Rui Cernadas
Assistente Graduado MGF

Com ou sem planos…

21/03/2021 | Opinião

 

Os doentes, em Portugal e no Mundo, têm um horizonte sombrio pela frente…

Talvez mais sombrio entre nós, como vimos e como sabemos, com as necessidades que fomos e vamos tendo em permanente continuidade, quer com as ajudas de equipas clínicas de outros países, quer com o crescente endividamento nacional.

Quando não é a COVID, são os fogos florestais. E quando não são os fogos ou os desastres naturais, são naturalmente as incompreensíveis golpadas de bancos, de fundos desaproveitados, de desvios inconcebíveis ou de esquemas de branqueamento inacreditáveis.

Mas de facto, vamos a caminho do final do primeiro semestre de 2021. E como está a correr, se corre ou pelo menos não é paralítico, o plano de retoma das consultas no SNS?

Em 2020 só nos Cuidados Primários foram cerca de quatro milhões de consultas presenciais a menos do que em 2019!

E nos hospitais foram no mesmo período menos novecentas mil! Com a agravante de se ter registado então uma quebra em mais de 20% nas primeiras consultas, naquelas cuja referenciação já indiciava necessidade de avaliação diferenciada!

As “retomas” também precisam duma “bazucada” na expressão do Primeiro-Ministro. Mas não deixo de me sentir preocupado porque já há tanto buraco por aí que, oxalá a “bazuca” acerte nos alvos sob pena de alargar e aumentar a “buracada”…

 

Não é tempo, nem sabemos quando será, de discutir a Pandemia e os seus múltiplos impactos.

Mas a questão dos Cuidados Intensivos tornou-se central no discurso de todos os lados.

No entanto, com todos os factores demográficos e socioeconómicos conhecidos em Portugal, o SNS e o Governo andaram muito alheados do peso relevante das pneumonias.

Os dados públicos sobre esta matéria, infelizmente, não incluem os da hospitalização privada. Ainda assim, o SNS registava anualmente mais de quarenta mil internamentos anuais por pneumonia!  Ou seja, mais de uma centena por dia, dos quais mais de dez por dia a obrigarem a Cuidados Intensivos. O público e a comunicação social andavam distraídos, como distraídos continuarão depois da COVID-19. Mas morriam em Portugal quinze cidadãos diariamente por pneumonia, um a cada hora e meia de intervalo.

Com ou sem planos, a DGS também conhece esta realidade. E o caricato é que existia vacina eficaz, segura e de retorno garantido. Começar um plano de vacinação contra a pneumonia teria sido mais uma medida inteligente e, tal como agora, a dirigir-se numa primeira fase para as pessoas com mais de 65 anos de idade, uma vez que a perda natural de imunidade se observa na relação directa entre o aumento da idade e as taxas de mortalidade por pneumonia.

A Fundação Portuguesa do Pulmão há muito que apresentou estudos que apontavam para que, em 2019, uma estratégia de vacinação contra a pneumonia, nestes termos, custaria à volta de oitenta milhões de euros no SNS.

Na realidade, este montante elevado traduzia, finalmente, apenas o custo de um ano de tratamento e internamento do SNS com as pneumonias!

Mas com ou sem planos, agora, confirmou-se que o Estado e os sucessivos governos continuam a apostar no exibicionismo bacoco e a preferir o espetáculo. Antes tratar do que prevenir. Antes adquirir ventiladores e anunciar unidades de cuidados intensivos do que definir campanhas atempadas de vacinação, por exemplo. Antes lançar campanhas de anúncio de contratação de médicos e outros profissionais de saúde do que, formar especialistas e outros técnicos e proceder à abertura de vagas que contemple as carências de pessoal e antecipe as passagens à reforma ou ao sector privado.

Com ou sem planos, agora, não vamos criar muitas expectativas.

Evitamos desilusões, pagamos as asneiras como sempre.

Em impostos e em vidas!

 

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