Tuberculose tem de aprender com a Covid-19 e o VIH

O impacto da Covid-19 na tuberculose ainda é desconhecido, mas sabe-se que a mortalidade aumentou e que a experiência pandémica trouxe aprendizagens importantes, tal como o combate ao VIH.

O ECDC diz que “a comunidade europeia não está em linha com o fim global da epidemia da tuberculose em 2030”, proposto em 2015 pela Organização Mundial da Saúde, referiu António Domingos, pneumologista no Centro Hospitalar do Oeste, que participou no passado dia 25 de fevereiro nas 13.ªs Jornadas de Atualização em Doenças Infeciosas do Hospital Curry Cabral.

António Domingos integrou a mesa-redonda sobre tuberculose – moderada por João Cardoso e Ana Maria Correia – abordando “Os objetivos para o desenvolvimento sustentável”. Apresentou os dados da Europa e apontou entraves ao cumprimento desses objetivos.

A pobreza foi o primeiro problema sinalizado, e aqui o pneumologista aproveitou para recordar a realidade portuguesa, já que “a taxa de risco de pobreza é muito grande” em Portugal. “Os conflitos armados, as alterações climáticas e a pobreza é um conjunto terrível”, acrescentou o médico, que mencionou ainda a Covid-19.

Para António Domingos, a experiência pandémica trouxe aprendizagens importantes para a tuberculose, mas é preciso olhar igualmente para o VIH. “Temos as lições da Covid-19, mas temos [também] as lições do VIH, principalmente no tratamento”, sublinhou. Entre as lições da Covid-19, o pneumologista realçou a proteção conferida pela máscara e a importância da qualidade do ar interior.

Coube a Raquel Duarte, do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar da Universidade do Porto, explorar o impacto da Covid-19 na tuberculose, que “poderá inclusivamente ser considerado catastrófico”, alertou a especialista.

Raquel Duarte teme que a redução que se verificou na maior parte dos países se deva a um atraso da notificação, ou seja, ao número de casos por diagnosticar, até porque a mortalidade aumentou. Contudo, a máscara poderá ter quebrado cadeias de transmissão. De acordo com a especialista, “aquilo que se prevê, num futuro próximo, é que haja um aumento da transmissão da tuberculose, fruto dos tais doentes que têm tuberculose e que ainda não foram sequer diagnosticados” e “um aumento também da mortalidade”.

Ambos os especialistas consideram que há um longo caminho a percorrer, e Raquel Duarte defende igualmente que “temos que replicar aquilo que aprendemos com a Covid na tuberculose”. Segundo a especialista, as medidas necessárias a curto prazo são: restabelecer os serviços essenciais de saúde; garantir que todo o mundo tem acesso à vacina contra a Covid-19; perceber o verdadeiro impacto da Covid-19 na tuberculose e aprender com a pandemia.

Esta aprendizagem prende-se com: a revolução em termos de sistemas de dados digitais; a acessibilidade aos dados; aplicativos para melhorar a triagem, a educação do doente e o rastreio de contatos; os progressos na identificação de novos casos e dos pontos de maior risco; o envolvimento de toda a população; a investigação de novos testes; os serviços feitos remotamente; o uso da tecnologia para promover a adesão ao tratamento; os medicamentos ao domicílio; a utilização de máscara e a ventilação dos espaços; garantir que os profissionais de saúde têm EPI adequado e o usam adequadamente; a vacina, para “não estarmos mais 100 anos à espera” na tuberculose; fármacos e um esquema de tratamento mais curto e eficaz. 

A especialista frisou ainda que as condições de vida interferem no risco de exposição e na forma de lidar com a doença, que é preciso que todo o país tenha acesso a testes moleculares e que a luta contra o estigma tem de continuar.

HN/Rita Antunes

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