Covid-19: “O futuro é ainda uma grande incógnita”

A linhagem BA.2 da variante Ómicron veio desestabilizar novamente o combate à Covid-19. Em Portugal, continuamos a lutar contra uma pandemia e “o futuro é ainda uma grande incógnita”, disse a diretora-geral da Saúde.

Um estudo com ratinhos realizado no Japão concluiu que a taxa de crescimento da linhagem BA.2 da variante Ómicron é cerca de 40% superior à da BA1. Comparativamente à BA.1, a BA.2 mostrou também melhor replicação nas células do epitélio nasal e maior patogenicidade. Por último, nesta investigação, a nova linhagem da variante Ómicron – que já é dominante em Portugal – apresentou resistência à imunidade induzida pela BA.1. Portanto, os investigadores perceberam que a BA.2 é virologicamente diferente da BA.1.

Estes dados foram apresentados pelo investigador João Paulo Gomes, do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA), no primeiro dia das 13.ªs Jornadas de Atualização em Doenças Infeciosas do Hospital Curry Cabral, a 24 de fevereiro.

Segundo João Paulo Gomes, as duas linhagens da Ómicron (BA.1 e BA.2) “são mais diferentes do que semelhantes”; por isso, é “muito difícil” saber o impacto em termos de severidade e eficácia vacinal. Este último ponto pode levantar problemas à vacina que está a ser desenvolvida para a Ómicron, na medida em que, se a BA.2 é “substancialmente diferente”, “poderá ser arriscado” administrar “uma vacina monovalente que nós sabemos que foi criada com a BA.1”, referiu o especialista, que admitiu que a BA.2 pode ser preocupante. 

Uma das preocupações da comunidade científica é a decisão da OMS de apelidar a BA.2 de Ómicron. De acordo com o investigador do INSA, “a comunidade científica não concorda com esta classificação”. Os investigadores do estudo japonês anteriormente mencionado, por exemplo, propuseram à OMS a atribuição de outra letra grega à BA.2 e a sua classificação como variante de preocupação.

“As variantes surgem naturalmente pelo processo de interação do vírus com as nossas células”, explicou João Paulo Gomes. “Por um lado, [o vírus] tem de conseguir entrar melhor nas nossas células para conseguir infetar e, por outro lado, tem que lidar com os anticorpos que nós geramos durante o processo de infeção”, acrescentou.

Questionado sobre as diferenças na gravidade das variantes, o especialista disse que os estudos indicam que algumas “têm muito mais apetência para infeção e multiplicação nas células do trato respiratório superior, enquanto outras conseguem ir para o pulmão baixo”. Depois de alcançarem o pulmão baixo, “a probabilidade de originarem a patogenicidade é, então, muito superior”. A Ómicron, por exemplo, “tem uma capacidade de multiplicação muito superior a qualquer outra variante no trato respiratório superior”, porém menos capacidade para infetar o trato respiratório inferior do que a Delta.

Durante a sua intervenção, o perito do INSA mencionou outro estudo, focado nos imunodeprimidos em Portugal e com o objetivo de compreender a evolução prolongada da doença nesta população, no qual se observou um “um processo de evolução acelerada” e “muito mais mutações do que seria expectável”. Este trabalho reforça a importância de estudar os imunocomprometidos – um grupo onde “não há uma barreira para o desenvolvimento de mutações”.

Endemia não significaria doença menos grave

Depois da apresentação de João Paulo Gomes sobre “Variantes víricas e distribuição global”, Pedro Pinto Leite – especialista em saúde pública da Direção-Geral da Saúde – falou de “Imunização, reinfeção e impacto na saúde pública”.

Segundo o especialista da DGS, chegámos a uma fase em que “estaremos com maior foco na gravidade da doença”, ou seja, no risco de internamento e de morte e no impacto nos serviços de saúde, sabendo que “devemos olhar cada vez mais para a mortalidade geral”. Além disso, “confirma-se a menor gravidade e impacto devido à vacinação”, embora ainda não saibamos quanto tempo poderá durar essa proteção.

Pedro Pinto Leite quis também reforçar a importância de monitorizar a imunidade conseguida após vacinação ou infeção. Se essa proteção diminuir, por exemplo devido ao surgimento de uma nova variante, a Covid-19 terá de ser combatida com medidas não farmacológicas como a redução do número de contactos.

Foi igualmente sublinhada a “importância de manter a vigilância em saúde pública” e de “fortalecer a vigilância passiva através da integração de diferentes serviços”. Para Pedro Pinto Leite, devemos aprender com o sistema de tracing que surgiu com a pandemia, que pode ser útil para outras doenças. “Gostaríamos também de testar este sistema de tracing para a tuberculose”, exemplificou. Por último, o especialista realçou a pertinência da “vigilância em contextos de populações vulneráveis ou de maior risco”.

Durante a mesa-redonda sobre “COVID-19 – o futuro da pandemia”, moderada por Graça Freitas e Francisco Antunes, houve ainda tempo para esclarecer a audiência sobre a questão da pandemia vs. endemia.

Pedro Pinto Leite clarificou que entrar num momento endémico implica “calcular o nível de base de transmissão desta doença”, e isso ainda não aconteceu. Ainda assim, mesmo que se entrasse num momento endémico, “não significaria que [a Covid-19] se tornaria numa doença menos grave”. O especialista calcula que esta “será uma doença com vários momentos epidémicos, à semelhança de outros vírus respiratórios”.

A diretora-geral da Saúde confessou também que “não sabemos a linha basal”, pelo que “o futuro é ainda uma grande incógnita”.

“Há aqui uma grande instabilidade, e isso deve-nos fazer olhar para o futuro com humildade e com uma grande capacidade de adaptação e flexibilidade e de resiliência”, disse Graça Freitas.

HN/Rita Antunes

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