27/01/2022 | Opinião

Endemias, epidemias e hiperendemias: a propósito da pandemia de covid-19

Lúcio Meneses de Almeida
Presidente do Conselho Nacional de Ecologia e Promoção da Saúde da Ordem dos Médicos
Médico Assistente Graduado de Saúde Pública

Volvidos quase 2 anos do início da pandemia (epidemia global) de SARS-CoV-2/COVID-19, encontramo-nos na quinta onda pandémica, a mais intensa de todas. É, pois, compreensível que se tente compensar o desgaste a que os sistemas de saúde de todo o Mundo e a população em geral têm sido sujeitos, através de notícias, mais ou menos esfuziantes, sobre o curso desta pandemia.

Desde há algumas semanas, vem sendo episodicamente aventado que o nosso País se encontra em “endemia”. Esta afirmação não seria refutável se a atividade epidémica pelo SARS-CoV-2 não se traduzisse, à data presente, por uma onda – atente-se, em crescimento…
Num país de “treinadores de sofá”, importa precisar o significado de termos e de conceitos epidemiológicos, aclarando-os quanto à sua significância em saúde pública.

Do ponto de vista conceptual, uma “endemia” pressupõe uma incidência constante e baixa. Traduz-se, no respeitante à dinâmica das doenças infeciosas, num número reprodutivo efetivo (R) de 1.

Sempre que o limiar epidémico (incidência crítica) é ultrapassado com significância estatística, falamos em epidemia. Numa epidemia em evolução, o R é superior a 1: cada caso gera mais do que um caso secundário, igualmente infecioso.

Quando o R iguala o 1, o pico da onda epidémica é alcançado – significando, classicamente, que foi atingida a imunidade de grupo. A partir desse momento, o número de casos começa a decrescer e a epidemia deixa de ser autossustentável (R <1).

É, em tudo, semelhante a um incêndio: à medida que vai lavrando, o combustível vai sendo consumido; a partir de um determinado momento, deixa de haver combustível suficiente para o incêndio perdurar e este extingue-se, espontaneamente. O incêndio corresponde à epidemia propriamente dita; o “combustível” aos suscetíveis (i.e., não imunes).

De acordo com o boletim epidemiológico do INSA mais recentemente divulgado (relatório de nowcasting de 21/01/2022), o R nacional corresponde a 1,10. Este valor é compatível com uma onda em crescimento, ainda que inferior, no seu aumento relativo (taxa), ao das semanas anteriores: a estimativa pontual, reportada em 14 de janeiro, foi de 1,19, tendo sido de 1,32 na semana anterior.

Ou seja: o número de novos casos aumentou 32% na semana correspondente ao boletim de 7 de janeiro, 19% na correspondente ao do dia 14 e 10% no de 21 do presente mês. Estes dados indicam que estamos em franca atividade epidémica, ainda que em desaceleração gradual: o número de novos casos continua a crescer, mas a uma velocidade progressivamente menor.

Existe, ainda, outro padrão epidemiológico, intermédio: a “hiperendemia”. Corresponde a fenómenos de saúde com incidências elevadas e constantes, necessariamente abaixo do limiar epidémico.

Quanto à proporção de infetados necessária para controlar uma epidemia, na ausência de uma vacina que previna a doença/infeção, calcula-se a partir do número reprodutivo básico (R0). Este interpreta-se de forma semelhante à do número reprodutivo efetivo (R), ainda que reportado a uma população totalmente suscetível (t=0).

Em Portugal, o R0 para a COVID-19/SARS-CoV-2 foi estimado entre 2,01 e 2,07. Tal significa que, em cada momento, metade da população (50 a 52%) terá que ser imune – seja por infeção natural, seja por vacinação – para que a endemicidade (R=1) seja assegurada. À data presente (relatório de situação da DGS de 26/01/2022), foram cumulativamente infetados cerca de 2,4 milhões de portugueses.

Quanto maior a ilusão, maior o risco de desilusão. Só depois de alcançada a imunidade de grupo é que podemos falar em “endemia”. Até lá, estamos perante uma “afirmação precoce”- plena de vitalidade, mas falha em oportunidade…

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