João Valente Nabais
Vice-Presidente da Federação Internacional da Diabetes, Professor Auxiliar da Universidade de Évora, Assessor da Direção da APDP

A diabetes motiva-nos a chegar mais longe!

25/03/2021 | Opinião

O título desta crónica está cheio de conteúdo e significado! Seguramente que cada pessoa terá a sua interpretação e um sentimento muito próprio ao ler esta pequena frase. Para mim, significa a motivação que encontro no fato de viver com diabetes para quebrar barreiras, ultrapassar obstáculos e atingir os meus objetivos. O caminho lado a lado com técnicos de saúde e pessoas com diabetes tem sido das coisas mais relevantes para mim, mais gratificantes e as que me deram mais satisfação. Sentir que, de alguma forma, conseguimos ajudar um dos nossos pares, um dos nossos amigos açucarados, é algo indiscritível! É algo que implica felicidade e uma motivação extra para continuar a fazer mais e melhor.

De destacar que o título desta crónica é também o lema do projeto DiabPT United, e da equipa de futsal de pessoas com diabetes que tem representado Portugal no Campeonato Europeu de Futsal para equipas de pessoas com diabetes (Diaeuro). Para saber mais sobre este projeto podem visitar a página www.facebook.com/DiabPTUnited.

Existem inúmeros exemplos que provam que a diabetes não é uma barreira, mas sim uma motivação, para se atingir um desempenho elevado na profissão que cada um escolheu e em outras tarefas ou atividades. Na área do desporto, podemos citar Muhammad Ali (não confundir com o lendário Cassius Marcellus Clay Jr.) que foi, em 2018, a primeira pessoa com diabetes a ser pugilista profissional no Reino Unido, os futebolistas Nacho Fernández (Real Madrid) e Borja Mayoral (AS Roma), o jogador de futebol Americano Mark Andrews ou o remador Sir Steve Redgrave, cinco vezes campeão Olímpico. Na área da cultura temos muitos exemplos tal como Nick Jonas, Tom Hanks, Sharon Stone, Ana Carolina, Miguel Ruivo ou Martim Cabral. Estas celebridades, pelo seu impacto social, ajudam a quebrar barreiras e a servir de modelo para muitos.

Quando tratada corretamente a diabetes não é uma barreira para atingir os sonhos de cada um, o fato de a pessoa viver com diabetes não deveria ser um impedimento. Contudo, e apesar de todas as inovações no tratamento e no conhecimento desta patologia, as pessoas com diabetes continuam a ser discriminadas no acesso a alguns empregos e na contratualização de seguros de saúde e de vida.

Por exemplo, em Portugal, e em muitos outros países, continua a ser vedada a possibilidade de as pessoas com diabetes serem pilotos de aviação comercial. Esta situação é incompreensível porque a segurança pode ser garantida com a introdução de um protocolo adequado, tal como já existe em alguns países como o Canadá e o Reino Unido, que pode incluir o uso de um medidor continuo de glicémia, ou a medição da glicémia antes e durante o voo, e a obrigatoriedade de passar o controlo do avião para o copiloto quando o valor de glicémia está fora dos limites do protocolo. Para além destes países também a Áustria, Irlanda e Estados Unidos da América permitem que pessoas com diabetes acedam a esta profissão.

Um dos grupos mais ativos na defesa dos direitos das pessoas com diabetes a acederem à profissão de piloto de aviões pode ser encontrado aqui:

www.facebook.com/groups/flyingwithdiabetes/

Em vez de existirem restrições generalizadas, como as que ainda existem hoje em muitos aspetos, baseadas na doença e não na pessoa, deve ser feito uma avaliação caso a caso para avaliar se aquela pessoa, em particular, reúne as condições para executar as tarefas de modo seguro. Mesmo as mais exigentes e com risco acrescido. Os avanços na gestão da diabetes, com novas tecnologias e fármacos, potenciam a melhoria do controlo metabólico da diabetes e capacitam a pessoa para desempenhar funções ainda consideradas, por alguns, inadequadas às pessoas com diabetes. A diabetes não é uma barreira e não pode ser a desculpa para a descriminação ainda existente!

Esta avaliação cega, e não individualizada, é também usada nos seguros de saúde e de vida onde o tratamento dado às pessoas com diabetes é discriminatório e lesivo dos direitos das pessoas. O simples fato de uma pessoa viver com diabetes pode levar a que o seu seguro de vida, por exemplo para associar a um empréstimo bancário para aquisição de habitação, tenha um acréscimo de 100, 200 ou 500% podendo inclusivamente ser negado, independente do controlo metabólico da diabetes. Tudo depende da companhia de seguros. É urgente que sejam usadas tabelas de risco adequadas que tenham em consideração a avaliação do risco para cada pessoa com diabetes. O mesmo acontece no acesso a seguros de saúde.

A diabetes motiva-nos a chegar mais longe! Mesmo que nos coloquem obstáculos à nossa frente. Mesmo com os mitos e falsas crenças ainda existentes. Mesmo com a discriminação ainda existente.

Chegaremos sempre mais longe se estivermos todos unidos na defesa dos interesses e direitos das pessoas com diabetes, sem nunca esquecer as nossas obrigações e deveres.

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