17/06/2021 | Opinião

“Pandemia” do Estigma e do Preconceito

Sónia Gaudêncio
Psicóloga Clínica e Directora da ESTIMA +; Especialidade em Psicologia Clínica e da Saúde; Psicogerontologia e NEE

Foram divulgados recentemente, dados do inquérito “Impacto da Covid-19 nos estudantes do Ensino Superior”, realizado pelas Associações e Federações Académicas de âmbito nacional e que teve como objetivo avaliar a saúde mental dos alunos universitários e o seu percurso académico. Nas respostas a esse inquérito, aproximadamente 55% dos estudantes afirmaram ter piorado muito o seu estado de saúde mental, tendo mesmo 38% identificado consequências desse mal-estar psicológico, no seu desempenho académico. Se isto já é um dado que, a mim, enquanto psicóloga não me surpreende, mas reforça a necessidade de intervenção a nível psicológico e/ou psiquiátrico junto da população universitária, há também outros dados que mereceram a nossa atenção.

É que alguns destes jovens não conseguem aceder à essencial ajuda especializada para estes casos, ou por motivos económicos (22,6%); ou por questões relacionadas com vergonha, estigma ou preconceito (17,5%); ou por desconhecimento de soluções a que podem recorrer (10,3%).

Se é evidente, através destes dados, que corroboram os que alguns estudos têm mostrado, e os pedidos de ajuda diários que me chegam na prática clínica, que a pandemia deixou sequelas ao nível de saúde mental, nas crianças e jovens, destacando, neste caso em particular, os estudantes universitários e o impacto no desempenho e rendimento académico dos mesmos; não se podem descurar as respostas e a intervenção nestas áreas. A necessidade de criação de serviços de proximidade com capacidade de resposta, em tempo útil, para todos os que precisam de ajuda e a manutenção das soluções de apoio psicológico e psiquiátrico já existentes é cada vez mais urgente. Tal como é urgente, sensibilizar para a importância de cuidar da Saúde Psicológica, alertando para os impactos e consequências que os problemas a este nível podem ter na vida quotidiana e na vida em sociedade. É essencial que o poder político dê também a devida importância ao tema da saúde mental e invista, não só nas soluções de tratamento das patologias (quando já existe doença), mas também na prevenção dessas mesmas patologias e na promoção da Saúde Psicológica.

É certo que, durante a pandemia, já muito se criou e foi, mais do que reconhecida a importância que a saúde psicológica tem na vida e, principalmente, na qualidade de vida de cada um de nós. Mas é preciso manter essa valorização e acima de tudo, é imperativo acabar com o estigma e o preconceito, para que em pleno séc. XXI não se deixe de recorrer a serviços de apoio psicológico e/ou psiquiátrico por vergonha, medo do estigma ou preconceito.

Daí a importância destes assuntos serem cada vez mais abordados, de forma simples e acessível a todos. É essencial investir na literacia acerca das questões de Saúde Psicológica, o que, felizmente, tem sido uma das apostas da Ordem dos Psicólogos Portugueses, que tem produzido inúmeros materiais onde aborda, de forma muito clara e acessível, temas importantes da Ciência Psicológica e até mesmo esclarece quando se deve recorrer a ajuda especializada e a que sinais de alerta devemos estar atentos. Mas é preciso continuar a “passar a palavra”, sensibilizar consciências para que encarem a saúde Psicológica como algo tão importante como a Saúde física, de forma a normalizar na sociedade a abordagem destes temas e evitar esta “pandemia” do estigma e do preconceito. Recorrer a um psicólogo ou a um psiquiatra tem de ser tão “normal” como ir a um pediatra, ir a um dentista, ir a um oftalmologista. Se quando estamos com problemas de visão vamos ao oftalmologista, e ninguém nos discrimina por isso. Porque havemos de ser “olhados de lado” ou ter vergonha por ir a um psicólogo se não nos sentimos bem psicologicamente?

Pense nisso. Pode acontecer a qualquer um de nós.

Não se deixe levar pela “pandemia” do estigma e do preconceito.

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