Acácio Gouveia
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Coração, cabeça e estômago

24/05/2021 | Opinião

“(…) não é aumentando a aposta que colocamos a sorte do nosso lado.”
Amin Malouf

A vacinação contra o covid19, sob a liderança assertiva e dinâmica do vice-almirante Gouveia e Melo, tem sido um êxito. O número de pessoas vacinadas e de vacinas administradas, sem incidentes de maior, são prova inequívoca do bom andamento da campanha. Fica provado que a prestação de cuidados de saúde não pode ser um feudo dos profissionais da área e que competências próprias de outras profissões podem ser muito úteis na luta contra as doenças e pela promoção da saúde. Desde que, sublinhe-se, o conhecimento técnico seja respeitado e tido como nuclear a toda a ação.

Mas o que está correndo bem pode vir a correr mal. Como, no caso presente, vão-se acumulando ingredientes suficientes para que o sucesso descarrile, permito-me passar a escrito algumas notas, fruto experiência vivenciada no CAC onde trabalho e que, imagino, não será exemplo a destoar da regra.

Coração

“Depressa e bem, não há quem”
Aforismo popular

 

O vice-almirante expressou a sua intenção de acelerar o processo. O êxito objetivo até agora alcançado é um estímulo. O ambiente subjetivo de apreciação elogiosa (merecida, diga-se de passagem) constitui outro incentivo a justificar a decisão de Gouveia e Melo. A necessidade de cobrir o mais rapidamente possível toda a população é incontestável. O ambiente é de quase euforia e aí reside o perigo. É a emoção – ou o coração, se assim o entenderem – a comandar a tomada de decisões, focada nos sucessos conseguidos, mas alheada das limitações no terreno e esquecendo que este incremento anunciado aumenta a entropia que já se vai instalando. O feed-back positivo decorrente do bom desempenho até ao momento incentiva a aceleração do processo, sobreaquecendo-o e evocando a metáfora da reação em cadeia num reator atómico sem barras de controlo de grafite. Por falar em metáforas, e para fechar esta secção do coração, recorro à fisiologia para recordar que a velocidade, a partir de determinado ponto, não se traduz por mais eficiência. Sabemos que o cronotropismo positivo é um mecanismo de que o coração se socorre para fazer face a aumento de necessidades dos tecidos perante um esforço suplementar. Contudo, a taquicardia perde a sua eficácia partir de certo limite, por diminuição do volume de enchimento ventricular.

 

Cabeça
“O capital humano é o mais precioso”
Stalin

 

Reflitamos. Apressar o ritmo da vacinação depende de haver disponíveis: (i) vacinas, (ii) espaço físico e (iii) pessoal. Quanto às duas primeiras parece que estamos servidos. Já quando nos debruçamos sobre os recursos humanos o panorama é diferente. Não esquecendo a útil e fraterna ajuda de enfermeiros dos CSS, o grosso da responsabilidade de providenciar pessoal recai sobre os CSP, que como é sabido estavam já desfalcados, sobretudo na ARSLVT e ARS do Algarve. A campanha de vacinação contra a Covid 19 é particularmente exigente desviando muitos recursos da atividade diária dos centros de saúde, ficando esta comprometida. A Task Force tem usado os CSP como se a missão destes se resumisse à vacinação. Isto é, ficamos com a sensação que lhe foi atribuído um poder sobre os CSP, sem que tenha de responder pelos constrangimentos exercidos sobre todas as outras tarefas habituais dos centros de saúde. Por outro lado, e retomando a metáfora dos limites fisiológicos do coração, já temos exemplos de sobrecargas que ultrapassam a capacidade de vacinação com recurso a overbooking. Ultrapassar a lotação máxima de capacidade de vacinação é contraproducente por três razões. Primeiro, favorece aglomerações à entrada das instalações, de todo desaconselhadas em período de pandemia. Segundo, cria condições de conflitualidade entre utentes e entre utentes e profissionais. Terceiro, a velocidade excessiva é inimiga do rigor e da segurança.

Felizmente, tivemos recentemente indícios de uso da razão por parte da Task Force ao suspender até dia 25 o auto-agendamento e a discipliná-lo, pondo termo à sobreposição de horários de administração entre estes utentes e os convocados.

Tenhamos esperança que a cabeça aumente o seu protagonismo, em relação ao coração, na adaptação à mudança de circunstâncias com que nos vamos deparar.

 Estômago

“(…) interroguemo-nos acerca do que sucederá, se a reflexão pode ser útil”
Ilíada

 

Todos, nos CSP, compreendemos que as circunstâncias excecionais e os ganhos futuros justificam plenamente o enorme esforço em que estamos envolvidos. Ninguém ignora a transcendência da missão que nos foi atribuída. Contudo, bem vistas as coisas, é preciso ter estômago para suportar o modus operandi que a Task Force usa connosco.

Somos informados dos planos de vacinação com pouca antecedência e sujeitos a acrescentos de última hora, o que perturba a programação das tarefas habituais dos centros de saúde. Quando o prazo se encurta ao ponto de recebermos ordem de convocar utentes para o próprio dia, as unidades de saúde aproximam-se de caos. Ninguém parece preocupado com os constrangimentos que esta lufa-lufa está a gerar nas missões habituais dos centros de saúde.

Infelizmente, também do lado dos cidadãos precisamos de estômago rijo para enfrentar os demasiados exemplos de irresponsabilidade (chegamos a registar 20% de faltas em utentes auto-agendados!), de falta de civismo e a aceitação da mitologia antivacianas, neste momento centrada na vacina da AstraZeneca. Como se não bastasse, algumas disfunções decorrentes das decisões superiores são vistas, por falta de informação, como da responsabilidade dos atores locais e são causa de atritos.

Por último, também se está tornando indigesto o triunfalismo noticioso e dos comentadores que, baseados numa análise superficial, fazem apreciações distorcidas da realidade.

Enfim, os problemas e conflitos ficam para as equipes no terreno e os elogios para o vice-almirante Gouveia e Melo.

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Portanto, o aumento do ritmo da vacinação terá de ser repensado e redesenhado em moldes mais adequados, sob pena de degradação das condições de atendimento nos locais de vacinação e de colapso das outras atividades dos CSP.

Posto isto arrisco sugerir: (i) reforço das equipes de vacinação com profissionais exteriores ao SNS; (ii) avisar com antecedência razoável os ACES das listas de utentes a vacinar, para minimizarmos o impacto na prestação de outros cuidados e evitar disrupções na vida profissional dos nossos utentes (não esquecer que as faixas etárias na calha abrangem população ativa e com compromissos profissionais que se coadunam mal com convocatórias com 24 horas de antecedência) , (iii) definir uma política de firmeza para com os faltosos (acabando com a obsessão para com os que ficam para trás) e para com os negacionistas; (iv) convidar os meios de comunicação social a visitar os bastidores do processo e não se ficar pela informação oficial, mais ou menos triunfalista; (V) explicar à população que a atividade dos CSP vai estar inevitavelmente comprometida até ao fim da campanha de vacinação.

 

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