Prof. Ana Mafalda Reis: “Descoberta da insulina foi um momento de grande relevância na história da Medicina”

Em 12 de dezembro de 1921, Banting e Best reportaram os resultados da descoberta da insulina à Sociedade Americana de Fisiologia e, em 1923, um laboratório farmacêutico alemão iniciou a produção de insulina.

A transformação que a insulina operou na evolução do tratamento da diabetes não surgiu do nada. No simpósio dinamizado pela Sociedade Portuguesa de Diabetologia, intitulado “A vida antes e depois da descoberta da insulina”, Ana Mafalda Reis, professora no Instituto de Ciências Médicas Abel Salazar da Universidade do Porto, reforçou a contextualização histórico-científica e o relevo desta descoberta para a evolução da Medicina e da Humanidade. 

“Foi um momento com grande relevância na história da Medicina. Mostra quanto esta área tem vindo a ter relevo e a ser transversal aos diferentes domínios do conhecimento ao longo da existência da Humanidade”, assinalou. “Inúmeras foram as pessoas envolvidas; condicionou e é a força motriz das novas tecnologias e áreas do conhecimento”.

“Os ciclos da História repetem-se e daí a oportunidade que a História nos dá de aprendermos com o passado, que representa um laboratório vivo de ensinamentos”, afirmou.

A referência à diabetes já estava já presente num papiro de Ebers, há cerca de 1500 anos a.C. Antigos manuais escolares indianos e chineses “foram capazes de distinguir entre diabetes tipo 1 e tipo 2, nomeadamente com o médico indiano Sushruta e o cirurgião Charaka (400-500 d.C.), evocando aquilo que era designado `urina de mel´. 

O termo “diabetes” foi provavelmente introduzido pelo médico grego Demétrio de Apamea ou por Aretaeus da Capadócia (129-199 d.C).  A docente referiu ainda Cláudius Galenus, médico romano que usou os termos “diarreia urinosa” e Avicenna (980-1037 d.C), que descreveu o apetite anormal e a gangrena em pacientes diabéticos, “propondo uma mistura de sementes como tratamento”. 

Já o termo “diabetes mellitus” foi introduzido em 1674 pelo médico britânico Thomas Willis, “que diferenciou esta doença da diabetes insípida, referindo a doçura particular da urina em pacientes diabéticos”. 

Só em 1776, Mathew Dobson, filósofo e fisiologista, descobriu que a urina dos pacientes diabéticos é doce por causa do excesso de açúcar. “Inicialmente pensada como distúrbio renal, a diabetes passou então a ser abordada como a patologia metabólica que é”. 

Na era pré-insulina, “o controlo da diabetes era feito através do tratamento farmacológico, utilizando ópio, ou intervenções dietéticas com base na convicção de que os doentes diabéticos deveriam comer porções extra de alimentos para compensar a sua deficiência endocrinológica e metabólica”. 

Em 1806, “o farmacêutico e higienista francês Apollinaire Bouchardat, considerado o moderno pai da diabetologia, tornou-se famoso por aconselhar uma dieta sem açúcar”. Em 1850, Adolphe Piorry, pelo contrário, “preconizou dietas hipercalóricas, contrariando a perda urinária de calorias”. 

Em 1886, Minkwoski e von Mering ”descreveram o papel endócrino do pâncreas e produziram diabetes por pancreotomia total num cão”. Como fez notar a Prof. Ana Mafalda Reis, “isto aconteceu 35 anos antes de Banting e Best isolarem a insulina e cerca de 70 anos antes de Sanger demonstrar a sua sequência de aminoácidos”. 

De acordo com a docente, deve-se em grande parte à identificação, em 1920, das lesões nas Ilhotas de Langerhans, o conhecimento da fisiopatologia e tratamento da diabetes e as experiências dos fisiologistas canadienses Frederick Banting e Charles Best, que entre 1922 e 1924 conduziram ao isolamento da insulina, tendo Banting recebido depois o Prémio Nobel. 

“Numa revisão sobre os passos e eventos que aconteceram na história da descoberta da insulina é, de facto, impossível mencioná-los todos, mas desde essa altura inúmeros foram os desenvolvimentos realizados. A investigação científica, mantida no tempo, tem vindo a permitir uma melhor qualidade de vida aos pacientes, para os quais estava vaticinada uma vida muito curta”. 

A  especialista fez ainda uma especial referência às ilhotas de Langerhans, o fisiologista e biólogo alemão que, em 1869, anunciou que o pâncreas tem dois sistemas de células. “Foi, no entanto, apenas em 1884 que Louis Vaillard e Charles Arnozan descobriram que a oclusão do canal pancreático causava atrofia pancreática sem hiperglicemia. Isso foi explorado em 1889 por Joseph von Mering e Oskar Minkowski, que conduziram experiências sobre pancreatectomia total no cão”. 

Minkowski tentou curar a diabetes “injetando extratos de pó pancreático”, acrescentou Ana Mafalda Reis, apontando ainda o contributo do endocrinologista e patologista italiano Giulio Vassale “que descreveu que a ligação do canal de Wirsung resultou na atrofia do pâncreas, poupando as ilhotas de Langerhans e, como tal, não causando glicosuria. Concluiu, assim, que as ilhotas tinham uma função específica e diferente do resto do pâncreas, permitindo a evolução da investigação neste campo”. 

A era da insulina “chegou através da descoberta de Banting que no seu laboratório, com a colaboração de Charles Best, conseguiu isolar a hormona segregada pelas ilhotas pancreáticas e, mais tarde, a aplicação experimental em humanos. Leonard Thompson, com 14 anos, foi o primeiro doente a ser tratado”. 

Em 12 de dezembro de 1921, Banting e Best reportaram os resultados da descoberta da insulina à Sociedade Americana de Fisiologia e, em 1923, um laboratório farmacêutico alemão iniciou a produção de insulina. 

Na era pós-insulina “as investigações continuam, como era o sonho de Banting: transplantar o pâncreas em humanos”. Já houve várias tentativas, recordou a docente,  acrescentando que “o pâncreas artificial é outra abordagem promissora para além da insulina”. 

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