16/03/2022 | Fact check

Não é verdade que “todas” as grávidas que tomaram a vacina da Pfizer perderam os bebés

O artigo que está a ser partilhado apresenta logo a premissa no título: “Testes da Pfizer: todas as mães injetadas perderam seus bebés ainda não nascidos”. No texto é afirmado que os dados estão num documento enviado pela farmacêutica Pfizer à reguladora norte-americana FDA no âmbito do pedido de aprovação de emergência. Esta afirmação tem vindo a ser difundida nas redes […]

artigo que está a ser partilhado apresenta logo a premissa no título: “Testes da Pfizer: todas as mães injetadas perderam seus bebés ainda não nascidos”. No texto é afirmado que os dados estão num documento enviado pela farmacêutica Pfizer à reguladora norte-americana FDA no âmbito do pedido de aprovação de emergência. Esta afirmação tem vindo a ser difundida nas redes sociais – tanto em português como em inglês. Será verdadeira?

relatório “Análise Cumulativa de Relatos de Efeitos Secundários Pós-autorização” é real, mas as conclusões apresentadas não são. Em primeiro lugar, este documento não diz respeito aos ensaios clínicos desenvolvidos pela Pfizer durante a produção da vacina, mas sim aos efeitos secundários que ocorreram já após a aprovação de emergência em vários países – incluindo em Portugal; em segundo, em momento algum são fornecidos dados que provem que todas as grávidas que tomaram a vacina perderam os bebés. Vamos explicar:

Neste relatório, a farmacêutica Pfizer analisou um total de 42.086 casos de efeitos secundários denunciados na sequência da administração das vacinas no período entre 1 de dezembro de 2020 e 28 de fevereiro de 2021, em 63 países – a maioria reportados nos Estados Unidos e no Reino Unido, mas que inclui também 866 casos em Portugal. As informações foram recolhidas através de plataformas de vigilância (como a norte-americana VAERS, a britânica Yellow Card ou o português Portal RAM) e reportes de “casos publicados na literatura médica, casos de programas de marketing apoiados pela Pfizer, estudos não-intervencionais e casos de efeitos secundários graves reportados nos ensaios clínicos independentemente da avaliação de causalidade”.

Desses, 413 casos foram relatados por mulheres que estavam grávidas (270 mulheres e quatro fetos) ou em período de amamentação (133 mulheres), sendo 84 considerados “graves” e 329 “não-graves”. Das 270 gravidas, 23 sofreram um “aborto espontâneo”, cinco casos estavam (à altura) com “resultado pendente”, duas tivera um “parto prematuro com morte do feto”, outras duas sofreram um “aborto espontâneo com morte do feto intrauterina”, uma sofreu um aborto espontâneo com morte neonatal” e uma teve um “desfecho normal”. Nos restantes 238 casos não foi registada informação sobre o desenvolvimento dos sintomas. Os dados estão discriminados na tabela 6 do relatório.

Na origem desta informação falsa está o facto de os autores destas publicações considerarem apenas os casos de grávidas que são reportados no relatório e em que se conhece o desfecho – um total de 29 casos – para afirmar que em apenas um caso a gestação chegou ao fim sem problemas. Nos artigos publicados, afirma-se que “100% dos bebés não nascidos morreram nas mulheres injetadas para as quais os resultados são apresentados”, não sendo contabilizados os cinco “resultados pendentes”.

No entanto, estes cálculos são incorretos e estão enviesados. Em primeiro lugar porque não é conhecido o número total de mulheres grávidas que, à data, tinham sido vacinadas contra a Covid-19. Sem essa informação, não é possível calcular a percentagem correta de gestações interrompidas na sequência da administração da vacina. Além disso, os dados disponibilizados no relatório referem ainda que 238 mulheres receberam a vacina e, apesar de não ter sido providenciado o desfecho da gravidez, isso não significa que tenha ocorrido um aborto, o óbito do feto ou qualquer outra complicação. É ainda importante lembrar que o facto de terem sido reportados efeitos depois da administração da vacina, isso não significa que exista uma ligação de causalidade entre o fármaco e os referidos sintomas ou desfechos.

Contactado pelo ViralNuno Clode, presidente da Sociedade Portuguesa de Obstetrícia e Medicina Materno-Fetal, diz não haver evidência científica que ligue a administração das vacinas contra a Covid-19 a abortos espontâneos, destacando que a vacina é segura. Afirma ainda que as inoculações estão a ser feitas durante o segundo semestre de gravidez, uma vez que as primeiras semanas de gestação são as mais críticas no processo de formação do feto.

A Direção-Geral da Saúde garante que “as grávidas podem iniciar o processo de vacinação contra a Covid-19 em qualquer altura da gravidez”. Na norma 002/2021 de 30/01/2021 – atualizada a 17/02/2022 – as autoridades de saúde portuguesa avançam que “não existe idade materna ou gestacional limite para o início da vacinação”.

Em comunicado, citado na página do Serviço Nacional de Saúde, a DGS apelou às mulheres grávidas para que tomassem a dose de reforço da vacina devido ao “risco acrescido de complicações relacionadas com a Covid-19 neste grupo”.

Concluindo: é falso que 100% das mulheres grávidas que tomaram a vacina contra a Covid-19 sofreram um aborto espontâneo ou perderam o bebé. Os dados utilizados nesta publicação são reais, mas dizem respeito ao universo de grávidas que reportaram efeitos secundários na sequência da vacinação entre dezembro de 2022 e fevereiro de 2021 e não ao total de grávidas inoculadas. Além disso, os cálculos foram feitos de forma enviesada para sustentar a afirmação. Esta afirmação foi também verificada por vários fact-checkers internacionais, como a Reuters e a Agência Lupa.

Texto publicado ao abrigo da parceria entre a plataforma de FAct Checking Viral-Check e o Heathnews.pt

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