13/05/2022 | Consultório

Cheirar Sem Sentir

Rafaela Miranda
Interna de Medicina Geral e Familiar

A anosmia é a perda completa do olfato. A hiposmia é a perda parcial do olfato. Uma parosmia é uma distorção do olfato que resulta na perceção de determinados odores de um modo diferente do seu cheiro habitual, e muitas vezes desagradável. Estima-se que as perturbações olfativas afetem mais de um milhão de portugueses.

O olfato é responsável por cerca de 75 – 95% do gosto. Gosto é diferente de paladar. O paladar é um dos cinco sentidos, tal como o olfato, e deriva de recetores existentes nas papilas gustativas, presentes na língua, e que permitem distinguir o que é salgado, doce, amargo, azedo e umami. O gosto, inteiramente relacionado com o olfato, permite saborear os alimentos, distinguir sabores, distinguir especiarias, diferenciar um bolo de laranja de um de cenoura, por exemplo. O gosto evoluiu como uma funcionalidade que nos permite avaliar o valor nutritivo e a potencial toxicidade do que colocamos na boca. O olfato fornece informações detalhadas sobre a qualidade do sabor dos alimentos. O cérebro, por sua vez, combina informações de paladar, olfato e outros sentidos para projetar a sensação multimodal de sabor.

O olfato e o paladar são dois sentidos inseparáveis, eu diria. Apenas uma pequena parte da nossa experiência alimentar provém das papilas gustativas. Em rigor, o resto resulta de uma espécie de olfato invertido.  Se tapar o nariz e mastigar uma goma transparente de aspeto anónimo, a sua língua registará imediatamente que ela é doce. Essa doçura provém do açúcar e é o sabor primário da goma. Se soltar o nariz, terá perceção imediata do sabor: baunilha, por exemplo. Do mesmo modo, se tapar o nariz e colocar uma gota de baunilha na língua, não lhe saberá a nada porque a baunilha não tem gosto, apenas um sabor que não pode detetar com o nariz tapado. Quando mastigamos, engolimos e expiramos, moléculas voláteis dos alimentos são forçadas a subir por trás do nosso palato, entrando nas fossas nasais pelas “traseiras”, como o fumo que sobe por uma chaminé. Nas fossas nasais, ligam-se a recetores do odor e esses recetores, dos quais os seres humanos possuem entre 350 e 400 tipos, são a principal fonte daquilo que identificamos como sabores. O cérebro distingue entre os odores que cheiramos pelas narinas (olfato ortonasal) e os odores que chegam às fossas nasais vindos de trás enquanto comemos (olfato retronasal) embora detetados pelos mesmos recetores.

O cérebro percebe se estamos a cheirar ou a mastigar e engolir e não processa os sinais da mesma maneira. A informação sobre os odores fornecida pelo olfato retronasal comunica com uma região diferente do cérebro, que também recebe informação da língua. O cérebro combina olfato retronasal e paladar, criando os sabores, embora as regras dessa integração não sejam bem conhecidas.

Eu sou Médica e, desta vez, também a paciente. Perdi o olfato para uma rinossinusite crónica. A anosmia permite-me o paladar, mas roubou-me o gosto. Conhecem o clichê: “só valorizamos quando perdemos”? Não poderia ser mais verdade.

A pandemia do Coronavírus veio trazer as luzes da ribalta ao sentido do olfato, no entanto, já havia sido provado anteriormente que a família dos Coronavírus representa cerca de 10-15% do total de casos de anosmia de causa pós-viral e, como tal, não é surpresa que a nova estirpe também seja responsável por causar anosmia/hiposmia em pacientes infetados.

As principais causas de alterações olfativas incluem as doenças nasossinusais (rinossinusite crónica, rinite alérgica, pólipos nasais, etc), as infeções víricas, os traumatismos cranioencefálicos, doenças neurodegenerativas (doença de Alzheimer; doença de Parkinson), e, ainda, causas congénitas ou idiopáticas. A alteração olfativa, por si só, é um sintoma e não uma doença, implicando, portanto, a investigação da causa subjacente, que passa, sempre, pela avaliação por otorrinolaringologia.

Em Portugal, suspeito que os casos de alterações olfativas, estejam subdiagnosticados, porque, não é uma situação incapacitante e não obriga necessariamente à procura de cuidados médicos, se a pessoa assim não o desejar.

Não é uma condição incapacitante mas é uma situação que afeta, de um modo real e dramático, a qualidade de vida, desde a óbvia influência na dieta e apetite, com consequente perda de peso, ou, pelo contrário, aumento de peso (pela permanente busca insatisfatória de prazer com a comida) passando pela dificuldade na perceção de risco (intoxicações alimentares, odores a fumo, gás, etc), preocupação e ansiedade permanente com impacto na vida social e interligações humanas, e a clara carga emocional associada (ansiedade, raiva, frustração, luto, depressão, isolamento).

É necessário criar espaço para investigação nesta área, para educação e consciência para o problema, quer para os pacientes e suas famílias, quer para os clínicos (que muitas vezes menosprezam o problema) e para grupos de apoio e de suporte para as pessoas que sofrem desta condição.

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