Imunoalergologistas alertam para relação da doença alérgica com outras patologias

Depois do sucesso do 1º Congresso de Imunoalergologia promovido pelo Hospital Luz, vários especialistas voltaram esta sexta-feira a juntar-se para atualizar conhecimentos e partilhar experiências sobre as novas abordagens no tratamento da doença alérgica. Em formato digital, o evento “Inovar e Revisitar a Alergia” foi dividido em quatro sessões clínicas e duas conferências.

O arranque da primeira conferência ficou marcado pelo relação da doença alérgica com outras patologias, nomeadamente a polipose nasal, o síndrome da apneia do sono obstrutiva do sono e a conjuntivite.

A primeira intervenção feita por Natasha Santos, do Centro Hospitalar Universitário do Algarve, teve como foco a “Polipose Nasal: novas terapeuticas”. No arranque da sessão, a especialista relembrou como começou a sua “história” com a polipose nasal. O primeiro paciente que tratou durante o internato tinha ido parar à sala de reanimação por uma crise grave de asma depois de ter tomado uma aspirina. Para além de ter asma o doente tinha uma rinossinusite com polipose nasal.

Sobre a gravidade da doença, Natasha Santos aponta que estes critérios são definidos: pelo tamanho dos pólipos e pela gravidade dos sintomas que persistem apesar do tratamento prolongado. De acordo com as orientações citadas pela especialista a perda de olfato e a congestão nasal são sinais que devem despertar preocupação.

A especialista explica que a melhor forma de perceber se o doente tem uma inflamação de tipo 2. “Existem alguns fenítipos clínicos que nos ajudam a apontar nesse sentido, como é o caso da presença de alergias, de asma respiratória e de doença exacerbada pelos anti-inflamatórios”.

“Na ausência de algum destes sintomas, a presença de eosinófilos no sangue periférios é, também, um bom preditor”, acrescenta.

Estudos citados por Natasha Santos indicam que tendo pelo menos menos uma destas características clínicas 94% dos doentes são caraterizados como portadores de inflamação de tipo 2.

Em idade pediátrica e em doentes com infeções respiratórias graves, a fibrose quística e a discinésia ciliar primária também são um importante diagnóstico diferencial.

Sobre o papel dos corticóides tópicos nasais a palestrante assegura que “funcionam e são a base do tratamento” da rinossinusite. Estes são indicados em doentes que já tenham sido sujeitos a cirurgia prévia, uma vez que “diminuem a recorrência dos polipos”.

Por outro lado, os corticóides orais apesar de diminuírem o tamanho dos pólipos, têm vários efeitos secundários.

A cirurgia endoscópica nasal “é um tratamento curativo e o único que algum dos doentes precisam”. Natasha Santos revela que nos doentes sem comorbilidades associadas, mais de 20% dos pólipos recorrem, sendo que esta percentagem aumenta para 50% nos doentes com asma e com doença exacerbada pelos anti-inflamatórios. “Por este motivo não seria a melhor hipótese de tratamento”.

Relativamente às terapêuticas inovadoras, a especialista destaca a introdução de ‘reboot’ surgery. “É uma técnica mais exigente onde é feita limpeza de toda a mucosa dos seios perinasais”. Este nova forma de cirurgia evita a possibilidade de recidiva.

A oradora sublinha que “é importante apresentar as diferentes opções de tratamento aos doentes”. “Tem de ser discutido os pós e contras das várias abordagens com o doente, este tem uma palavra importante a dizer”.

A especialista destaca, ainda, os últimos estudos de fase III realizados nesta área para o desenvolvimento de novas terapêuticas. Entre estes, Natasha Santos refere os estudos: SINUS-24, POLYP 1, SYNAPSE, Open-label Extension study e o OSTRO. Todos utilizaram parâmetros diferentes, mas a população incluída não diferiu de forma significativa.

“É uma área em que vamos ter algumas novidades”, conclui.

Uma outra patologia que mereceu espaço no debate foi a síndrome da apneia do sono obstrutiva do sono (SAOS). A apresentação do tema ficou a cargo de Pedro Carreiro Martins, Professor auxiliar da Nova Medical School.

De acordo com o especialista existe uma relação evidente entre a asma e a SOS. Pedro Carreiro Martins levanta a pergunta “será que ter asma constitui por si só um fator de risco para desenvolver apneia obstrutiva do sono?”.

Em resposta, cinta um estudo que contou com a participação de mais de 38 mil pessoas onde foi concluído que ter asma aumenta a probabilidade de desenvolver SAOS. “Isto significa que há uma associação muito grande”.

Outra pergunta levantada pelo assistente graduado de Imunoalergologia disse respeito à mortalidade. “Será que os doentes que têm asma e apneia obstrutiva do sono têm uma sobrevida mais baixa?” Pedro Carreiro Martins anuncia que, segundo estudos feitos nesta área, a taxa sobrevida dos doentes possa ser mais baixa.

Sobre o as implicações clínicas o especialista revela que quanto maior a apneia do doente pior o controlo da asma. Para além disto, “a literatura também surge que os indivíduos asmáticos ou com SAOS apresentem um maior declínio da função pulmonar”. Os doentes em situação mais grave apresentaram perda de função pulmonar de 72 ml por ano.

Pedro Carreiro Martins destaca a polissonografia como forma de avaliação. Este exame deve ser feito na presença de sinais e sintomas como: roncopatia, engasgamento durante o sono, pausas respiratórias durante o sono, sono não reparador, sonolência diurna excessiva, diminuição da concentração, irritabilidade, fadiga, cefaleias matinais e noctúria.

No entanto, o especialista em Imunoalergologia admite que cada vez mais começam a ser aplicados questionários. O questionário de Bertim tem sensibilidade de 72,1% e especificidade de 50%, sendo considerado “útil para avaliar a necessidade de referenciação para consulta de patologia do sono”. O questionário STOP-Bang tem sensibilidade de 93,4% e especificidade de 48.9%, tendo “sido utilizado para estratificar a gravidade da SAOS”.

No final da apresentação o especialista conclui que “a síndrome da apneia do sono obstrutiva do sono e a asma coexistem muito frequentemente”.

A sessão foi encerrada por uma abordagem feita a área da oftalmologia. O especialista Celso Pereira do Centro Hospitalar Universitário de Coimbra falou sobre a conjuntivite e o papel dos imunomoduladores.

Ao longo da palestra o especialista falou sobre as diferentes formas de conjuntivite, fez referência à fisiopatologia da inflamação alérgica conjuntival, bem como o papel de cada uma das células e mediadores implicados no desencadear da inflamação alérgica.

Celso Pereira realizou uma abordagem sobre as terapêuticas atualmente disponíveis para a conjuntivite alérgica, desde as suas formas mais ligeiras às apresentações mais graves e com maior impacto na qualidade de vida do doente.

Na conferência foram ainda abordados temas como papel das novas tecnologias no controlo das doenças; mudanças impostas pela pandemia ao nível da terapêutica das doenças alérgicas crónicas; desafios da telemedicina ao nível da segurança da prática clínica e do sigilo da relação médico-doente; Imunoterapia e alergia alimentar.

HN/Vaishaly Camões

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