Associação diz que relacionar orientação sexual com vírus Monkeypox “não faz qualquer sentido

20 de Maio 2022

A ILGA Portugal (Intervenção Lésbica, Gay, Bissexual, Trans e Intersexo) defendeu esta sexta-feira que “não faz qualquer sentido” relacionar a orientação sexual com o vírus Monkeypox ou qualquer outra doença, sublinhando que o foco tem de estar nos comportamentos.

“Não faz qualquer sentido relacionar a orientação sexual com esta doença ou com qualquer outra, o que nós temos de focar sempre é nos comportamentos”, defendeu a presidente da ILGA Portugal, em declarações à Lusa.

Ana Aresta sublinhou que “a ciência tem de ser a base” e sustentou que “não há qualquer correlação e não há nada que prove uma correlação” entre a transmissão do vírus Monkeypox e a orientação sexual das pessoas infetadas.

“Já não estamos nos anos 80 ou 90 em que de facto a desinformação contribuía para o estigma, já não estamos nesse momento”, referiu a responsável, lembrando a batalha por causa dos homens homossexuais que estavam impedidos de dar sangue e como, entretanto, isso foi desbloqueado.

Na quarta-feira, a diretora do Programa Nacional para as Infeções Sexualmente Transmissíveis e VIH confirmou que os cinco primeiros casos detetados em Portugal eram de “homens que têm sexo com homens”, apesar de admitir que esse dado pode ter a ver apenas com “a forma como foi dado o alerta”.

“Ainda não sabemos mais. Não está descrita, classicamente, a via de transmissão sexual [como passível de causar esta infeção], mas há transmissão por contacto próximo, íntimo e prolongado”, disse Margarida Tavares.

Para Ana Aresta, há “uma associação interesseira de dados que dizem que pessoas homossexuais testaram positivo” para a doença, destacando que também houve pessoas LGBTI a testarem positivo para a covid-19 e que nunca se fez qualquer associação entre a doença e a orientação sexual, apesar de também a covid-19 ser transmitida por fluidos corporais.

A presidente da ILGA defendeu, por isso, que a “forma como se comunica não poder ser leviana”, já que estão em causa grupos sociais “historicamente estigmatizados”.

“A estigmatização da população LGBTI ou outras minorias é uma realidade sempre que existem este tipo de afirmações e a forma como se comunica, a forma como se informa a população tem de ser pensada e ponderada de forma que as pessoas não sejam ainda mais discriminadas nos seus contextos de dia-a-dia”, concluiu.

Em Portugal foram contabilizados 23 casos, estando a ser feitos pela Direção-Geral da Saúde inquéritos epidemiológicos para identificar cadeias de transmissão e potenciais novos casos.

O vírus Monkeypox é do género Ortopoxvírus (o mais conhecido deste género é o da varíola) e a doença é transmissível através de contacto com animais, ou ainda contacto próximo com pessoas infetadas ou com materiais contaminados.

LUSA/HN

0 Comments

Submit a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

ÚLTIMAS

Doentes urgentes esperam hoje mais de 14 horas no Amadora-Sintra

Os doentes classificados como urgentes que procuram o Hospital Prof. Doutor Fernando da Fonseca, em Amadora-Sintra, enfrentam atualmente tempos de espera superiores a 14 horas para a primeira observação médica, de acordo com dados do portal do SNS consultados esta manhã. 

O relatório OCDE e o resto: o que os números da saúde não mostram

Praticamente toda a população portuguesa tem cobertura para um conjunto central de serviços de saúde, atingindo a universalidade. Contudo, apenas 58% dos cidadãos dizem estar satisfeitos com a disponibilidade de cuidados de qualidade, um valor que fica abaixo da média dos países mais desenvolvidos

Prevenção em Contraciclo: Os Dois Rostos da Qualidade da Saúde em Portugal

O relatório “Health in a Glance 2025” da OCDE revela um sistema de saúde português com contrastes. Enquanto a adesão ao rastreio do cancro da mama, com 55,5%, fica aquém da média da OCDE, a prescrição de antibióticos mantém-se elevada, sublinhando desafios antigos na prevenção de doenças e no uso prudente de medicamentos

Assimetrias Regionais em Saúde Desenham Dois Países Diferentes Dentro de Portugal

Um retrato detalhado do sistema de saúde português revela um país cindido por assimetrias regionais profundas. Enquanto o litoral concentra hospitais e especialistas, o interior enfrenta desertificação médica, acessos limitados e piores resultados de saúde, desde uma menor esperança de vida a uma maior mortalidade prematura. As políticas públicas existentes são apontadas como insuficientes para travar este fosso, que espelha desigualdades socioeconómicas

Disparidades de género na saúde: Homens morrem mais cedo, mulheres vivem mais anos doentes

Em Portugal, como no resto da OCDE, os homens vivem em média menos 5,8 anos do que as mulheres, mas o paradoxo de género revela-se nos detalhes: elas passam uma proporção significativamente maior da sua vida em pior estado de saúde. Esta dupla realidade, com os homens a morrerem mais cedo de causas externas e doenças cardiovasculares e as mulheres a carregarem um fardo pesado de doenças crónicas e incapacitantes, desafia os sistemas de saúde a desenvolverem respostas mais direcionadas

Saúde dos Profissionais de Saúde: O Elo Mais Fraco do Sistema em Portugal

O relatório da OCDE revela uma crise silenciosa a minar o SNS: o esgotamento extremo dos seus profissionais. Com 47% dos médicos e 52% dos enfermeiros com burnout, Portugal destaca-se negativamente na Europa. Este não é apenas um problema de bem-estar individual, mas uma ameaça direta à qualidade e segurança dos cuidados de saúde prestados à população

Relatórios internacionais alertam para dupla desigualdade na saúde: entre géneros e entre ricos e pobres

Portugal observa uma transformação subtil na forma como encara a população mais velha. Para lá dos números, ganham corpo iniciativas que procuram responder ao desafio do isolamento e da inatividade, envolvendo autarquias, instituições de solidariedade e os próprios idosos na construção de respostas que vão do exercício físico ao apoio comunitário. Um movimento que tenta, devagar, mudar uma cultura

MAIS LIDAS

Share This
Verified by MonsterInsights