Mário André Macedo
Enfermeiro Especialista em Saúde Infantil

Antecipar a curva pandémica

27/01/2021 | Opinião | 0 comments

Todo o nosso eco-sistema de saúde está debaixo de uma enorme pressão. Os relatos que nos chegam dos serviços de urgência e cuidados intensivos são aterradores. As vacinas, apesar de genericamente têm corrido bem até à data, tivemos o anúncio da Pfizer que irá reduzir as entregas na Europa, só após 16 fevereiro retoma com a promessa de aumentar as doses. Caso tudo corra, em março teremos mais vacinas que o inicialmente esperado.

Mas neste grave contexto epidémico, até ao mês de março falta uma eternidade. A evolução da capacidade de resposta deteriora-se diariamente, os profissionais estão exaustos e a pandemia aumenta o seu impacto na população, deixando cada vez mais pessoas em estado crítico.

Não podemos simplesmente colocar todas as fichas na vacina, é preciso ação e antecipar a evolução da curva pandémica. A perceção subjetiva da pandemia tem um papel importante em relativizar os números, em março estávamos a pedir um confinamento geral com algumas centenas de casos por dia, agora que estamos na casa das dezenas de milhares de casos, não há a mesma ação nesse sentido. É fácil cair no relativismo, ou na sensação de impotência que não há nada a fazer, como se o vírus fosse mágico ou imbatível, mas os números de novos casos, óbitos e pressão sobre os hospitais não são aceitáveis.

A Covid-19 é uma doença prevenível. O Sars-Cov-2 cumpre todas as regras da biologia e da física. Outros países, mesmo democracias, tiveram sucesso em controlar a curva epidémica. Portugal também é capaz de o fazer, com liderança política adequada, comunicação certa e uma população motivada e esclarecida.

Em primeiro lugar, a utilização das máscaras. A sua utilização é essencial para evitar o contágio. Ao contrário do que muita gente acredita, e utiliza este argumento para desacreditar o seu uso, as máscaras que são normalmente utilizadas funcionam por evitar a propagação do vírus. Ou seja, mais do que nos protegermos, estamos a proteger o outro. Se todos utilizarmos corretamente, criamos uma eficaz proteção de grupo. Mas, dado a evolução do número de novos casos, é necessário melhorar esta proteção. Em determinados contextos, como espaços fechados para quem tenha que laborar neste período, deve ser obrigatório a utilização de máscaras P2, com um poder de filtragem superior, que produz uma proteção mais efetiva. A interligação entre a indústria e a saúde tem de acontecer, deve haver fundos públicos que ajudem fábricas do setor a aumentar a produção deste tipo de máscaras, para que sejam distribuídas em quantidade e qualidade suficiente aos cidadãos.

Outra importante e sensível sugestão, as escolas. Até aos 12 anos o risco de transmissão é reduzido, mas não é nulo. Sou muito sensível ao argumento que é preciso manter as escolas a funcionar, as crianças não podem ser novamente prejudicadas. Já o defendi publicamente e reitero o que disse. Mas deve ser feito com todas as medidas de segurança e estratificar por idades. Até aos 12 anos deve haver aulas presenciais, mas com menos alunos por turma e incluir estes professores e auxiliares nos grupos prioritários de vacinação. Dos 12 aos 17, os alunos devem ir para casa de férias durante 3 a 4 semanas, com a promessa de estas semanas serem compensadas nos meses de julho e agosto. Ou seja, o calendário escolar tem de se adaptar à situação excecional que vivemos. Na universidade, excetuando as aulas práticas, devem passar para o regime online. Não só se trata de uma população com dinâmicas de transmissão igual ao adulto, como com maior capacidade de adaptação e adesão a aulas online.

Em terceiro lugar, a base para controlar a epidemia está nas equipas de saúde pública. Produz um menor impacto mediático a contração de profissionais para as equipas, que anunciar a compra de mais ventiladores. Mas a prevenção é sempre melhor investimento que o tratamento. Se há área que precisa de um enorme e urgente reforço são as equipas que fazem o trace Covid. Contactar pessoas, testar com critério, ter à sua disposição testes rápidos para contextos de grupo e definir quem deve ficar de isolamento, é fundamental para se atingir o controlo da situação. Toda esta atividade tem de ser bem integrada com a dimensão social. Não podemos colocar toda uma família de isolamento, que não tenha uma rede de apoio, esperando que ela não saia de casa para comprar comida. É preciso uma rede comunitária que possa fornecer apoio a famílias em isolamento, assim como, garantir que ninguém cai na armadilha da pobreza por estar doente. Se houver essa perceção já estamos a perder a batalha.

Por fim, é preciso criar uma sinergia e reorganizar os cuidados de saúde. Coordenar a oferta de saúde a nível regional, definir hospitais Covid e não Covid, de forma a poder realizar a atividade programada possível e dar resposta às enormes necessidades de saúde da população. Para este esforço, naturalmente que o setor privado e social tem de ser recrutado. Temos pela frente o maior desafio das nossas vidas em que não podemos, de todo, falhar. Precisamos de todos os recursos disponíveis!

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