Rui Cernadas
Assistente Graduado MGF

“Apenas nos deveria surpreender o ainda podermos ser surpreendidos”

01/02/2021 | Opinião

Há frases ou pensamentos que não cessam de nos matraquear os ouvidos e as consciências.

A que escolhi para título deste desabafo indignado e humilhado é um desses exemplos.

François La Rochefoucauld foi um notável moralista escritor gaulês do século XVII e legou-nos esta sua ideia, surpreendentemente actual, não a respeito da peste que por alturas da sua existência repetidamente assombrava a Europa e as áreas em redor do Mediterrâneo desde o século XIV…

Como então, a Europa e o Mundo confrontam-se com dúvidas e medos, com erros e incertezas, com crendices e espertezas saloias, com propaganda e luto.

E como então, mas menos aceitável agora, não há confiança nos números exactos para o número de mortos, variando amplamente por localidade, região e país. Nos centros urbanos, quanto maior a população antes da Pandemia, maior a duração dos períodos de novos contágios e de mortalidade.

Falta trabalhar os dados e perceber os motivos pelos quais há de facto um excesso de mortes inédito em relação aos últimos anos e, ainda porque só em pouco mais de 40% pode ser justificado pela Pandemia. É um problema de registos, apenas?

E que estratégia de medicina legal foi determinada pelo Governo, sobretudo porque em estado de emergência pode fazer o que quiser? Qual é a taxa de autópsias e de “mortes de causa indeterminada”?

Ma claro que estamos no top nos tops e muito à frente de um pequeno, leal e avançado país, chamado de China e de onde se diz ter aparecido o primeiro caso em 2019. Como a peste negra, a primeira pandemia, no século XIV, teve origem na Ásia Oriental seguindo a “Rota da Seda”! Com a Covid-19, a China tem nesta altura em que me indigno e sinto humilhado, menos de cem mil casos e menos de cinco mil mortes! Perdesse eu a cabeça e quase quereria ter nascido chinês…

Acabo de ler num jornal diário nacional que, o “Governo vai passar a exigir que se apresente uma lista de pessoas suplentes a quem a vacina da covid-19 possa ser administrada para que se evite vacinar cidadãos que não são prioritários”.

Terá sido o Ministério da Saúde a exigir que, a task-force responsável pela elaboração do plano de vacinação solicite às entidades responsáveis pela operacionalização do programa que preparem “uma lista de outras pessoas prioritárias a quem poderão administrar as vacinas, no caso de impossibilidade superveniente de alguma das pessoas inicialmente definidas”.

O que nos deve alertar e podemos antecipar doravante são dois aspectos.

O primeiro, o da sobrecarga para a task-force já ocupada a contar as vacinas desperdiçadas ora em acidentes de viação, ora em problemas de redes de refrigeração do SNS… Convém entender que cada frasco de vacina da “Pfizer” perdido foram seis mil cidadãos prejudicados pela falta de uma dose de imunização!

O segundo, se a moda das listas de suplentes pega, designadamente na área do Governo, podemos ter à vista muitas substituições.

Outro dos nobres objectivos do Governo era o de aproximar o número de camas de cuidados intensivos que o SNS tem/tinha da média dos restantes países da União Europeia.

E viu-se como a sociedade e muitas empresas, instituições e pessoas contribuíram com doações em dinheiro e equipamentos.

O número de ventiladores nos hospitais do SNS terá crescido “72% desde o início da pandemia, havendo agora um total de 1961 destes equipamentos”, revelou o Ministério da Saúde em meados de Dezembro passado. Mas o “número de aparelhos é inferior ao que o Estado contava, já que mais de uma centena ainda não está operacional e muitos outros não chegaram ao país por incumprimento de contratos”, lia-se em alguns jornais em 14 e 15 de Dezembro.

Todavia, o Ministério da Saúde em Agosto explicou que “foram cancelados os contratos relativos a 245 ventiladores, por incumprimento do prazo de entrega, e depois de se ter concluído não serem necessários”…

Enfim, sabemos como as hipoxias afectam o cérebro.

Os sintomas suaves incluem a redução na memória a curto prazo e na capacidade de aprender coisas difíceis. Mas não limitam a facilidade de dizer coisas sem coerência, nem lucidez, nem verdade.

 

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