Formação, investigação e relação com a comunidade: as grandes apostas da Escola Superior de Enfermagem de Lisboa

A Escola Superior de Enfermagem de Lisboa forma cerca de 300 enfermeiros por ano. Em 2021, a instituição recebeu 1.973 candidaturas e foi a primeira opção de 663 candidatos. “Estamos no caminho certo, apostando sempre na melhoria da qualidade da formação e da investigação, dos instrumentos que usamos, dos processos e dos investimentos que fazemos”, afirmou o Presidente da instituição. Em entrevista exclusiva ao HealthNews, João Santos falou dos objetivos e resultados da ESEL, dos projetos do atual mandato e do ensino e da carreira de enfermagem em Portugal.

HealthNews (HN)- Qual é a missão da ESEL?

João Santos (JS)- A nossa missão está inscrita nos nossos estatutos, que foram aprovados e publicados em março de 2009. É sermos um centro de criação, desenvolvimento, transmissão e difusão de cultura e ciência de enfermagem, com vista à excelência e inovação. Vale a pena detalhar um pouco melhor. Desde logo, o compromisso de desenvolvimento da disciplina e da profissão através da investigação; depois, a formação humana, sendo que a vertente de ensino é para nós fundamental e dirige-se aos três ciclos de formação do ensino superior em Portugal – licenciatura em Enfermagem, mestrados em diferentes áreas de especialização em Enfermagem e doutoramento em Enfermagem, neste caso numa parceria com a Universidade de Lisboa. Além disso, a promoção, na nossa comunidade, de autonomia, inovação, liderança, responsabilidade individual e social, e de aprendizagem ao longo da vida. Temos um particular enfoque na relação com as entidades prestadoras de cuidados de saúde, que são nossas parceiras no desenvolvimento, formação e investigação, e cooperamos com instituições portuguesas e de outros países, nomeadamente em África, em países de expressão portuguesa, no sentido de contribuir para o desenvolvimento desses povos e para a aproximação entre todos.

HN- Pode apresentar-nos alguns projetos deste mandato?

JS- Relativamente ao mandato atual, nós temos um conjunto de propósitos e objetivos que traçámos, mas eu, neste momento, talvez salientasse apenas dois ou três. Talvez o primeiro fosse ao nível da investigação. Nós sentimos a necessidade de apostar fortemente na investigação, porque é um elemento essencial daquilo que é a missão da Escola e do modo como esta se relaciona quer com a formação quer com as instituições nossas parceiras e com as quais trabalhamos. Nós criámos recentemente um novo centro de investigação, o Centro de Investigação, Inovação e Desenvolvimento em Enfermagem de Lisboa (CIDNUR), que iniciou funções em março do ano passado. Pretendemos que o centro introduza uma forte dinâmica no sentido do desenvolvimento da investigação da nossa Escola, nomeadamente integrando-a nos nossos projetos formativos, mas também promovendo o seu desenvolvimento através de inúmeros projetos, candidaturas a financiamento e articulação e cooperação com outras instituições do ensino superior, de investigação ou instituições prestadoras de cuidados. É uma fortíssima aposta da Escola, que consideramos ser crítica para o nosso desenvolvimento e para a nossa afirmação enquanto instituição do ensino superior de referência na área da formação em enfermagem e da saúde.

Ao nível dos projetos formativos, em que também queremos incutir esta forte componente ao nível da investigação, estamos em processo de reacreditação do curso de licenciatura – o início do nosso contributo para a formação de enfermeiros em Portugal. Formamos cerca de 300 enfermeiros todos os anos, agora com mais dificuldade, resultante do contexto de pandemia que estamos a viver. Acreditámos recentemente dez cursos de segundo ciclo – cursos de mestrado em Enfermagem em diferentes áreas de especialização – e lançámos e estamos a preparar cursos de pós-graduação em diferentes áreas: Supervisão Clínica em Enfermagem, por exemplo, ou Enfermagem do Trabalho. 

Estamos fortemente empenhados, também, na cooperação e no reforço do trabalho de parceria nas instituições com as quais nos relacionamos. Este reforço é crítico no que diz respeito àquilo que é a operacionalização dos nossos projetos formativos, por um lado; e por outro, a nossa presença deve contribuir para o desenvolvimento destas instituições, bem como permitir o desenvolvimento de diferentes projetos, quer ao nível da investigação, quer a outros níveis, sentidos como necessários nas diferentes instituições. Nós consideramos este trabalho de parceria absolutamente essencial para o sucesso da nossa missão. Já agora, deixe-me referir que a nossa integração no Centro Académico de Medicina de Lisboa, juntamente com outras instituições, nomeadamente com o Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte e várias outras instituições do ensino superior da área da saúde, pode ser um forte contributo para o desenvolvimento não apenas deste trabalho de parceria, que consideramos essencial, mas também, e de uma forma mais abrangente, do desenvolvimento do conhecimento em enfermagem e em saúde. Por consequência, é nossa expectativa que constitua um forte contributo para a inovação e para a melhoria dos cuidados de saúde em Portugal, nomeadamente no que diz respeito às instituições que estão envolvidas.

Evidentemente que há outros aspetos importantes, como as questões relacionadas com a internacionalização ou a sustentabilidade, mas, para não tocar em todos, destaco estes três: a formação, a investigação e a relação com a comunidade, que são essenciais no nosso projeto.

HN- Falou bastante da importância da relação da ESEL com as instituições de saúde. É difícil encontrar vagas com idoneidade reconhecida?

JS- Talvez dificuldade não seja a palavra certa. Nós temos, relativamente às instituições, uma forma de ver a cooperação talvez um pouco diferente. Mesmo quando reconhecemos que há dificuldades, nós acreditamos que a presença da Escola e dos seus projetos formativos nesses contextos pode ser um forte contributo para a melhoria da qualidade dos cuidados de enfermagem que aí são prestados. É certamente importante que os serviços tenham um conjunto de competências que lhes permitam ser considerados campos de estágio de excelência, mas também é verdade que a qualidade é uma construção diária. É fundamental esta relação de proximidade entre as instituições que prestam cuidados e as instituições que fazem formação, nomeadamente de enfermeiros, sempre com o propósito de ter mais qualidade, mais inovação e mais conhecimento.

Há que reconhecer que a pandemia veio agravar alguns problemas que já existiam e criar outros. O número de vagas disponibilizadas diminuiu exponencialmente e, por outro lado, o conjunto de intercorrências que decorrem com a vivência da situação pandémica por parte de todos os intervenientes, nomeadamente os estudantes e os próprios serviços, que em muitos casos alteraram a sua finalidade e passaram a dedicar-se a doentes COVID, vieram trazer novas dificuldades. 

Importa dizer que Portugal aceitou e subscreveu uma diretiva europeia sobre aquilo que deve ser a formação em enfermagem em Portugal. Tem responsabilidade nesta matéria, e eu sinto que nem sempre o Estado, através das tutelas que intervêm neste processo, nomeadamente o Ministério da Saúde e o Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, consegue alinhar uma posição inequívoca de apoio à formação de enfermeiros. As instituições públicas de ensino superior responsáveis pela formação, como a Escola Superior de Enfermagem de Lisboa, concorrem, no terreno dos contextos de experiência clínica e para a realização dos seus ensinos clínicos, com todas as outras escolas, nomeadamente do setor privado, que podem negociar condições particulares, nomeadamente propondo pagamentos para a receção de estudantes em estágios, com as quais nós não podemos competir. Se não houver, da parte de quem tem responsabilidades nestas áreas, uma clarificação de qual o papel que as instituições públicas de saúde devem ter relativamente às instituições públicas de formação de enfermeiros, na garantia das condições necessárias à formação, evitando distorções indesejáveis, vamos continuar a ter dificuldades. 

Eu quero crer que iremos avançar num sentido positivo, mas isso passa, do meu ponto de vista, pela assunção clara de que as instituições prestadoras de cuidados de saúde públicas têm que ter um compromisso efetivo, real e de preferência para com as instituições de ensino superior públicas que formam enfermeiros e outros profissionais de saúde. Caso contrário, se o terreno for desregulado e sujeito a pressões de diferentes níveis e intensidades, sem que essas instituições tenham ferramentas para poder entrar neste concurso em pé de igualdade, as nossas dificuldades poderão agravar-se.

HN- Ainda é de alguma forma insípida a abordagem da enfermagem pela comunicação social.

JS- Verdade.

HN- Vê alguma razão para esse distanciamento?

JS- Eu acho que há razões culturais, desde logo relacionadas com o reconhecimento social do valor da enfermagem, enquanto profissão e enquanto disciplina. A enfermagem, tradicionalmente, assim como outras profissões na área da saúde, vive num contexto multiprofissional, e a valorização social relativamente a essas diferentes profissões é muito diferente. Portanto, é natural que, reproduzindo o valor e, eu diria, o preconceito que existem na sociedade, os media procurem aqueles que acham que são mais relevantes. 

Nós sabemos que os melhores resultados em saúde se obtêm com o contributo de várias disciplinas e profissões, num verdadeiro trabalho em equipa, mas esta evidência ainda não é pública, nem partilhada com facilidade, ultrapassando os protagonistas clássicos. Há, por isso, um caminho a percorrer, e eu diria que mais do que esperar que a sociedade reconheça algo que se deseja, mas que não depende inteiramente de nós, é preciso fazer a nossa parte. E a nossa parte é trabalhar no sentido de produzir conhecimento e informação útil, reconhecível para que aqueles que têm responsabilidades na sua difusão vejam como uma mais-valia que vale a pena partilhar com a comunidade. Temos de ser nós a dar o impulso para que isto aconteça, e não ficar apenas à espera; por isso, estamos também a dar uma especial atenção ao nível da disseminação da informação e da comunicação do que fazemos e produzimos.

Se não conseguirmos desenvolver uma estratégia de comunicação eficaz e, antes disso, produzir conhecimento e evidências que mereçam ser partilhados com a comunidade, dificilmente conseguiremos dar grandes passos neste caminho. Há áreas de interesse das comunidades, nomeadamente aquelas que se dirigem ao aumento das competências para a gestão da sua saúde, situações de dependência ou promoção de estilos de vida saudáveis, por exemplo, em que considero fundamental produzir conhecimento que possa ser partilhado com a sociedade em geral.

Não basta definir a estratégia. É preciso ter os produtos. Por isso é que a criação do nosso centro de investigação e a participação no centro académico clínico são críticas nesta matéria. Depois é preciso fazer o conhecimento chegar não só às instituições que o podem utilizar, alterando e melhorando procedimentos e introduzindo inovação naquilo que são as suas práticas, mas também ao público em geral, que só assim reconhecerá o valor que a profissão de enfermeiro pode trazer à vida das pessoas, à sua saúde e ao seu bem-estar.

HN- Qual o número de alunos a frequentar a ESEL? Esse número tem oscilado?

JS- Neste momento, temos 1.320 estudantes a frequentar o curso de licenciatura e 320 nos cursos de mestrado. Em 2021, todas as vagas postas a concurso foram preenchidas. Candidataram-se à nossa Escola 1.973 estudantes, para 287 vagas. A ESEL foi a primeira opção de 663 candidatos (2,31 candidatos para cada vaga), o que nos coloca nos primeiros lugares entre todas as instituições do ensino superior público no que respeita a este importante indicador de atratividade. Também a classificação elevada (160,6) do último candidato admitido evidencia uma procura sustentada e uma escola e uma área de conhecimento e de trabalho atrativas para os nossos jovens. Nos últimos anos, o número de candidatos foi muito alto, e nos últimos dois anos, penso que posso afirmar ter sido ainda maior, eventualmente fruto de um aumento da visibilidade resultante da pandemia. 

Mas também importa referir que aos estudantes provenientes do concurso nacional de acesso junta-se ainda um conjunto de estudantes (mais de três dezenas) oriundos de concursos especiais, de regimes especiais de ingresso, de mudança de curso e, também, um grupo de estudantes colocado pela Direção-Geral do Ensino Superior, oriundo de países africanos de língua portuguesa. 

Nós temos tido uma grande estabilidade nestes números. Evidentemente que há oscilações anuais, mas julgo que não é previsível nenhuma dificuldade relativamente àquilo que é a atratividade da Escola no curso de licenciatura. O mesmo se passa nos cursos de mestrado e, também, no curso de doutoramento. 

Naqueles anos mais difíceis em que o Serviço Nacional de Saúde não admitiu enfermeiros, houve um aumento muito significativo da emigração em enfermagem, que ainda hoje se faz sentir. Estou certo que isso corresponde a um desejo das pessoas de alargar os seus horizontes em termos de procura de emprego, eventualmente com melhores condições que não encontram em Portugal. Se a profissão for mal remunerada, mal considerada, os jovens terão tendência a escolher outras formações ou, escolhendo a formação em enfermagem, a optar por outros lugares para exercer a profissão.

Mas nós sabemos que temos uma formação com qualidade reconhecida. Não apenas na formação inicial, mas também na formação de mestrado e doutoramento, essencial para a maior qualificação dos enfermeiros e, também, para o desenvolvimento do conhecimento da disciplina e da sustentabilidade do sistema de ensino em enfermagem em Portugal. Estamos no caminho certo, apostando sempre na melhoria da qualidade da formação e da investigação, dos instrumentos que usamos, dos processos e dos investimentos que fazemos, e acreditamos que o futuro será de sucesso.

Entrevista de Rita Antunes

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