02/05/2022 | Opinião, Wellbeing Awards

Intervenção dos gestores na promoção de saúde e bem-estar dos colaboradores nas organizações de saúde

Leandro Luís
Associação para a Gestão e Inovação em Saúde, Administrador Hospitalar no Centro Hospitalar Universitário Lisboa Central, EPE

O setor da saúde baseia-se em modelos de organização predominantemente hierárquicos, estruturados e rígidos, o que permite uma adequada resposta aos desafios do quotidiano dos profissionais da saúde, mas limita a adaptação às mudanças. As práticas de trabalho adotadas sustentam-se naquilo que a evidência científica estabelece como o estado da arte e são revistas de acordo com consensos dos profissionais. Este é um modelo importante, pelas regras que define, mas relativamente a outros setores de atividade, limita a inovação e a introdução de práticas disruptivas. É curioso perceber que o setor da saúde é dos setores com mais investimento em inovação, mas cuja organização das estruturas prestadoras de saúde ainda não incorpora de forma ágil, sistemática e adaptativa as novas realidades com que se depara.

De certa forma, nos últimos anos tem-se assistido à introdução mais rápida de inovações tecnológicas e terapêuticas. De facto, hoje é possível ter acesso no SNS a intervenções através de cirurgia robótica ou ter informação em tempo real acerca do estado dos doentes e do seu risco de degradação clínica nos hospitais, permitindo salvar mais vidas.

Estas inovações são alguns dos elementos que podem contribuir para a captação e retenção de talento em serviços de saúde cujos  incentivos financeiros à produção e à melhoria da qualidade são limitados. Observando as pessoas da saúde, ainda no decurso e sequência da pandemia a COVID-19, parece ser essencial a existência de estratégias para cuidar de quem cuida, para que se sintam bem onde trabalham e sintam ter um propósito no seu dia-a-dia.

Um estudo desenvolvido pela International Hospital Federation, no âmbito do programa Young Executive Leaders (Jahwari, F. et al., 2021) evidencia as diferenças e similaridades entre países na gestão de pessoas na situação imprevista e caótica da pandemia, frisando as dificuldades sentidas pelos profissionais da saúde no que respeita ao stress, à incerteza, ao aumento do volume de trabalho, às alterações dos ambientes de trabalho e à falta de preparação. Acresce que estes elementos levaram a um aumento das doenças mentais e da manifestação de doenças crónicas nos profissionais.

Não existem receitas para cuidar bem dos nossos profissionais, mas existem estratégias que os permitem sentir um maior envolvimento e respeito pela sua pessoa. Uma estratégia centrada na qualidade e bem-estar das pessoas que cuidam de pessoas é o primeiro passo para que estas pessoas queiram pertencer a esta organização e não apenas passar por esta.

A criação de uma cultura de qualidade e bem-estar deverá estar sustentada em três pilares principais (Deloitte, 2022):

  1. Desenho do Trabalho – Integrando nas práticas de trabalho o bem-estar dos profissionais através de horários mais flexíveis e adaptados, com os profissionais adequados e com processos colaborativos apoiados em tecnologia;
  2. Na Força de Trabalho – Providenciando uma boa relação de benefícios e programas de suporte e apoio ao bem-estar das equipas, através de apoios na área da saúde e atividade física, de treino de liderança, estratégias de inclusão ou de treino de competências como o trabalho em equipa, bem como serviços de bem-estar como parcerias com unidades hoteleiras, de atividades turísticas e de lazer para melhorar a relação work-life balance;
  3. Nos Ambientes de Trabalho – Providenciar acesso a espaços de trabalho e adaptação às características de vida dos profissionais no ambiente de trabalho, como é o exemplo das características do ar ambiente, da ergonomia dos espaços, conforto das instalações ou a possibilidade de realização de tele-trabalho.

Existem várias atividades que podem contribuir para organizações e profissionais mais resilientes. Os gestores têm um papel fundamental para dar condições e cuidar das pessoas da saúde. É por isto importante conhecer as melhores práticas de bem-estar laboral e valorizá-las para que todos possamos beneficiar e fazer beneficiar das mesmas as nossas pessoas.

Na sequência dos Wellbeing Awards 2022, iniciativa desenvolvida pela Associação para a Gestão e Inovação em Saúde (AGIS) e pela Workwell, com o apoio oficial da Aon Portugal, no dia 3 de maio às 15 horas, vai ocorrer um webinar gratuito com a temática “Wellbeing Awards: Case study – Accenture Brasil”.  Um espaço de partilha que visa enaltecer a importância das práticas de promoção de saúde e bem-estar nas organizações, neste caso, com a participação de um dos premiados no prémio nacional de qualidade de vida, promovido pela ABQV – Associação Brasileira de Qualidade de Vida.

 

.Referências:

Jahwari, F., et al. (2021) “The employer-employee role in relation to support measures for frontline healthcare workers´ wellbeing during the COVID-19 pandemic. A multi-country comparative literature review”. International Hospital Federation. Disponível em: https://www.ihf-fih.org/2021/11/25/yel-report-on-hospital-workers-wellbeing/

Deloitte (2022). “Well-being: A new cornerstone for ESG strategy and reporting”. Deloitte. Disponível em: https://resources.wellcertified.com/tools/well-being-a-new-cornerstone-for-esg-strategy-and-reporting/

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