Existe mais de uma centena de doenças reumáticas, sendo que as artrites idiopáticas juvenis são mais frequentes em crianças. Quais as formar de AIJ mais prevalentes?
A Artrite Idiopática Juvenil era antigamente considerada uma única doença, mas como se verificou que tinha tantas formas decidiu dividir-se esta grande entidade em sete subtipos. Estes dividem-se consoante a forma de apresentação.

A forma mais comum da AIJ é a forma que chamamos oligoarticular. Esta afeta no início poucas articulações e normalmente envolve quase sempre o joelho. A AIJ oligoarticular representa quase metade dos doentes com esta doença.

Quais os sinais e sintomas mais comuns?
A artrite indiopática juvenil manifesta-se através da dor que pode ser difícil de identificar, uma vez que os mais pequeninos começam com mais birras e a querer ir mais para o colo.

O inchaço das articulações é também muito típico e isso vê-se muito bem nos joelhos e cotovelos. No entanto, muitas mães podem nem dar por isso… Entre dar banhos e preparar o jantar, às vezes, um joelho inchado passa despercebido. Acham que pode ter sido de alguma queda a acabam por não valorizar.

Um outro sinal é a rigidez matinal, em que as crianças não se conseguem mexer muito bem de manhã. Levam bastante tempo a vestir-se, a tomar o pequeno-almoço e na escola podem ter alguma dificuldade em escrever.

A febre e as manchas do corpo são também sintomas muito comuns na AIJ.

Como é feito o diagnóstico?
Ao contrário dos adultos em que é fácil identificar a dor, as crianças são muito engraçadas. Fazem-se de fortes, ou porque não conhecem o médico ou, no caso dos bebés choram do princípio ao fim da consulta porque estão num ambiente estranho. Às vezes as crianças têm artrite nas mãos e, como têm os dedos papudos, é bastante difícil ver o se têm algum derrame. Portanto, temos de fazer exames com uma ecografia, por exemplo, para ver se o doente tem, de facto, alguma inflamação da articulação ou não. Além das análises isto dá-nos uma grande ajuda.

Afeta igualmente rapazes e raparigas?
De uma forma global a AIJ afeta mais raparigas do que rapazes. Podem estar em causa alguns fatores hormonais, apesar de serem os fatores genéticos e ambientais os principais responsáveis pelo desencadeamento da doença.

Que tipo de complicações pode causar?
Se esta doença não seja tratada a tempo o que pode acontecer é que a inflamação da articulação vai progredir, uma vez que o doente não tem tratamento. Pode provocar, assim, uma disfunção da articulação que pode provocar eruções no osso. Por exemplo, as crianças que não conseguem esticar totalmente os joelhos ou cotovelos tiveram uma forma sequelar.

Os doentes têm que ser referenciados logo. O médico de família tem que conhecer no fundo as doenças reumáticas e referenciar a criança para uma consulta de reumatologia de pediatria – uma especialidade que foi criada no ano passado.

Qual a terapêutica utilizada?
Normalmente a primeira linha de terapêutica são os anti-inflamatórios. Depois há fármacos modificadores da doença, ou seja, que permitem travar a doença.

Nos últimos dez anos houve uma “revolução” das terapêuticas onde surgiram as terapêuticas biológicas que têm alvos muito direcionados e que são bastante eficazes. No entanto, mais de 90% responde à terapêutica convencional.

No tratamento não importa apenas os fármacos, mas também a consciencialização da comunidade para estas doenças. A família e a escola têm um papel decisivo na gestão destas doenças.

As causas da AIJ são ainda desconhecidas. Existem alguns fatores de risco?
Sabemos que há fatores ambientais que possivelmente estão associados ao desenvolvimento da artrite, mas num doente que seja geneticamente suscetível. No fundo são o vírus da gripe, o vírus da rubéola, o herpes… Aliás, está cada vez mais a ser estudado o novo coronavírus como forma de despoletar esta doença.

Outro fator ambiental são os traumatismos físicos, em que o doente cai e pensam que só um sinal do próprio traumatismo. Os fatores hormonais também podem ser alguns fatores de risco.

Tendo em conta que hoje se assinala o Dia Mundial das Doenças Reumáticas nas crianças que mensagem gostaria de deixar?
Qualquer alteração que os pais, professores ou amigos notem nas locomoção das crianças deve ser um sinal de alerta para ir ao médico. Não devem deixar para mais tarde a achar que pode passar.

Entrevista de Vaishaly Camões

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