Frustração de uma vida de dietas sem sucesso leva à procura da cirurgia bariátrica

A frustração de uma vida de dietas sem resultado, a baixa autoestima e a discriminação por serem obesos leva muitos doentes a recorrer à cirurgia barátrica, que encaram como a “solução milagrosa” para os seus problemas.

A história da obesidade na maior parte destes doentes começou logo na infância e quando aparecem na consulta, aos 40, 50 anos, relatam várias tentativas frustradas de dietas, disse à Lusa Sandra Velez, psicóloga clínica que integra a equipa da Unidade de Tratamento Cirúrgico de Obesidade do Centro Hospitalar Universitário Lisboa Central (CHULC).

“Têm a autoestima baixa, a frustração de não conseguirem perder peso e lidarem mal com a imagem corporal ou sentirem-se discriminados a nível profissional e até mesmo a nível das relações interpessoais”, adiantou Sandra Velez, que faz o acompanhamento destes doentes antes e depois da cirurgia.

Como o tempo de espera às vezes é longo até à cirurgia, há doentes que acabam por desistir. A motivação é muito importante porque “muitas vezes [os doentes] pensam que a cirurgia bariátrica é uma solução milagrosa e não é”, contou à agência Lusa

Por isso, é preciso perceber e avaliar os níveis de motivação da pessoa para a cirurgia: “Vêm à procura de uma solução com uma postura passiva e têm que perceber que têm de ter uma postura ativa, alterar o estilo de vida e fazer a adesão a outros comportamentos para uma vida mais saudável e a motivação pode surgir de uma forma mais sustentada ou não”.

Numa reportagem ao hospital Curry Cabral, a propósito do Dia Nacional da Luta Contra a Obesidade que hoje se assinala, a agência Lusa falou com Maria João Silva, de 55 anos, que foi a uma consulta de endocrinologia, antes de ser operada na próxima quarta-feira. O médico José Silva Nunes recomendou-lhe a medicação que terá de alterar após a cirurgia.

Tem 1,58 de altura, pesa 107 quilos e tem um Índice de Massa Corporal elevado. Depois de se pesar, medir a cintura e a tensão arterial, o médico disse-lhe que aumentou 700 gramas desde a última consulta, mas ganhou massa corporal.

“Uma pessoa que faz tudo certinho, fica muito desanimada quando vai à balança e tem exatamente o mesmo peso”, mas isso acontece porque o reduziu em termos de gordura, mas aumentou em termos músculo, “o que até é uma boa evolução”, explicou José Silva Nunes.

Com problemas de hipertensão, colesterol elevado e problemas nos joelhos devido a um acidente de carro, Maria João decidiu avançar sem medos para a cirurgia.

“Tenho uma criança de seis anos e custa-me imenso no dia-a-dia querer brincar com ela à vontade e não conseguir. Sento-me, por exemplo, no chão, mas depois para me levantar custa muito”, desabafou, convicta que vai ganhar mais qualidade de vida.

Nos últimos anos, o CHULC teve “um aumento brutal de pedidos de consultas”, disse José Silva Nunes, adiantando que já retomaram os níveis de atividade pré-pandemia, fazendo entre seis a 10 cirurgias por semana.

O processo que conduz à cirurgia começa com uma reunião de grupo chamada “Avaliação multidisciplinar para o tratamento cirúrgico da obesidade” que, por exemplo, na quinta-feira reuniu 16 candidatos, a maioria jovens.

Após esta primeira abordagem, o doente é acompanhado entre seis a oito meses em consultas de Endocrinologia, Psicologia, Nutrição, Fisiatria e Fisioterapia.

Vítor Braz da Silva, fisiatra, ajuda estes doentes a fazer as alterações no estilo de vida necessárias para o processo de perda de peso e a sua manutenção que assentam na dieta e no exercício físico, que têm de ser mantidos para o resto da vida.

“Há pessoas cuja obesidade limita funcionalmente o doente” e há uns que têm “tantas dores” que não conseguem integrar o exercício físico no seu dia-a-dia.

Por isso, explicou, é preciso perceber as questões que limitam a sua participação num programa de exercício físico e depois explicar-lhes como e em que condições pode ser feito

“Costumo dizer que o exercício mais certo é aquele que o doente faça e que goste de fazer”, disse Vítor Braz da Silva.

A fisioterapeuta Maria Manuel acrescentou, por seu turno, que é muito importante identificar logo de início todas essas barreiras e conseguir de facto ajudar o doente.

Depois de avaliar o doente, criam-se estratégias de intervenção que passam pelo ensino e correção de dificuldades na atividade da vida diária e o aconselhamento sobre a atividade física.

Tem-se que adaptar o exercício ao tipo de vida que o doente tem, fazer o acompanhamento e depois fazer uma reavaliação para saber se o doente aderiu ou não à proposta para alteração ao estilo de vida, que tem que ser “uma proposta realista”.

“Temos que ser pouco exigentes, mas muito persistentes e ter muita empatia com o doente, porque são pessoas sofredoras, com a sua dignidade muitas vezes posta em causa”, salientou Maria Manuel.

LUSA/HN

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