Paula Costa: “Os doentes com VIH passam por processos bastante dolorosos de aceitação da sua condição”

A infeção por VIH continua a condicionar a vida de milhares de doentes. A especialista em coaching, Paula Costa, da Fundação Portuguesa “A Comunidade Contra a SIDA” revela que os doentes seropositivos continuam a sofrer de “um estigma muito acentuado”, havendo muitos doentes que se “culpabilizam pela sua condição”. Atendendo às necessidades dos portadores de VIH a Associação decidiu apostar coaching, uma nova ferramenta de apoio que visa promover o desenvolvimento pessoal destas pessoas numa perspetiva de futuro. 

HelathNews (HN)- Como surgiu o projeto de coaching para doentes VIH?

Paula Costa (PC)- O coaching para pessoas que vivem com VIH surgiu de uma necessidade que fomos identificando e que tem a ver com gestão da condição crónica desta infeção. Esta condição requer não apenas do suporte clínico, mas também do apoio e até de reconstrução que passa por outros técnicos. Percebemos, assim, que o coaching para a saúde poderia ser também uma peça fundamental.

Os doentes com VIH passam por processos bastante dolorosos de aceitação da sua condição. Há questões que precisam de ser vistas do ponto de vista da psicologia e da psiquiatria, mas também temos que dar um outro tipo de apoio e orientação que seja mais sistemática e que vá no sentido de eliminar as barreiras entre aquilo que é o tratamento e a vida das pessoas. As nossas assistentes sociais fazem um grande trabalho, mas no coaching a ideia é que a pessoa melhore comportamentos.

HN- Em termos práticos como é feito o coaching?

PC- O coaching é um processo em que atendemos às necessidades concretas das pessoas, percebemos a forma como elas olham si mesmas e procuramos perceber onde querem estar num futuro próximo. Isto significa que o coaching trabalha numa perspetiva de futuro e, portanto, o coach tem que ter a consciência que vai acompanhar o doente durante o seu processo. Não é o coach que dita o que a pessoa tem que fazer, o coach orienta e tenta perceber a forma como o doente se quer ver e as suas perspetivas de futuro. Com estas informações o coach procura encontrar as melhores estratégias para lá chegar.

Podemos ter coaching em grupo ou de forma individual e é aqui que vemos as mais-valias deste apoio para as pessoas com VIH. Cada pessoa tem necessidades específicas, cada pessoa tem ideias e perspetivas de futuro diferentes. Os nossos utentes podem agendar uma sessão, que pode durar meia ou uma hora, e o coach vai fazendo perguntas ao coachee e é aqui que são desconstruídos os juízos de valor e as ideias que as pessoas têm acerca de si mesmas. O coach começa a construir com o doente uma nova visão daquilo que ele pretende para si próprio.

HN- Quais as linhas de contacto e de diferença entre a intervenção do coach e a do psicólogo?

PC- O psicólogo é um terapeuta. O psicólogo vai tratar questões muito concretas, questões do passado que têm que ser resolvidas de uma forma que o coach não faz. Por exemplo, se estivermos a falar de uma depressão tem que ser o psicólogo ou o psiquiatra a tratar, nunca o coach. A psicologia e a psiquiatria tratam questões relacionadas com a saúde mental enquanto nós estabelecer relações entre a promoção da saúde e a qualidade de vida, de acordo com o desenvolvimento de competências e habilidades da própria pessoa.

 

Sabemos que as consultas de psiquiatria na área do VIH sofreram alguns condicionalismos, são consultas de certa forma espaçadas e no coaching é mais fácil estabelecer o contacto com o doente de uma forma mais célere e mais próxima.

HN- Que doentes podem usufruir deste apoio?

PC- Não são todos os doentes, mas podem ser. Temos várias faixas etárias. Os doentes mais jovens têm questões mais relacionadas com as relações amorosas em que procuram apoio como partilhar com o parceiro que são doentes seropositivos. No caso dos mais velhos trabalhamos mais a questão do isolamento social.

HN- Mencionou que existem aspetos que só podem ser trabalhados pelo psicólogo e não pelo coach. Portanto, quando é que os doentes podem ser acompanhados por um coach?

PC- Estava a falar na questão da negação do estado de saúde e na questão das depressões e estes são assuntos específicos da psicologia e da psiquiatria. Não quer dizer que o coaching não consiga intervir, mas consegue sempre numa relação muito próxima com o especialista.

Existem situações em que o doente falta as consultas ou falha na medicação e isso o coaching pode trabalhar. O coach pode ter uma intervenção do ponto de vista da sustentabilidade do tratamento.

HN- De que forma o coaching contribui para a melhoria da qualidade de vida dos doentes?

PC- Nas nossas sessões procuramos, junto dos nossos utentes, identificar as suas metas. Não vamos dar a receita porque a receita está na própria pessoa, a resposta aos problemas está em cada um de nós. O coach faz com que a pessoa reflita acerca da sua vida e procura melhorá-la.

HN- Tendo em conta que o coaching tem como principal objetivo promover o desenvolvimento pessoal destas pessoas. Qual tem sido o maior desafio?

PC- O maior desafio é trabalhar a questão dos próprios juízos de valor. Estas pessoas carregam um estigma muito elevado. Muitos doentes culpabilizam-se pela sua condição. Neste sentido procuramos eliminar as barreiras pessoas e perceber de que forma como o doente quer estar no futuro.

A questão da motivação, da autoestima e até a relação com as pessoas mais próximas são um dos aspetos que mais trabalhamos. Muitas vezes os doentes arranjam esquemas para esconder a medicação… Paralelamente ao estigma há a discriminação. Portanto, a aposta do coaching em saúde é na melhoria da qualidade de vida das pessoas.

HN- Qual é, no presente, a principal área geográfica de intervenção do coach?

PC- Em termos geográficos, o nosso serviço está a ser disponibilizado em todo o território nacional. As nossas sessões estão a ser feitas por telefone ou através da Internet

HN- Qual o balanço que faz deste apoio na vossa Associação?

PC- Apesar de ser um projeto relativamente recente o balanço que fazemos é bastante positivo. Na fundação temos toda uma equipa de suporte que procura combater as necessidades dos nossos doentes. As pessoas dizem-nos que de facto se não tivessem este apoio estariam já numa fase mais obscura – falo do isolamento, a solidão, a depressão.

Não há milagres, mas temos tido um impacto bastante positivo.

Entrevista por Vaishaly Camões

0 Comments

Submit a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Share This