21/06/2021 | Opinião

+COVID-19: um povo experimentado e um governo capaz!

António de Sousa Uva
Médico e Professor

Há cerca de um ano Joana Sá Pereira, Deputada à Assembleia da República na XIV Legislatura pelo Partido Socialista, terá afirmado a propósito da comemoração do Dia de Portugal/2020“…o vírus teve, diria, talvez o azar de encontrar pela frente um povo experimentado e um Governo capaz…”. Tenho pensado muito nessa frase a propósito do que poderia ser caracterizado como o “azar” que tivemos todos com o período periNatal passado (e janeiro) e com a actual situação pandémica.

Em ambas as situações (que são, apesar de tudo, muito diferentes entre si) a Virologia (ciência que estuda os vírus e suas propriedades), de acordo com o que foi dito, parece necessitar de bastante mais conhecimento do que o que está disponível ainda que a minha especialidade não seja a Microbiologia (e muito menos a Virologia). Tudo leva a crer, ainda que com acentuados escotomas de conhecimento, que a evolução das partículas virais possa, pelo menos parcialmente, estar ligada ao que então e agora parece acontecer (ainda e felizmente, com diferenças acentuadas entre si). À data, recorde-se, que anteriormente também se falava do “milagre português” fazendo apelo ao sobrenatural na apreciação de um fenómeno natural…

Tenho-me referido, copiosamente ao logo deste ano e meio, em outros textos à necessidade de saber fazer a destrinça entre Politic e Policy que, no combate à pandemia, é desejável que não se confundam. Claro que tal é mais fácil de enunciar do que de aplicar já que as melhores estratégias de acção em Saúde Pública só são possíveis de colocar em prática se o poder político, no pleno exercício das suas competências, dotar o país de escolhas, decisões, orientações, deliberações e recursos que permitam aquele combate. Esses são também exemplos de alguns dos aspectos que fazem a destrinça entre as medidas de Saúde Pública e a prática clínica e que, julgo, contribuem para alguma incompreensão por parte das populações sobre essas medidas (mesmo as mais experientes e com os Governos mais capazes).

A “brutalidade” do fenómeno pandémico e o voluntarismo no seu combate fomentaram, excessivamente, a também excessiva fusão daquelas duas formas de intervir. A frase proferida acrescenta ainda a aleatoriedade, entendida como o oposto da sorte (à semelhança de alguém que referiu que a morte é o contrário de estar vivo …) e, assim, o azar aplica-se ainda como uma crença. De facto, as situações são qualificadas como azaradas ou “de azar” quando ocorrem de modo contrário à expectativa, ou quando provocam uma surpresa que resulta num desastre, num prejuízo ou numa perda. Dito de outra forma, sorte a nossa que o vírus, hipoteticamente, não terá perspectivado correctamente quem tinha pela frente (ou, talvez, em quem se tinha hospedado …).

As melhores estratégias de acção em Saúde Pública convém que, pelo contrário, se baseiem mais nas diversas ciências que lhe dão suporte e, mesmo assim, encerram sempre algum grau de incerteza e de pluralidade de perspectivas de inúmeros campos de acção e de outras tantas áreas de conhecimento. À incerteza não convém adicionar fenómenos de aleatoriedade e, menos ainda, os relacionados com uma partícula viral em relação a um determinado povo. Deixemos para a Virologia o estudo dessa possível propriedade da partícula viral (quem sabe se não será uma nova propriedade ainda desconhecida das partículas virais ou, pelo menos, dos Coronavirus…).

Na actual estratégia de acção de combate ao SARS-CoV-2 seria desejável apelar essencialmente aos conhecimentos actuais de Virologia e à galopante criação de conhecimento nessa e noutras áreas científicas e, de igual forma, aos conhecimentos de Saúde Pública (com destaque para a Epidemiologia e as Políticas Públicas de Saúde). Ou, dito de outra forma e se se preferir, sugere-se, porque parece mais sensato, deixar de lado por agora o sobrenatural e os jogos de sorte e de azar. Ou será que estou errado?

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