Mário André Macedo
Enfermeiro Especialista em Saúde Infantil e Pediátrica

A saúde na COP26

26/11/2021 | Opinião

A recente Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP 26) não produziu os resultados que todos esperávamos. Ficou aquém do necessário, tendo os combustíveis fósseis sido alvo de uma escrita demasiado simpática e complacente.

Apesar disso, pode ter marcado o início de uma nova era para a relação entre a saúde e o ambiente. Pela primeira vez, esteve presente uma delegação da OMS, o que aumentou a importância do tema, assim como, um pedido para uma maior ação para abordar os impactos na saúde das alterações climáticas.

Foi também pela saúde que tivemos um avanço considerável, mas que passou despercebido. Foram 50 países, que se comprometeram a transformar os seus sistemas de saúde sob um paradigma de resiliência climática e baixas emissões de carbono. Este compromisso para tornar os cuidados de saúde ambientalmente sustentáveis, foi assumido por sete países europeus, Bélgica, Alemanha, Espanha, Irlanda, Reino Unido, Noruega e Irlanda. Infelizmente, Portugal não faz parte deste grupo, o que é de estranhar, visto que o setor da saúde nacional produz mais emissões de gases com de efeitos de estufa que a média da UE.

Foi uma ocasião perdida para liderar pelo exemplo e estar na vanguarda da defesa das gerações futuras. Com perto de 10% do PIB investido em saúde, existe, inegavelmente, uma oportunidade e influência para alterar comportamentos em toda a cadeia de produção e logística do setor.

A saúde está na primeira linha da resposta às alterações climáticas, mas também é um grande contribuinte para estas mesmas alterações. Se o setor da saúde fosse um país, seria o 5º maior emissor de gases produtores de efeito de estufa.

Os efeitos das alterações climáticas já se fazem sentir. Por toda a Europa, além da pandemia de Covid-19, os nossos sistemas de saúde já sofrem os efeitos diretos e indiretos deste problema. Seja pelo avanço de novas doenças no continente como a febre do Nilo Ocidental, a constante ameaça do regresso da malária ou dengue, pelos efeitos mais subtis na saúde mental das pessoas, ou pelo impacto que as mais frequentes e intensas ondas de calor têm.

Construir um sistema de saúde ambientalmente sustentável começa com as pessoas. É preciso dar resposta às necessidades em saúde da população, perceber os problemas do presente, para poder planear um futuro diferente. A transição ambiental na saúde, tem de ser, obrigatoriamente, efetuada em conjunto com os profissionais e com as pessoas. De outra forma, alienamos o indispensável apoio para a mudança.

Precisamos de um compromisso, de reconhecer o impacto das alterações climáticas na saúde e de preparar a resposta que o setor tem de dar. Mas também é indispensável dar o passo inverso, de reconhecer o papel que o setor da saúde tem nas alterações climáticas. São necessárias políticas públicas e recursos para tornar os nossos cuidados de saúde carbono neutros em tempo útil. A ciência é clara, a necessidade é urgente, é tempo de ação!

 

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