Especialista do Hospital São João defende acesso generalizado a testes à covid-19

O diretor da Unidade Autónoma de Gestão de Urgência e Medicina Intensiva do Hospital São João, no Porto, defendeu hoje a generalização do acesso a testes de despiste à covid-19, considerando não fazer sentido “enterrar a cabeça na areia”.

“Não tenho dúvida nenhuma da necessidade de generalizar o acesso aos testes para que os serviços de urgência, que são neste momento o ponto mais fulcral desta pressão, possam ser aliviados”, disse Nelson Pereira.

O médico, que falava aos jornalistas em frente ao serviço de urgência deste hospital do Porto onde foram admitidos quase 950 doentes na terça-feira, 50% dos quais positivos para o vírus SARS-CoV-2, recomendou às autoridades nacionais de saúde “uma análise muito detalhada e refletida sobre o que está a acontecer”.

“Enterrar a cabeça na areia não faz sentido”, referiu.

No Hospital de São João estão internados cerca de 80 doentes com covid-19, dos quais 10 em cuidados intensivos.

Nelson Pereira apontou que “a situação epidemiológica não é mais difícil”, mas falou em “problema de gestão”, razão pela qual pediu “mais planeamento e mais antecipação”.

“Com isto não quero apontar nenhuma medida específica, mas claramente dizer que, pelo menos na região Norte e no nosso hospital – que costuma ser um farol relativamente à situação nacional -, a situação é de agravamento e justifica a ponderação de algumas medidas”, afirmou.

Num momento em que o Hospital de São João está a equacionar ativar o nível 3 do plano de contingência, decisão que tomará até ao próximo fim de semana e que pode implicar a interrupção de 20% da atividade programada, o diretor admitiu que “neste momento está a ser extremamente difícil garantir em tempo útil o atendimento com qualidade a todos os doentes”.

“É algo que não queremos deixar de fazer”, desabafou, apelando à tomada de medidas generalizadas que permitam atenuar a pressão, que diz saber que “vários hospitais estão a sentir”.

Falando em “máximos históricos” de admissões no serviço de urgência e em “equipas extremamente cansadas”, Nelson Pereira disse que não gosta da expressão “linha da frente”, mas decidiu usá-la hoje porque em causa está “aliviar quem está, de facto, na linha da frente”.

“Gerar equilíbrios ao nível hospitalar é muito difícil numa altura em que a resposta que as pessoas têm para poderem testar e fazerem o seu caminho para gerir a sua própria doença está diferente do que foi no passado”, analisou.

Na semana passada, também em declarações aos jornalistas para dar nota de um recorde de admissões no serviço de urgência, 1.022 doentes em 24 horas, que “já preocupava” o hospital, Nelson Pereira pediu “coerência” nas medidas relacionadas com a covid-19, lembrando que os testes deixaram de ser gratuitos e que o abandono da máscara coincidiu com momentos festivos.

Em 10 de maio, em resposta à pergunta sobre se tinha receio que este cenário piorasse, o especialista foi perentório: “Não tenho dúvida nenhuma que pode acontecer”.

segundo dados divulgados na terça-feira pelo Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA), a linhagem BA.5 da variante Ómicron tem apresentado uma frequência relativa “marcadamente crescente”, estimando-se que já seja dominante em Portugal.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) já admitiu que essa linhagem, que apresenta várias características genéticas consideradas de interesse pelos especialistas, caso de mutações com impacto na entrada do coronavírus nas células, pode ser mais transmissível do que a BA.2, mas ressalvou que ainda não existem dados que comprovem que provoca covid-19 mais grave.

LUSA/HN

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