13/05/2022 | Opinião

DA FOME À SACIEDADE, QUE DISTÂNCIA!

Rui Cernadas

O Mundo como a Vida é composto por flagrantes desigualdades, brutais injustiças, tremendas diferenças, todo o tipo de sortes e de azares…

Dizia o Poeta que também de Mudança.

Mas a Mudança, só na Poesia.

Os anos passam, décadas e séculos, mas há muitas coisas que não mudam.

A Fome é uma delas.

Já vai longe o ano de 1945, ano em que a Organização das Nações Unidas, terminado o horror da Segunda Grande Guerra Mundial, determinou o dia 16 de Outubro como o Dia Mundial da Alimentação e fundou a FAO – Organização para a Alimentação e Agricultura.

Os povos iniciaram um percurso duro, doloroso e difícil na reconstrução de tudo quanto a Guerra destruíra. E vivíamos e sofríamos com os horrores da Hiroshima e Nagasaki, com perto de cem mil mortos só no dia das explosões!

Mais de 75 anos volvidos, o Mundo sabe que mais de 900 milhões de pessoas sofrem de fome e de desnutrição continuada.

Mas para esta praga pandémica não surge vacina nem um interesse global da chamada Humanidade. Ao invés, vimos a destruição gratuita da Ucrânia, celeiro da Europa e não só, as ameaças de uso de armas nucleares e sei lá que mais!

Mesmo assim os custos económicos da Fome estão estimados acima dos 5% da produção mundial global, considerando a perda de produtividade, os custos directos em cuidados de saúde e as ajudas logísticas de terceiros países.

Porém as mudanças climáticas aceleradas e assustadoras acentuam o risco de pobreza e de falta de alimentos. Por isso a discussão e a procura de modelos sustentáveis de conservação do ambiente e dos recursos hídricos em particular, o combate à desertificação, a propagação de epidemias por vectores animais, a defesa da biodiversidade e os chamados ecossistemas são assuntos de extrema importância e dimensão planetária.

Não em termos políticos porque esse discurso é oco, vazio e incoerente.

Mas nos planos social, científico, tecnológico, ético e humano!

A tragédia maior é, contudo, a do conhecimento e consciência de que há produção alimentar para todos os habitantes do planeta Terra.

Tanto assim é que mais de 30% dessa capacidade e resultados produtivos são desperdiçados ou eliminados!

Esta é afinal o grande drama da Fome!

Recordemos também o outro lado desta questão.

Clínica e socialmente quase metade dos habitantes à escala mundial sofre de hiperalimentação e obesidade, sobretudo de patologias ligadas aos excessos alimentares e de calorias ingeridas, ao sedentarismo e às alterações comportamentais que conhecemos.

O impacto deste cenário na despesa em saúde é considerável e continua em crescimento, sendo em boa medida uma forte contribuinte líquido na mortalidade global.

O Mundo e a Vida precisam de visão estratégica.

Há uns anos o Papa Francisco recordava que a Fome no Mundo era um escândalo.

Ninguém o pareceu escutar. Diz o nosso Povo que a “orelhas moucas”…

Mas a estratégia para um sistema alimentar seguro e sustentado no tempo e no espaço, não poderá ignorar a extrema complexidade ligada quer à produção, quer às cadeias de distribuição dos alimentos. A começar pelos agricultores e por quem lhes deve dar orientação técnica adequada, pelos criadores de gado ou produtos piscícolas e pelos pescadores, pelos industriais da conservação, manufacturação ou transformação, pelo transporte e comércio, a e não deixar de fora os sistemas sanitários e os consumidores.

Espero para ver como se resolve a Fome certamente numa das minhas próximas vidas…

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