Mário André Macedo Enfermeiro Especialista em Saúde Infantil e Pediátrica

Saúde Verde

08/07/2021

Todos sabemos que o ambiente produz efeitos consideráveis na saúde. Seja de forma direta, como as variações de mortalidade com os fenómenos meteorológicos extremos ou devido ao impacto da poluição atmosférica, ou através de uma forma indireta, por exemplo, ao alargar as condições favoráveis à vida e reprodução de mosquitos transmissores de doenças, a regiões onde estes não existiam.

Menos debatido e divulgado, é a relação inversa: a forma como a saúde pode influenciar o ambiente. Desde uma reflexão sobre as práticas dos cuidados de saúde, ou a própria forma como os edifícios estão construídos e mantidos, sem esquecer a gestão dos resíduos hospitalares.

O setor da saúde chega tardiamente à problemática ambiental, mas o conceito de saúde verde pretende alterar esta situação. É necessário incorporar as melhores práticas ambientais no setor e encarar este movimento, como um verdadeiro investimento no nosso futuro, não uma despesa fútil.

Uma instituição comprometida com esta mudança, teria a ganhar em várias dimensões. Constituí um fator de diferenciação que promove a retenção de profissionais e melhora o envolvimento com a comunidade demonstrando liderança. É uma fonte de aprendizagem e conhecimento, que atraí a academia. Por fim, talvez os melhores argumentos, poupa dinheiro e promove a saúde e bem-estar.

Os benefícios para a saúde podem ser classificados em três ordens de grandeza. Começando na escala local, na diminuição da poluição atmosférica circundante, ao efetivar as leis antitabaco ou a incentivar medidas que reduzam o tráfego automóvel, estamos a reduzir o número de trabalhadores e utentes expostos a agentes nocivos para a sua saúde.

Na escala regional, temos bastantes medidas que devem ser implementadas. A melhoria dos processos de reciclagem, evitando que papel e cartão tenham como destino o lixo comum, assim como, políticas de tolerância zero para a utilização de plásticos descartáveis não clínicos devem ser prioritários. Evoluir as ligações com a comunidade, com melhores transportes públicos e ciclovias, diminuir o desperdício de água e melhorar o isolamento térmico, ou a ambição de se tornar num edifício carbono neutro, também são objetivos realistas e indispensáveis.

Pensado de uma forma mais global, a adoção de uma política de compras de proximidade a produtores locais, a manutenção do teletrabalho e reuniões online sempre que possível e efetuar as deslocações oficiais de comboio, são medidas que se inserem nesta dimensão. Permitem reduzir a pegada de carbono da instituição, contribuindo para a economia e desenvolvimento local.

O Programa de Recuperação e Resiliência tem um foco na saúde assim como no ambiente. Será de uma enorme importância que não seja esquecido a interseção entre os dois. É necessário sinalizar a vontade de mudança, envolvendo tanto o poder central como o local. Porque não envolver as instituições de saúde nos planos locais de ambiente, ou ter um capítulo sobre ambiente nos planos locais de saúde?

Temos de realmente começar a falar mais sobre este tema. Quantas vezes ouvimos a expressão “a saúde tem de ser sustentável”? É tempo de responder, com convicção e um sorriso: “sim, ambientalmente sustentável!” O objetivo final é muito mais do que apenas evitar os malefícios da emergência climática, mas sim, promover a saúde e o bem-estar da comunidade, com o conhecimento que não estamos a desperdiçar recursos e que reduzimos os riscos da exposição ao mercado energético. Mas mais importante, é saber que estamos a fazer o que está correto, deixar um mundo melhor para os nossos filhos.

0 Comments

Submit a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

ÚLTIMAS

Terapias CAR-T em foco: especialistas nacionais e estrangeiros reúnem-se em março

A III Conferência – Looking Today at Tomorrow’s Immunotherapy realiza-se a 14 de março no Hotel Lumen, reunindo médicos, investigadores e profissionais de saúde à volta das mais recentes abordagens no tratamento de doenças do sangue. O encontro, que conta com a parceria da Associação Portuguesa Contra a Leucemia e da Sociedade Portuguesa de Hematologia, pretende olhar para a expansão da inovação e para o impacto real das terapias de última geração na prática clínica

Comprimido único em investigação da Gilead mostra eficácia em pessoas com VIH-1

A Gilead Sciences apresentou na 33.ª Conferência sobre Retrovírus e Infeções Oportunistas, em Denver, os resultados de dois ensaios de fase 3 que avaliam um regime experimental em comprimido único para o tratamento da infeção por VIH-1. Os estudos ARTISTRY-1 e ARTISTRY-2, ambos selecionados como late-breakers, demonstraram eficácia na manutenção da supressão viral em pessoas que mudaram da terapêutica antirretrovírica prévia para a nova combinação

OMS trava atividades no Dubai e alerta para colapso sanitário no Irão e Líbano

A Organização Mundial da Saúde (OMS) suspendeu as operações do seu centro logístico no Dubai, essencial para o envio de ‘kits’ de emergência, num momento em que a guerra no Médio Oriente já provocou 13 ataques a instalações de saúde no Irão. A decisão, anunciada hoje, reflete a propagação do conflito para além das fronteiras dos beligerantes

Índia financia saúde materno-infantil em Cabo Verde com 749 mil dólares

O Governo cabo-verdiano anunciou esta quinta-feira um apoio financeiro da Índia de 749 mil dólares para a melhoria dos cuidados de saúde a grávidas, recém-nascidos e crianças, num projeto articulado com o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e que prevê o reforço de equipamentos e a formação de profissionais

MAIS LIDAS

Share This
Verified by MonsterInsights