ainda que sem a dimensão dramática do anterior exemplo. E, já agora, sublinhando que um dos objectivos da Saúde Ocupacional é ter trabalhadores saudáveis e seguros e que os locais de trabalho saudáveis e seguros só servem para contribuir para isso (dito de outra forma, são um meio e não um fim).

Na atual “montanha russa” pandémica, agora estamos no início do segundo planalto descendente e já ocorreram mais de meia dezena de milhares de mortos e, aparentemente e pelo menos, outro tanto de excesso de mortalidade (quanto ao aumento de morbilidade sabe-se menos, mas presumivelmente terá resultados bem para além da pandemia …) com uma mortalidade anual que será superior a 1% e uma letalidade por COVID-19 um pouco inferior a 2%. É bem provável que o envelhecimento da população não explique na globalidade o excesso de mortalidade não COVID.

Num panorama desses não se entendem argumentos “oficiais” de dissimulação dessa realidade, porque se a redução de mais de quase dois dígitos de milhão de consultas médicas e de mais de uma centena de milhar de cirurgias não impactam na morbimortalidade, para que servirão então?

Entretanto, no início do Ano Novo, tudo leva a crer que se iniciará a imunoterapia específica, da qual resultará seguramente, como já antes escrevi, uma realidade nova com uma consequente dança dos prefixos (pan; epi; en) de demia. Convém, no entanto, repetir, até à exaustão, que os comportamentos de prevenção terão que se manter ainda por muito tempo já que, entre outros aspectos, a disponibilidade de vacinas é limitada no tempo e a memória imunológica demora mais de quatro a seis semana a adquirir …

Destaquemos a parte boa: o inverno de 2021 vai, por certo, ser melhor do que o de 2020.

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