Fernando Chaves: “Não vale a pena criar pânico nos pais” sobre a hepatite aguda

Ao contrário do que está a ser dito por alguns especialistas, o médico pediatra do Hospital Lusíadas Lisboa diz que ainda “não se pode falar em surto”. Para Fernando Chaves, “mais importante do que o número de casos” de crianças com hepatite aguda de etiologia desconhecida, “o que temos de ter em conta é a gravidade”. O especialista critica o alarmismo e o “pânico” que está a ser criado e frisa que “qualquer clínico que receba uma criança com quadro de disfunção hepática vai estar muito atento”.

HealthNews (HN)- Nos últimos dias temos ouvido alertas de casos de hepatite aguda de origem desconhecido em crianças em alguns países europeus. Devemos ficar preocupados?

Fernando Chaves (FC)- No norte da Europa tem havido uma maior incidência de hepatite aguda de etologia a esclarecer, mas não se pode falar em surto. Os especialistas levantaram recentemente a hipótese de que estes casos estejam ligados a uma estirpe do adenovírus – que é um vírus que temos normalmente a circular durante o inverno na comunidade.

Mais do que o número de casos, que não parece ser ainda muito elevado, o que temos de ter em conta é a gravidade e, aí, já parece ter algum impacto.

HN- Quais os sinais para os quais os pais devem atentos?

FC- Acho errado a forma como está a ser encarada esta questão nas notícias… Já tenho sido questionado por pais que estão preocupados. É importante frisar que a hepatite pode gerar febre, cansaço, falta de apetite… Portanto, os principais sinais são muito inespecíficos. Nos casos mais graves, as hepatites podem provocar alterações da coloração das fezes e da urina.

Não vale a pena estar a criar pânico nos pais e dizer que a hepatite da febre e cansaço, se não vamos ter os consultórios cheios. O importante é tentar descobrir o agente que provoca esta hepatite aguda (se é de origem infecioso ou tóxico).

HN- Qual o impacto que este tipo de hepatite aguda pode ter na saúde das crianças?

FC- Uma criança que precise de transplante hepático terá forte impacto no seu crescimento. No entanto, as hepatites mais comuns não provocam danos a médio e longo prazo na saúde da criança.

HN- Considera que a máscara, os confinamentos e as medidas anticovid podem explicar o aparecimento desta hepatite de etologia desconhecida?

FC- A Covid-19 não permitiu a circulação de outros vírus. Não é por acaso que nos últimos dois anos não tivemos muitos casos de gripe, como também não é por acaso que a partir de junho do ano passado surgiram, de uma forma completamente atípica, surtos respiratórios no verão. Durante muito tempo estivemos confinados, as máscaras permitiram a diminuição da transmissão de partículas dos vírus respiratórios… A partir do momento em que a Covid-19 começa a regredir, os outros vírus passam a ter espaço.

HN- Que cuidados devem ser tidos para prevenir o contágio?

FC- São os cuidados habituais – a higienização constante das mãos, manter o distanciamento e a etiqueta respiratória quando há sintomas.

HN- Em Portugal ainda não foi registado qualquer caso. Qual o protocolo que deve ser implementado caso surjam crianças com sintomas sugestivos de hepatite aguda?

FC- Os pediatras estão sempre atentos à saúde das crianças… Uma criança com dois ou três dias de febre e sem uma etologia é submetida a exames complementares. Não vale a pena estar a preocupar os pais porque qualquer clínico que receba uma criança com quadro de disfunção hepática vai estar muito atento.

De momento não é preciso estabelecer nenhum protoloco. Temos hospitais que já estão habituados a receber crianças com quadros de hepatite mais grave e que implementam o tratamento devido.

HN- Para evitar o aumento da pressão dos serviços hospitalares, os pais devem dirigir-se em primeiro lugar aos centros de saúde?

FC- Os serviços de urgência hospitalar são para situações permanente e não para consultas permanentes que é o que está a acontecer. Neste caso específico, os pais devem levar as crianças ao pediatra que os segue.

Por enquanto não há motivo para que esteja a ser criado pânico e alarmar os pais para sinais que são inespecíficos.

Entrevista de Vaishaly Camões

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