Andrea Zanetti: “Pandemia trouxe desafios no que respeita à conciliação entre a vida pessoal e profissional”

De acordo com o General Manager da Angelini Pharma Portugal, “a procura por locais de trabalho em que as pessoas conseguem um equilíbrio saudável entre a vida pessoal e profissional” é, atualmente, uma prioridade por parte dos trabalhadores. Andrea Zanetti salienta que o chamado “salário emocional” veio a ser impulsionado pela pandemia. A Angelini Pharma recebeu pela terceira vez consecutiva o reconhecimento de “Top Employer” em Portugal. Para o dirigente da companhia é uma prioridade que “todos os que trabalham connosco se sintam apoiados e valorizados”.

HealthNews (HN)- Portugal recebeu pela terceira vez consecutiva o reconhecimento de “Top Employer” em Portugal. Quais as razões que destacaria para sustentar esta certificação?

Andrea Zanetti (AZ)- Nos últimos anos, apostámos em formas de capacitar os nossos colaboradores para que, em conjunto e com o apoio da companhia, lidassem de uma forma mais harmoniosa e saudável com a nova realidade que decorre da pandemia da covid-19, tendo um especial cuidado com aspetos ligados à sua saúde mental e bem-estar, pilares que estão na génese da Angelini Pharma. Garantir que tenham o suporte e as ferramentas necessárias para um maior equilíbrio profissional e pessoal fez, e continua a fazer, parte das nossas prioridades. Exemplo disso é o “Programa de Apoio ao Colaborador” (Employee Assistance Program), uma linha de apoio disponível 24/7 que disponibiliza a todos os colaboradores e respetivos membros do agregado familiar o acesso a um conjunto de serviços gratuitos que pretendem ajudar a fazer face às mais variadas situações da vida pessoal. As áreas de apoio abrangidas por este programa vão desde apoio psicológico e psicossocial, a aconselhamento jurídico/legal e financeiro/fiscal.

Por outro lado, e mantendo o mesmo foco – as pessoas –, no último ano, e pela primeira vez, a Angelini Pharma promoveu grupos de trabalho Cross-Functional, em que os colaboradores, desde os mais velhos aos mais novos, dos mais antigos aos mais recentes na empresa e das mais diversas áreas de trabalho, participaram com o objetivo de, por um lado, identificar formas de simplificar e flexibilizar processos e, por outro, identificar novas áreas de aposta por parte da companhia e respetivos programas/ações que pudessem ser dinamizados nesse sentido – diversidade, inclusão e sustentabilidade foram algumas dessas novas áreas. Desta forma, a Angelini Pharma ouviu e envolveu as suas pessoas, aproveitando o seu potencial e contribuindo simultaneamente para um maior sentimento de pertença dos seus colaboradores.

Queremos que todos os que trabalham connosco se sintam apoiados e valorizados. Encontrar e aplicar formas efetivas e eficazes de o fazer ditou que, passados três anos da primeira distinção Top Employer, continuássemos a ser um exemplo no que toca às práticas e políticas de recursos humanos e gestão de pessoas.

HN- Qual a importância desta distinção no contexto atual que o país atravessa?

AZ- Acreditamos que este reconhecimento é de extrema importância, sobretudo atualmente, ainda  em contexto de pandemia em que as prioridades se alteraram, os modelos de trabalho foram ajustados e o bem-estar de todos foi constantemente posto à prova. A pandemia trouxe desafios a vários níveis, em particular no que respeita à gestão/conciliação da vida pessoal com a vida profissional.

A procura por locais de trabalho em que as pessoas conseguem um equilíbrio saudável entre a vida pessoal e profissional, se sentem valorizadas e motivadas não é uma realidade recente, mas é certamente mais importante e relevante do que alguma vez foi, tendência que a pandemia veio acentuar ou simplesmente acelerar. Com efeito, já não é só o dinheiro que importa, hoje em dia o chamado “salário emocional” assume uma importância fundamental: as pessoas precisam de sentimento de pertença, sentir que contribuem, que cumprem objetivos e que o seu esforço e empenho são importantes e reconhecidos.

Consideramos por isso importante a existência de distinções como o Top Employer, que avaliam as práticas e políticas de recursos humanos aplicadas no seio das organizações, para incentiva-las a fazer mais e melhor pelas suas pessoas, bem como servir de exemplo para outras companhias.

HN- Quais os desafios que este reconhecimento suscita?

AZ- Uma distinção como esta, que autentica as práticas/políticas aplicadas no que respeita à contínua valorização das pessoas que trabalham connosco, traz consigo um enorme desafio, encarado com uma grande responsabilidade, que se traduz no compromisso de superar o trabalho desenvolvido até aqui. Apesar de este ser mais um ano desafiante, sobretudo pela sua imprevisibilidade, na Angelini Pharma temos uma certeza: as nossas pessoas continuarão a estar no centro de tudo o que fazemos, pois são a nossa força interna. Queremos continuar a cuidar dos nossos para continuar a cuidar de todos e isso é certamente uma oportunidade para fazermos mais melhor.

HN- Entre as diferentes áreas de atuação, a vossa companhia tem um forte domínio na saúde mental. É sabido que a pandemia impactou de forma negativa o bem-estar e a saúde mental das populações. Qual será o vosso papel nos próximos anos?

AZ- O contexto da saúde mental na Europa já era preocupante antes da chegada da Covid-19, com mais de 84 milhões de pessoas com problemas de saúde mental. Com a pandemia, a tendência agravou-se. Vários estudos, ao longo dos últimos dois anos, vieram demonstrar o impacto da pandemia na saúde mental e no bem-estar da população. Foi o caso do estudo português “Saúde Mental em Tempos de Pandemia (SM-COVID19)” cujos resultados, conhecidos há cerca de um ano, revelaram que aproximadamente 25% dos participantes apresentava sintomas moderados a graves de ansiedade, depressão e stress pós-traumático.

Também no ano passado foram apresentadas as conclusões do “Índice de Saúde Mental Headway 2023”, um quadro multidimensional realizado em países da União Europeia e no Reino Unido no âmbito do Headway 2023 (iniciativa de Saúde Mental concebida e lançada pela The European House – Ambrosetti, em parceria com a Angelini Pharma), permitindo apurar que a pandemia afetou desproporcionalmente a saúde mental das mulheres comparativamente à dos homens, tanto no trabalho como em casa. Com este relatório ficou clara a necessidade urgente de os empregadores estabelecerem sistemas apropriados para responder às necessidades de saúde mental.

Sendo a Angelini Pharma uma empresa dedicada a promover o bem-estar e saúde mental das pessoas que escolhem as nossas soluções terapêuticas, consideramos fundamental continuar a cuidar das pessoas que tornam isso possível do ponto de vista de recursos humanos.

De uma perspetiva mais corporativa de investigação e desenvolvimento (I&D), a Angelini Pharma irá continuar a procurar e a investir em novas soluções nas diversas áreas terapêuticas onde atua, entre as quais a brain Health, que está a ganhar uma grande expressão. Os dois últimos anos confirmam isso mesmo – apostámos mais em inovação e I&D, através de parcerias e sinergias estratégicas, como por exemplo o fundo Fundo Angelini Lumira Biosciences, criado para investir em empresas que estejam a desenvolver terapêuticas para doenças raras e distúrbios do sistema nervoso central, e a aquisição da Arvelle Therapeutics, numa clara aposta nos tratamentos de doenças do sistema nervoso central e distúrbios mentais.

HN- Considera que a pandemia veio destacar os problemas existentes nesta área?

AZ- A pandemia veio, com toda a certeza, dar mais destaque à questão da saúde mental. Estados de emergência, confinamentos, distanciamento físico, teletrabalho e regras de vida em sociedade em permanente mudança interferiram dia após dia com o nosso bem-estar físico e, sobretudo, mental, resultando em perturbações como stress, ansiedade e depressão. Nos últimos dois anos, vários estudos apontaram já para um impacto preocupante da pandemia na saúde mental, como é o caso do estudo “Global prevalence and burden of depressive and anxiety disorders in 204 countries and territories in 2020 due to the COVID-19 pandemic”, realizado a nível internacional e publicado em outubro na revista The Lancet, que indicou que os casos de depressão e de transtornos por ansiedade aumentaram em 28% (53 milhões de casos) e 26% (76 milhões), respetivamente, afetanto principalmente as mulheres e os jovens.

Por outro lado, começaram a verificar-se casos de “covid longa” ou “covid persistente”, que descreve a condição clínica de indivíduos com histórico de infeção por SARS-CoV-2, provável ou confirmada, geralmente três meses após o início da mesma, com sintomas que duram pelo menos por dois meses e não podem ser explicados por um diagnóstico alternativo. Estamos a falar de inúmeros sintomas, embora os mais frequentes sejam fadiga, falta de ar e disfunção cognitiva, que acabam por ter um grande impacto na saúde mental.

Assim, acredito que, a longo prazo, estas tendências irão crescer, o que por outras palavras quer dizer que as consequências do período conturbado que vivemos podem vir a revelar-se ainda mais preocupantes.

Entrevista de Vaishaly Camões

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