A saúde foi ao bairro (da Jamaica) e os moradores disseram “presente”

Oleutisa Ferreira mora no bairro da Jamaica, no Seixal, desde 2016 e é uma das mulheres que o projeto Saúde no Bairro “conquistou” para a prevenção de doenças, dando-lhe a possibilidade de participar em rastreios e formações.

“Venho sempre e estou sempre nas formações também”, explicou a são-tomense, enquanto esperava que os profissionais de saúde fizessem o rastreio oral das suas três crianças.

O projeto Saúde no Bairro é desenvolvido pela Associação Vencer o Tempo e inclui, além da sensibilização para a procura de cuidados de saúde, a promoção de estilos de vida saudáveis e a literacia em saúde, a realização de rastreios do cancro do colo do útero, diabetes, visão, saúde oral e ainda de hepatites e doenças sexualmente transmissíveis.

O bairro de Vale de Chicharros, conhecido como bairro da Jamaica, no distrito de Setúbal, foi escolhido para receber o projeto apoiado financeiramente pela plataforma Bairros Saudáveis e desenvolvido em parceria com a Junta de Freguesia da Amora, do Hospital Garcia de Orta (Almada) e do Agrupamento de Centros de Saúde (ACES) Almada-Seixal.

Concretizando a ideia de que “se Maomé não vai à montanha, a montanha vai a Maomé”, o projeto leva aos moradores do Jamaica várias equipas de profissionais de saúde para rastrear doenças silenciosas e ao mesmo tempo conquistar quem lá vive para que se torne dono do seu destino em matéria de saúde.

As ações são vocacionadas para as mulheres, mas os homens e as crianças também são rastreados de cada vez que as equipas ali se deslocam.

E será assim até ao final de 2022, com rastreios, mas também com formações na Junta de Freguesia da Amora, que Oleutisa Ferreira nunca perde: as manhãs de sábados em que se realizam são reservadas para si.

“Aos sábados tenho folga do trabalho e deixo para trás tudo o que tenho para fazer em casa. É o dia para cuidar de mim. Tenho ido a todas, ajudou-me muito. Aprendi como me alimentar melhor e agora também já sei como cuidar da minha mama, como tratar da minha saúde”, disse.

Vanussa Coxi, da associação de moradores, acompanha este projeto com entusiasmo, conhece bem a realidade do bairro e em dia de rastreio está presente para abraçar quem se aproxima, incentivando à participação.

“Estes projetos são uma espécie de salvação. Os rastreios detetam os problemas e encaminham as pessoas, e só isso já é uma mais-valia”, explicou, em declarações à agência Lusa, defendendo que a iniciativa também contribui para combater o isolamento do bairro.

“Permite uma cumplicidade entre quem cá vem e quem cá vive”, frisou.

A vantagem dos rastreios no bairro, adiantou o presidente da junta de freguesia, é que tem outra afluência: “Sabemos a importância que tem para estes bairros onde muitas pessoas não têm médicos de família e passam um pouco ao lado destes rastreios”, disse Manuel Ferreira Araújo, adiantando que estes contactos permitem que, mesmo depois do realojamento previsto para breve para uma parte dos moradores, continuem a ser seguidos.

Na verdade, segundo a coordenadora de enfermagem do ACES Almada-Seixal, o que se pretende é que gradualmente as pessoas ganhem o hábito de procurar os serviços de saúde para prevenir doenças e não só em situação aguda. É um educar para a saúde.

“Cada vez mais o utente tem de tomar conta da sua saúde. A mais-valia de vir ao bairro é que são feitos rastreios em bloco, mas queremos que ganhem ferramentas para que procurem os recursos de acordo com as suas necessidades”, disse Susana Santos.

É este um dos propósitos do projeto-piloto da Associação Vencer o Tempo, presidida por Ivone Ferreira.

Desde o início do ano e no âmbito deste projeto a unidade móvel do ACES Almada-Seixal atendeu 63 pessoas, fez distribuição de material de contraceção e rastreios oportunistas de hipertensão e diabetes.

Uma outra equipa com enfermeiras do Hospital Garcia de Orta fez 65 rastreios de saúde visual. O mais jovem a ser rastreado tinha 11 anos e a mais velha 83.

Já no que respeita ao cancro do colo do útero, 12 mulheres foram rastreadas.

“Pretendemos que a mensagem de que os rastreios são fundamentais na prevenção das doenças possa passar de forma clara e eficaz”, explica a associação no enquadramento de um projeto que aposta na capacitação das mulheres para a tomada de decisão consciente e responsável quanto à sua saúde e das suas famílias.

De cada vez que o projeto vai ao Jamaica, mulheres, homens e crianças vão ao encontro dos profissionais de saúde, muito antes de tudo estar a postos para as consultas, e desta forma regular vão dizendo “presente” à iniciativa de criar um caminho para uma vida com saúde num dos bairros ilegais e com perigosas condições de habitabilidade e salubridade do concelho, onde vivem famílias portuguesas e imigrantes de São Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau, Angola e Cabo Verde.

LUSA/HN

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